sábado, 4 de junho de 2022

Guerra cultura: Brasil, uma batalha esquisita

Passei 25 dias lendo fanfic da extrema-direita, meu cérebro não derreteu, mas... 

O problema em termo da guerra cultural nasce de tensões estéticas e urbanas, estabelecidas especialmente a partir da pluralidade de recursos culturais. Nos Estados Unidos, o termo foi empregado por Robert Mapplethorpe (1946-1989), fotógrafo nova-iorquino que utilizou o termo para se auto-identificar em meio a tensão de críticas a sua própria produção com fotografias potencialmente eróticas. São três os campos de batalha da Guerra Cultural, desde então: religião, sexualidade e etnia. No Brasil, a própria perspectiva de tensão é frustrada. E eu vou tentar explicar porquê.


Por conta de inabilidade no trato dos problemas centrais, falta de comprometimento epistêmico com aquilo que de fato se defende, a guerra cultural no Brasil não foi ruralizada, como nos Estados Unidos, mas pouco se toca nos problemas que concernem a sexualidade e etnia diretamente. Os conservadores brasileiros preferem uma abordagem voltada para o conspiracionismo. As teorias da conspiração utilizadas por aqui não são divergentes daquelas das quais se aproveitam os escritores dedicados ao tema “Guerra Cultural” na América, mas possuem características especiais. Em primeiro lugar, a estética que é sugerida se transforma em algo não-rural ou de “desenvolvimento” urbano do interior. Em segundo lugar, por falta de uma estética conservadora no estilo “texas ranger cowboy”, as noções de família, raça ou mesmo o antissemitismo, marcas latentes destes escritores nacionais é fundamentalmente levada para uma religiosidade católica-conservadora, paralela ao neopentecostalismo latente da sociedade brasileira.

A expressão “guerra cultural” é utilizada para identificar o “debate público” sobre os três temas centrais sem se voltar diretamente para eles; sempre tratando indivíduos ou grupos no campo político “comunista” ou “anticominista”, tentando reduzir a isso a própria História, dentro da tensão política-cultural.

Os escritores que tentam se identificar com esse fator no Brasil possuem duas características em comum: Olavo de Carvalho como fonte primária de seus escritos; e pouco ajuste em referenciais diretos com as teorias da conspiração coirmãs norte-americanas. Essa observação não decorre apenas do fato natural da dificuldade que tais indivíduos têm com a língua estrangeira. Mais do que isso: Olavo serve como uma barreira estabelecida entre a estética rural-pentecostal americana e a defesa da tese geral de desmonte do ocidente pelo declínio do catolicismo. Este filtro evita que nossos “escritores conservadores” precisem aderir ao pentecostalismo em si, e permite que seu conspiracionismo caminhe em paralelo com os colegas brasileiros, movimentados por pastores.

É um atraso do conservadorismo brasileiro nos campos de batalha. Os americanos conseguem ser muito mais abertamente antissemitas, racistas, xenófobos e sexistas, pelo fato de suas teses da conspiração possuírem um pano-de-fundo descolado da tradição do catolicismo, no entanto, também há outros atrasos aqui:

i) a abertura política tardia (tal qual os totalitarismos europeus) manteve os problemas centrais da guerra cultural represados por mais tempo;

ii) lutamos uma “guerra contra o comunismo” por procuração, sem convite direto para a Guerra Fria, uma disputa sem custos militares e sociais diretos para o país; o conservador brasileiro é viúvo de uma guerra que não lutou ou sequer foi convidado para lugar;

iii) ausência de reconhecimento nacional, um país continental que não se reconhece como nação, abre espaço para patriotismo de coalisão, descompromissado com a identidade nacional, especialmente aquela do interior de sua própria terra; a preferência aqui é pela estética do agroboy americano.


A cultura artística e seus fenômenos na música e artes visuais, contraponto natural ao conservadorismo, nos termos da Guerra Cultural, teve pouca influência no interior do Brasil, quando comparado a mesma difusão, correlacionada a cultura nos Estados Unidos. Aqui, a ideia propagada de “marxismo cultural” é um fenômeno urbano, para esses “pensadores” do conservadorismo, nunca explicado de um Brasil interiorano ou contemplativo. A influência da repressão no interior do Brasil não se deu pela cultura que precisava ser administrada no eixo de produção relevante, Rio-São Paulo, mas chegou ao interior pela economia, pelo êxodo, pela fome, não pela cultura. No interior do Brasil as ideias nacionalistas coexistem com mais naturalidade com o racismo estrutural, com a mestiçagem étnica e sincretismo religioso; nas capitais com menos naturalidade e com mais truculência a cultura precisou ser preocupação do estado censor.
 A linguagem global de comunicação, de fora para dentro, do litoral para o interior, chegou muito mais tardiamente no Brasil que importava para a Guerra Cultural nos Estados Unidos, a estética contemplativa do agrário, da família nuclear, o campo onde o branco governa e o negro trabalha. Aqui não houve esse espaço de adesão.

Toda teoria da conspiração que é naturalizada no interior americano, precisa chegar ao Brasil pela esfera da religião; ali está, para nossos conspiracionistas, a destruição dos valores ocidentais e a religião resume aqui o problema da guerra cultural. Não em virtude disso, mas como consequência deste fator, o produto da produção das teorias conspiratórias aqui é pulverizado sobre uma gama de fatores geopolíticos internacionais, complicados de serem analisados por um personagem histórico que não enfrentou a guerra, mas se julga derrotado.

“As grandes religiões (catolicismo e islã), as famílias dinásticas (Rothschild, Rockfeller), as sociedades iniciáticas (monarquia e rosa cruz) e o partido revolucionário (o partido comunista)” são elementos históricos que para os conspiracionistas brasileiros resumem toda a história, os “atores-motores” responsáveis integralmente pelos caminhos comunistas traçados pela humanidade. Vale notar que todos eles são elementos de ordem religiosa, seja pela presença do judaísmo na citação direta a famílias tradicionais judias americanas ou pela presença do partido comunista, representando o ateísmo na política. O antissemitismo, quando utilizado em terras tupiniquins, por exemplo, é diferente daquele antissemitismo contemplativo americano, fundamentalmente anti-industrial ou como pedra de toque da comunicação distribuída massivamente ao interior. É um antissemitismo direto, apresentado apenas por meio da guerra cultural, na qual o ocidente é o derrotado.

Toda teoria da conspiração é apresentada para se adotar uma postura de vitimismo histórico; essa gente acredita piamente na ideia de que não existem agentes históricos externos desta perspectiva na qual quatro instituições sociais são “entidades seculares” pelas quais todo motor da história passa; acreditam na impossibilidade de que sequer exista história fora do determinismo, eventos que possam ser encaminhados ao longo de uma geração ou por um personagem influente. De Alexandre VI, o Papa Corrupto, a Napoleão, todos são sabotados e perdem seu papel de protagonismo diante daqueles que dominam os laços que amarram o ocidente.

Nesses moldes, a guerra cultural é um diálogo vazio, consigo mesmo ou com um grupo isolado, afeito a conspiração; a produção “literária” sobre o assunto reforça o título, as não arranha os problemas. Serve, outrossim, para alimentar a teoria da conspiração, “dialogar” com os seus, afeitos a explicação facilitada e reducionista. O papel de “antiacadêmico” não é adotado por esses "combatentes" da guerra cultural propositalmente. Eles gostariam de ocupar espaços dentro da engrenagem acadêmica. Se pudessem, o fariam, tal qual o fazem e redes sociais e espaços marginalizados de comunicação. O que sobraria do espaço de vítima da destruição dos valores ocidentais se assim o fizessem? Se fossem, por competência, acolhidos nas universidades? Deixar de ser antiacadêmico é o mesmo que perder a parcela no quinhão da vítima ou se aproveitar do espaço ocupado para se apresentar como perseguido. Essa gente é fundamentalmente mimizenta, vitimista e canalha. Aplicam para si a metodologia de escrita de "seja aquilo que critica nos outros". 

O conservadorismo brasileiro, tardio no interior, precisou disputar espaço no turbilhão de lutas sociais, busca de emancipação de direitos dos grandes centros urbanos. A qualidade baixa dessa disputa também pode ter tido alguma influência, mas o problema deles ainda é religioso (como eles insistem em resaltar) e geográfico (como eu estou apontando). O local é perfeito para perder uma batalha. Pela dificuldade de acesso a bens culturais que antagonizaram com a tensão da guerra cultural, a disputa aqui é mais recente, interiorizada apenas muito mais tarde que na América. Mais recente e menos emblemática, aliás. Racismo, antissemitismo ou machismo foram naturalizados no campo da tolerância que temos com os conspiracionistas nacionais. E isso é muito diferente de um conservadorismo que opera de dentro para fora, pelo campo dos costumes conservadores. A “discussão”, aqui, é feita para dissimular os próprios fracassos. Tocar abertamente nos problemas que originam a expressão é o mesmo que mostrar as feridas da própria derrota. Existe uma permanente necessidade de deixar de lado os problemas reais de conflitos religiosos, étnicos ou sexuais. O tema da religião, por outro lado, é permanente e flerta com todos esses tópicos, desproblematiza-os. A religião flerta com todas as esferas do histórico e do político e, eventualmente, com a guerra real, seja a revolução bolchevique ou a contrarreforma jesuíta. Mais do que ser a base para a teoria da conspiração, a guerra cultural é o método pelo qual o conservadorismo sobrevive na marginalidade. 

O conservador brasileiro é basicamente um derrotista, vítima da história, seus valores foram martirizados no sangue da guerra da qual nenhum ancestral seu participou e ele sonha em ser convidado para participar. O atestado do suburbano global
, europeu por "herança" e americano por "cultura", precisa ser carimbado com a desculpa dos motivos pelos quais não fazemos parte do ocidente. É impossível para o conservador urbano nacionalista contar com algum incidente histórico real que tenha maximizado o ocidente, a religião cristã e os valores estéticos presentes em sua memória cinematográfica. Sem ter diante de si sequer a estética rural de um oeste, é preciso que ele recorra a imagens ainda mais abstratas e estranhas. Com a derrota em todas as guerras religiosas reais desde o século XVI, a vítima precisa recorrer a imagem das Cruzadas. O conservador brasileiro basicamente é um cosplay de cavaleiro templário na praça de alimentação de um shopping. 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Orçamento secreto, ilimitado, on line e custo/benefício

Eu estava revendo coisas que escrevi quando estive em Londres e relendo minhas próprias ideias, como é natural aos não-completamente idiotas. Tentei explicar naquela oportunidade que comparar valores de artefatos de luxo com produtos populares é uma intransigência de pessoas com alguma preguiça moral, sedentos por cortar cabeças, impiedosos com o dinheiro alheio. Tornei a me lembrar disso porque o comércio eletrônico entrou na minha vida de forma irreversível. Claro, que não tenho comprado nada de luxo nas últimas vidas que tive nesta Terra, mesmo assim, a internet nos deu poder de comparação para pesar o custo/benefício das coisas de compramos, não tínhamos antes, sabemos bem. E isso é tão democrático que vale para praticamente tudo, de relógios populares a carros de luxo, passando por toalhas de mesa. 

Alguns artigos despertam mais o interesse dos consumidores e das empresas de comunicação que se especializaram em release, review, unboxing e outros meios de narrar a experiência com um produto. Equipamentos eletrônicos ligados à tecnologia têm mais chance de despertarem o interesse do consumidor que procura por isso on line, porque - ao natural - é um consumidor que compra on line com mais facilidade, compara preços e se importa com o que tem para gastar. A relação entre custo e benefício foi alterada para tudo nas relações humanas. Namoros e paternidades têm sido pesados de maneira desumana e isso tumultuado as relações interpessoais, mas vou respeitar a minha regra de nunca falar sobre assuntos de psicologia comportamental, pelo profundo desgosto que tenho pelas pessoas que tratam disso como uma profissão da área da saúde. Gentalha, claro. 

O que quero dizer é que as relações de custo/benefício, afastadas do varejo, são outras no consumo, hoje em dia. A compra por impulso, na vitrine da loja, se limitou a quem não tem acesso à crédito ou mesmo à internet; também para produtos difíceis de serem transportados ou que preferencialmente são "provados", como vestimentas. No geral, o varejo vai desaparecer. 

Agora, você tem a oportunidade virtual de comparar aquilo que você está comprando com o pináculo da tecnologia em torno de um determinado produto: materiais mais duráveis, sistemas mais rápidos, desempenho e eficiência melhores. E pode fazer isso com absolutamente tudo o que deseja consumir. Isso desafia todos aqueles que - sem uma concorrência desse tipo, no passado - eram reconhecidamente os melhores nas suas áreas.  Principalmente, produtos de luxo. Custos precisam ser cortados, mas a pesquisa continua sendo a chave do problema para eles. 

Isso existe nos sistemas econômicos abertos no mundo todo, mas você precisará de uma caricatura econômica para entender o problema. E essa caricatura é o Brasil, um país onde as viúvas de um passado ruim e tacanha são saudosistas de Gol 1000, Corcel, Opala e Fusca. Carros ruins? Não. Horríveis! Apenas a única coisa que se tinha a disposição por burrice política e protecionismo. Até nosso nacionalismo é um projeto importado e mal executado. 

Vivemos tempos economicamente bizarros em muitos setores. As montadoras de automóveis de luxo, por exemplo, produzem com menos qualidade do que antes e cobram mais caro por isso. Aqueles que podem pagar querem, de fato, ostentar sem comparar, a marca faz diferença pra eles. Outros, na outra ponta da corda cada vez mais tensionada, trocam a carne vermelha pelo frango, o frango pelo ovo e o ovo é substituído - tenham piedade! - pelo que quer que seja. 

Concluo dizendo que recomendar a morte de Paulo Jegues é um imperativo moral e econômico inevitável. 

Cito Eduardo Cunha: Deus tenha misericórdia dessa nação!

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Até quando cala, Lula está te roubando

 A segunda metade dos anos 90, não produziu muitos políticos habilidosos. Brizola, talvez, com um pé na primeira metade. O resto da nossa inteligência política foi convertida em safadeza. Lula, hoje, é o principal responsável pelo não-impeachment do presidente da república. A manchete não é "Lira não vota pedidos de impeachment" é "Lula não quer a frágil oposição o impeachment". Faz isso, ao mesmo tempo que evita acenar para as elites e deixa a imprensa criar o mantra de que seu melhor jogo é "calado", esperando o antagonismo da campanha eleitoral. Vivemos, hoje, o PT de 2015: melhor prever como é mais fácil ganhar amanhã e dobrar a aposta. Vencer com Temer no governo era mais viável em 2016. Hoje, só com Bolsonaro elegível, Lula vence. Chegamos no estágio no qual a política brasileira é dependente da destruição do Brasil e da sua ingovernabilidade. Somos reféns de canalhas. Fomos sequestrados por canalhas. 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Lata de Lixo da História Política


Nunca foi sobre voto impresso, muito menos sobre auditoria nas eleições. A demanda homérica criada pelo mandatário do poder Executivo é um plano novo, desesperado, de alguém que perde apoio político e vê as chances de reeleição diminuírem, dia após dia. Bolsonaro ficou com medo das urnas, porque - pela primeira vez - tem algo a perder. Acuado, encampou sozinho, sem apoio sequer na explanada dos ministérios, a ideia de um "voto impresso e auditável".

Nunca foi voto impresso. 

A lata de lixo da história acolhe pessoas vivas. Olavo de Carvalho é um excelente exemplo. Mas não da lata de lixo da história política! Trata-se, outrossim, de outra figura pública, articulista de jornais brasileiros importantes até 2005; uma outra figura, quando era astrólogo, bem antes disso, quando tentou a vida acadêmica. A lata de lixo da história de Olavo de Carvalho é acadêmica. Acuado, ignorado e desmentido pelo sistema organizado de produção intelectual, ele entendeu perfeitamente quando estaria sendo jogado na lata de lixo da história. Trocou a mendicância nas ruas de São Paulo pelo autoexílio, no momento mais oportuno de todos: o primeiro governo Lula, um governo "comunista". Mendigar nos USA, além de aparentemente mais coerente, é mais fácil. Ele não precisa assumir a responsabilidade jurídica e intelectual dos absurdos que passou a dizer. Basta que consiga criar uma vaquinha na internet para conseguir voltar ao Brasil, em seus tratamentos de saúde. Afinal, a vida de um idoso mendicante nos Estados Unidos também não é nada fácil. 

Qual o momento certo para Bolsonaro assumir o papel que lhe cabe na lata de lixo da história política? A pergunta não é se, mas quando. Ele é a pessoa mais vulnerável a perda do apoio que o elegeu. Diferente dos seus defensores oportunistas, como Onyx Lorenzoni ou Osmar Terra, com oportunidade de se refugiarem em cargos no Congresso, Estados e Prefeituras, Bolsonaro está sozinho. Personagens que o orbitam, sempre tiveram algo a perder. O momento mais oportuno para ele assumir o seu lugar na lata de lixo da história é mais parecido com o de Jânio Quadros do que com o de Fernando Collor. O ataque a urna eletrônica dá Bolsonaro a tese da inexigibilidade. Atacar a urna eletrônica reiteradas vezes é atacar o Supremo Tribunal Eleitoral e, na cola, todos os ministros do Supremo. É implorar para ser investigado, condenado e se tornar inelegível. A lata de lixo perfeita, no momento perfeito. É muito difícil ficar por cima do chorume, mas não custa tentar. Olavo conseguiu; Jânio conseguiu. 

Sem apoio para criar um partido político e com as chances de um segundo turno ameaçado, o papel de perseguido político de Bolsonaro é a única coisa que poderia lhe unir a Lula. É sua única chance a longo prazo. A inexigibilidade de Bolsonaro não é a única carta a disposição do presidente mais inepto, desde Jânio Quadros. É a alternativa do momento. Todas as outras ele não consegue reconhecer por burrice mesmo. Com a inexigibilidade, ele pode ter a chance de ser para a política aquilo que Olavo de Carvalho é para a universidade, um pária, ignorado, sustentado por vaquinhas on line

O papel de Bolsonaro será para sempre uma mistura de Jânio com Olavo: denunciado por algum filho, dependente dos votos de São Paulo para ser prefeito e sustentado pela mirrada militância que aceita orbitá-lo. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Até onde me lembro, ninguém estava interessado em normal algum. Imagina só o "novo normal"


O "novo normal" é uma expressão criada por aquilo que - um dia - foi a mídia hegemônica para identificar o funcionamento da sociedade durante e pós pandemia. Trata-se de um grito desesperado por um espaço que eles jamais ocuparam, mas - por tantas e tantas circunstâncias - foi fácil fazer de conta que ocupavam, porque é isso que se faz quando se está em uma posição de hegemonia: se faz de conta que nunca sairá dela. A mídia, agora, é só normativa e tenta influenciar pelo espetáculo e pelo sentimentalismo. É o preço que se paga em uma sociedade infantilizada, onde um reality show com velhos, tratados como crianças, cantando num mega-karaokê, tem mais chances de influenciar decisões política e morais do que um noticiário. 

Essa é uma definição nova de mídia, em confronto com uma definição antiga que eles ainda tentam sustentar: se julgam uma ponte entre os fatos e a sociedade. O caminho sobre essa ponte é repleto de sinais, lombadas e pedras normativas. Mais do que se comportar como um canal para os fatos, a mídia e, especialmente, o jornalismo sempre foram normativos: buscaram ditar a conduta das pessoas em sociedade, apontando soluções. Faz-se isso buscando culpados, descrevendo os problemas ou simplesmente dizendo que o mundo é assim e pronto. "Acostume-se, as coisas mudaram", insistem eles. "Vamos mostrar um beijo gay na novela, sim. Não se assustem, é o novo normal. Vejam: está tudo sob controle. Vamos mostrar o tal beijo gay meio que de "cima pra baixo". E vamos mostrar uma vez só. Não podemos correr o risco dos últimos patrocinadores também debandarem para as redes sociais, como fez o público! Se quiserem rever a tal cena 'polêmica', procurem na internet... fizemos nossa parte!". 

Pois é, as coisas não mudaram, nem o mundo é assim como eles dizem ser e sequer conseguem descrever os problemas com alguma habilidade que os autorize a apontar soluções.  

O fracasso mais recente desse golpe tomado pelo pessoal que come caviar e arrota regras vem na expressão "novo normal". Seu pano-de-fundo mostra o conflito da forma como o politicamente correto espera que as pessoas passem a se comportar em meio a uma pandemia e, inclusive, após ela passar. Esse conflito escancara a dificuldade dessa gente em admitir que eles não têm força imperativa alguma. Pelo contrário, suas agendas são dominadas por redes sociais, pela forma de cancelamento advinda do público e, fundamentalmente, pela completa falta de capacidade de encontrar uma explicação racional e coerente para o que está acontecendo. O público deles foi treinado para jamais suportar explicações racionais e coerentes. Foi treinado para se acostumar de levinho com o "novo normal". E o melhor lugar pra continuar mantendo essa prática preguiçosa é na rede social e não lendo o jornal ou vendo TV. 

Na dúvida, o cético suspende juízo. Na mesma dúvida, o noticiário dá um tremendo chute e surge o "novo normal". Pois é, faltou lembrar que ninguém quer o "novo normal", porque o antigo já era uma porcaria.  

Se eu precisasse dar um chute, seria esse: ceticismo é o novo sexy. 

sábado, 7 de novembro de 2020

Eu esperava mais dessa gente

 O apagão de energia elétrica no território - eterno território! - que insiste em ser Estado, Amapá, não é um inconveniente normal. Na verdade, não é nem um inconveniente a julgar pelo candidato à prefeitura, Josiel Alcolumbre. Na campanha, ele esconde o próprio sobrenome para evitar ilações diretas com o irmão, presidente do senado. David Alcolumbre é herdeiro político da canalhice e, portanto, ruim de voto. Não chegou nem no segundo turno quando concorreu a governador. Quis a desgraça em Brasília que se torna-se presidente do Senado. Alcolumbre é uma família de judeus capaz de fazer o maior corola de mesquita se comportar como um antissemita radical. Josiel, por sua vez, busca alguma herança política em cima da roubalheira; não perdeu tempo e foi para a rádio terceirizar a culpa de um déficit logístico pelo qual seus antepassados são responsáveis diretos. Conseguiu energia elétrica provavelmente em algum gerador ou no próprio rabo para gravar sua propaganda eleitoral.

Em meio a isso, fica um povo alijado, sem energia elétrica, no Estado que percaptamente mais a produz; sem acesso a água potável, ao lado do maior rio do mundo; sem acesso a combustível ou comunicações. O incêndio foi, sim, provocado por um raio, mas é resultado de incompetência, burrice de um povo que privatiza ou estatiza sem saber o que esta fazendo. É o legado da colonização de um povo que elegeu Alcolumbre e se submeteu como curral eleitoral de segunda-mão de José Sarney no passado próximo.

A esquerda pueril e cirandeira mente soluções; a direita se aproveita da desgraça. E toda desgraça é pouca, enquanto não houve mortos. 

Philip Roth, estupefato com o fato dos gays demonstrarem o desejo honesto de casar, já havia explicado que burrice não tem raça ou opção sexual: "eu esperava mais dessa gente, mas pelo visto eles também não têm senso de realidade". Pois é, nunca tiveram.

Se você quer saber mais sobre como a família Alcolumbre enriqueceu explorando índios, acesse.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Finalmente, o legado da Copa!

 Não é qualquer lugar que pode ter a sua história separada em ciclos, uma sucessão de etapas em torno dos mesmos pontos: conservar a injustiça e perpetuar a burrice. O Brasil é um desses lugares. Colônia, império, primeira república, estado novo, democracia e ditadura militar são ciclos em torno da nossa ignorância e dos nossos fracassos. Só conseguimos justiça distributiva se for o caso de distribuir a perda de oportunidades e retributiva se precisarmos retribuir a brutalidade com mais intolerância. 

A história recente também sobrevive desses ciclos. Dois mil e treze foi o eclipsar de um que teve seu ponto alto na copa do mundo de 14 e encerramento no impeachment de 15. Restou desse processo o BRT ou metrô? Não. Foram obras que nunca acabaram. Hospitais, centros de pesquisa? Não. Não se usa pão e circo para essas coisas. Aprendemos com isso que a esquerda não tem licença para roubar? Também, não. Apenas demos a direita a oportunidade de fazer isso por algum tempo. 

Na perda dessas oportunidades, talvez, o único legado que nos reste virá com a pandemia.

Nela, aprenderemos que o paradoxo da tolerância precisa ser superado, que vidas pouco importam quando a liberdade não faz sentido. O corona vírus derrubou mais máscaras do que vestiu e descobrimos que o pior canalha de direita é aquele capaz de se contaminar e defender a contaminação dos outros, quando estiver curado, afinal: os mortos são irrelevantes quando abatidos em guerras, quê importam os mortos da guerra que não fomos convidados a lutar? Não aprenderemos que Darwin tem razão, porque o processo de aniquilamento dos menos aptos é lento demais para nossa burrice incondicional frente à ciência, mas descobriremos que - como legado! - a escola não ensina, a universidade só serve pra distribuir diplomas para ineptos egoístas e narcisistas e os hospitais não funcionam para os pobres. 

Talvez possamos separar pessoas para o lixo da história, iniciar outro ciclo com outros mentecaptos no poder e - talvez um dia, como legado! - de fato eliminar aqueles que atrapalham, levar para el paredón aqueles que estão no mundo a passeio e, finalmente, matar um presidente ou outro. Tudo apoiado nos princípios de tiranicídio já conhecidos pela civilização a algum tempo. 

Talvez um dia - como legado! - possamos superar o paradoxo da tolerância e nos tornarmos livres. 

segunda-feira, 15 de junho de 2020

A tentativa de sequestrar outra agenda da educação pública

Eu não costumo falar a respeito de mim mesmo porque minha vida é tremendamente desinteressante. Desde que esse espaço existe, e lá se vão uns treze anos, o leitor raramente sabe onde estou ou o que eu ando fazendo. Não vejo contexto nessas coisas. Prefiro a literatura que fala a verdade mentindo; e a filosofia que mente falando a verdade. Se o patriotismo foi o último refúgio dos canalhas, talvez hoje o cinismo seja o único refúgio dos patriotas.

Assumi recentemente aquilo que considero o maior desafio profissional da minha vida: ser professor de universidade. Optei pela universidade pública porque fui criado dentro dela e, nas poucas vezes que estive em universidades privadas foi como bolsista, para defender o público. Meu carinho pela educação pública é honesto e orgulhoso e, mesmo sendo péssimo na memória dos nomes, sei o nome de cada professora que me atendeu desde a pré-escola.

Nesse momento terrível de pandemia, a exigência do isolamento social aguçou substancialmente o complô contra o ensino público. Isso aconteceu, porque fez crescer na universidade aquilo que eu considero o tipo mais rasteiro de auto-sabotagem: a sabotagem interna ao ensino.

Em todos os níveis da educação, é flagrante que a última prioridade das autoridades, gestores privados e da própria sociedade civil, é a volta às aulas de forma regular, com alunos dentro da sala de aula. Isso acontece por dois motivos: o cuidado natural que devemos ter com as crianças, por um lado; e, considero tão importante para entender o porquê da falta de pressa em fazer algo pela educação, o desinteresse político. Ou alguém imagina que surgirá por aqui uma sugestão de reduzir o número de alunos dentro das salas de aula, como aconteceu em Israel que limitou o volume de estudantes a 15 e fez a maior contratação de professores desde a reconstrução da Alemanha no pós-gerra?

Sendo assim, não tenho medo de prever: a última coisa que a sociedade brasileira fará será colocar alunos dentro da sala de aula. Mesmo na quarentena e no isolamento social mais hipócrita e meia boa do mundo, a preguiça e medo manterá todos fora das salas de aula até o fim completo de qualquer risco à saúde.

Ponto. Nova linha. Dito isso, vou falar da universidade.

O discurso deteriorado, envolvendo conchavos conspiracionistas está, nesse momento, tentando fazer crer que o melhor para o campo do ensino das universidades públicas é, acreditem, não fazer nada. Trata-se de um discurso conspiracionista, porque vende a ideia de que estamos diante de um grande plano do "neo-liberalismo", "capitalismo mercadológico", e faz uso de outras liturgias flagrantemente cartilhescas e ultrapassadas para tentar incendiar o fim da universidade pública com a privatização e isolamento acadêmico em meio ao tecnicismo. O objetivo de quem vende esse tipo de agenda é basicamente ficar fora da sala de aula e, ao mesmo tempo, tentar anular as sugestões de alternativas que pretendem levar o ensino por ferramentas tecnológicas, textos impressos, atender orientados e todas as outras atividades ligadas a dar atenção ao ensino. O resultado da conspiração interna acaba licenciado a própria universidade e seus gestores de buscar soluções para uma efetiva universalização do ensino.

Demonstrado que se trata se um projeto de auto-sabotagem conspiracionista, vou mostrar que se trata de uma tentativa igualmente nefasta de negacionismo.

A tentativa de anular a possibilidade de retorno das universidades públicas ao ensino por outros meios é negacionista, porque ignora o problema real que estamos enfrentando: uma pandemia. Se por um lado, apegam-se a ideia de que haverá o fim das atividades presenciais das instituições de ensino superior - um absurdo institucional conspiracionista desprovido de qualquer base prática, teórica ou empírica -, por outro, negam que o estado pandêmico seja um problema real que exige proposições e sugestões para atender os alunos no campo do ensino. Esse raciocínio ignora o ensino como um direito social que tem na universidade um dos seus principais pilares. Basicamente, trata-se de levantar as mãos para o alto e dizer: "e daí? É uma pandemia, eu não posso fazer nada a respeito do ensino". "Sim, é meu trabalho buscar soluções para atender alunos em um momento de crise como este, mas eu nego que seja um problema real que a universidade pública precisa enfrentar. Precisamos assistir esquifes sendo empilhados em um eterno luto que nos redimirá de todos os nossos pecados enquanto nação". Como sabemos, não estamos diante de uma gripezinha, nem de um evento isolado ao Brasil que vai, simplesmente, passar na semana que vem. Portanto, é sim um discurso negacionista. Serão, sim, meses afastados de qualquer indício de normalidade na educação, pelos motivos já observados.

Demonstrado que a auto-sabotagem do ensino universitário brasileiro é muito mais enfileirado ao "gabinete do ódio" instalado dentro do Palácio do Planalto do que se imaginava, vou me dirigir especificamente aos meus colegas e alunos, incluindo alunos dos meus colegas:

Do ponto de vista de um professor que ama aquilo que faz, é desalentador e desmotivador imaginar que existe uma tremenda facilidade de professores e funcionários públicos negacionistas e conspiracionistas em cooptarem uma parcela dos alunos. Divido esse desalento com muitos colegas que estão nesse momento buscando levantar sugestões propositivas pelo ensino universitário em meio ao ruido produzido pelo conspiracionismo e negacionismo. Desmotiva, mas não surpreende. O que garanto é o seguinte: trata-se de uma parcela diminuta e barulhenta, envolvida em uma moldura de militância universitária, antiguada, ineficiente e improdutiva. Quando bem pesquisado - e um dia será -, também se observará que se trata da parcela desinteressada pelo ensino dentro da sala de aula. Eles lidam com uma imagem de universidade improdutiva e repetente, são os candidatos naturais ao júbilo. No entanto, não se trata do maior contingente de estudantes. Existem os interessados. Eu mesmo coloquei no ar um curso livre - pro forma ao currículo regular - e lá estão mais de 300 alunos. Duvido que conseguirei atender todos. Não tenho suporte da universidade para os atender e vou me responsabilizar pessoalmente por cada um que tiver interesse nas atividades, na universalização da universidade sem distribuição de diplomas e afeita ao binômio: professor dá palestrinha, aluno faz de conta que aprende.

Há brasileiros interessados em educação. Há professores, alunos e administradores em universidades que não são conspiracionistas e negacionistas. O melhor jeito de se manter refém de um problema, alheio à efetiva liberdade positiva que nos fornece ferramentas de trabalho para a universalização do acesso à universidade, é ignorar que ele exista. Em última instância, nenhum conspiracionista e negacionista jamais surgirá para responder as seguintes perguntas: se não podemos atender todo mundo, não devemos atender ninguém, por quê? Devemos realmente deixar aqueles que não têm acesso às ferramentas de ensino modernas como marginais do processo sem fazer nada por esses alunos, por quê?

Para todos aqueles iludidos que ainda pensam que o melhor jeito de resolver um problema é sequestrar a agenda interna que ele gerou, eu preciso lembrar o seguinte: o inverno de 2013 só terminou em 31 de agosto de 2016. Proselitismo nunca será uma solução em meio ao debate entre livres e iguais.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Quando Cortella tem razão...

Já me perguntaram mais de uma vez quando eu penso que as coisas vão voltar ao normal. E a única coisa que me veio a cabeça até agora como resposta é: eu espero que nunca! Precisou vir Mario Sérgio Cortella a público para falar algo filosoficamente relevante sobre a Covid no Brasil. E foi oportuno! Cortella tem razão em suspeitar que o brasileiro pensa poder se redimir de todos os seus pecados empilhando os corpos de mártires dessa tragédia.

Bolsonaro, Jânio e as lições da história, escreve Thales Guaracy ...Estamos em um estado das coisas analisado pelo ângulo errado desde muito tempo. Há quem veja tudo isso como sintoma de uma sociedade politicamente sucumbida. Já penso que não se trata de um sintoma, mas o efeito colateral de muito tratamento errado. Lidar com efeitos colaterais como se fossem sintomas tem um preço.

Reeditamos a história de Jânio Quadros. É preciso lembrar que nada voltou ao normal depois de Jânio, o presidente mais mentecapto e despreparado do século XX (mesmo sabendo que existiram concorrentes a altura, esse é o meu voto, sim!)

O vírus pode não escolher classe social ou fazer distinção racial, mas saímos da dúvida: qual é o comportamento do Covid19 em um país tropical para a obviedade: o vírus é, sim, mais letal em lugares onde a saúde pública e o saneamento básico não são prioridade. É preciso milhares de mortes para chegarmos na obviedade. Diferente da liturgia, a remissão dos nossos pecados não nos dá a vida eterna.

Se tudo der certo, não voltaremos a ser como antes, mas seremos exatamente como somos agora. E continuaremos com os mesmos eufemismos: desleixo e desinteresse é "resiliência"; bravata e verborragia é "nova política".

Sem trocar o remédio, podem esquecer. Sem deslocar o debate para aquilo que de fato importa, o empilhamento de corpos é o mínimo que merecemos para remissão dos pecados. Não admitir que aquilo que, de fato, é relevante é a melhora real da qualidade de vida dos menos favorecidos, combate a corrupção e funcionamento integral das instituições como pano de fundo perene é o único suicídio real da democracia. Voto é apenas o mecanismo para justificar o fim dos tempos. E, por fim, Bozo tem razão quando aponta que o ego é mais importante que o Brasil. Apenas erra o alvo quando aponta apenas para Moro, quando tenta atirar pra todo lado.

O único boicote possível da imprensa é a mea culpa e parar de bater palmas para maluco dançar. Nem a crítica merece espaço. A admissão pública de que o presidente da república reina, mas não governa, diz muito mais sobre a imprensa do que sobre o próprio presidente. Se o chefe do executivo acredita honestamente (e acredito que estamos diante de alguém suficientemente conspiratório para levar isso a sério) que "a inteligência da Polícia Federal perdeu espaço na gestão" e não faz nada pra substituir o ministro, a máxima da ausência de poder é a tônica central, e ela é mais do que suficiente para deixar qualquer expectativa de governabilidade de lado. Então, que o "basta é basta" seja a simples admissão de que "não tem problema eu acreditar que algo não esteja funcionando, contanto que se mantenha um nepotismo básico e um apoio mastigado de um setor bajulador".

Mas, se parar pra pesar, até agora, tudo bem. Afinal, chegamos ao ponto em que Cortella tem razão!

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A moral da história


Eu tive um tipo de aneurisma. Na verdade, o que eu tive foi uma experiência com várias palavras que eu nunca havia pensado em usar, a não ser para me referir a outras pessoas. Aneurisma, cirurgia, artéria esplênica, banho no leito. Nunca imaginei que isso fosse pra mim. 

Resultado de imagem para frank Netter baçoA gente sempre pensa que vai morrer de um jeito heroico. Claro, tem o grupo que sonha em morrer em total sossego, durante uma boa noite de sono e outros que têm medo de morrer. Estou me referindo "a gente" normal, aqueles que gostam da vida. Esses querem morrer sem dor e bem de repente. 

Como eu nunca havia entrado em um hospital antes, fazia parte do grupo daqueles que pensam que nunca vão morrer. No máximo, eu tomava muito cuidado quando estava fazendo uma atividade - mais ou menos - perigosa, como rappel, ciclismo, uma corridinha ao redor do parque ou dirigir. Dirigir é, disparada, a atividade mais perigosa que fazia, então, sempre tomei muito cuidado com isso. Acho que a gente toma cuidado com tudo que gosta de fazer ou dá algum prazer imediato. Eu, pessoalmente, adoro dirigir. Estava até fazendo habilitação para dirigir ônibus. Quem sabe um dia eu compre um, e vá acampar por aí, ou sei lá. Você nunca sabe quando precisará dirigir um ônibus. Sandra Bullock que o diga, coitada. Independente de você precisar dirigir um ônibus ou não, aprender a dirigir ônibus me ajudava a melhorar minha percepção do trânsito em geral e isso ampliava a segurança, definitivamente. Então, fazia com cuidado. 

Nunca pensei que fosse ter um derrame na artéria esplênica (sim, existe uma artéria esplênica). Ainda por cima um derrame enquanto comia salgadinho no aniversário de um ano da filha da minha vizinha. Em resumo é assim: o resultado de um sangue saindo pelo lugar errado na região do baço traz uma dor abdominal terrível, uma cirurgia de emergência, sem diagnóstico e um monte de médicos e enfermeiras correndo atrás de um jeito de te manter vivo em uma mesa de cirurgia por cerca de cinco horas. Nada disso eu lembro, porque estava apagadão, mas sei do esforço de todos eles, porque não estava mais apagado quando me levaram para a UTI. Nunca pensei que fosse dar sorte de ter ido para uma UTI, mas quando se tem sangue saindo pelo lado errado, dentro do seu corpo, os padrões de sorte e azar são razoavelmente alterados. Então gosto de pensar que tive sorte de ter ido para UTI; sorte de ter contado com gente piedosa que me trocou curativos, deu soro, alimentação parenteral e outros que foram até ao hemocentro doar sangue para mim. Um punhado de sorte dos fisioterapeutas terem uma paciência contagiosa. E amigos honestos por perto é uma mistura de fortuna com virtú, muito mais do que mera sorte.  Também dei sorte de ser +AB e bem pouco exigente sobre o tipo de sangue que posso receber. Dei sorte quando os exames mostraram que a cirurgia foi um sucesso, e muita sorte quando consegui caminhar pela primeira vez depois de 72 horas em uma cama. Na UTI, você precisa reaprender a fazer algumas coisas, tipo caminhar, comer e tomar banho, mas isso só se você tiver muita sorte. 

Cinco dias de UTI e outros cinco enfiados em um quarto de hospital, e qual a moral da história? O máximo que posso fazer é agradecer os médicos com uma garrafa de wiskey que não tenho mais condições de beber; agradecer as enfermeiras e todos os técnicos de enfermagem por terem me reensinado coisas básicas e me mantido limpo por tanto tempo, longe de infecções. É o máximo que dá para fazer. 

No mais, é sorte. Torcer para que as pessoas parem de se sentirem moralmente superiores, mesmo sendo tão frágeis e avisar que aquele rapazinho que se matou no final do filme Sociedade dos Poetas Mortos - afinal, a família não queria que ele fizesse teatro! - é só um personagem chato e mimado servindo para moralizar pessoas chatas e mimadas. Pois é, a história da moral mostra para a gente que não tem moral da história. 

sábado, 9 de novembro de 2019

A agenda Lula livre e a nova bifurcação

Dias Toffoli e seu nada ilibado currículo com ausência de notório saber jurídico foi o todo decisivo que apresentou ao Brasil a tese final da aristocracia jurídica colonial: se você tem dinheiro para recorrer ao Supremo, não precisa cumprir pena nenhuma. Por certo, o satélite eleitoral Lula é o lamentável nome que mais chama atenção e agenda da esquerda não teve sequer a dignidade de manter uma oposição a altura de competir com a inoperância e ineficiência do próprio governo. O resultado disso era bastante evidente, pois não se tratava de se Lula estaria fora das grades, mas quando. A soltura do ex-presidente e chefe de quadrilha veio no preciso momento no qual a oposição passou a fazer falta para o funcionamento das instituições, inclusive do Supremo.
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Afinal, estamos diante de uma nova bifurcação na polaridade do jogo político? A resposta é: depende. Só quem pode estabelecer essa nova bifurcação é o próprio líder petista. Entre as alternativas, está a tentativa de estabelecer uma nova liderança, fazer campanha e reeditar um PTlight com o centrão. Esse primeiro movimento dependeria da inteligência política que Lula tem e da sua capacidade de articulação. Não é impossível, mas esbarra no perfil do quadrilheiro aposentado que tem seu ego concorrendo com a inteligência. Aí tem a segunda alternativa: Lula é candidato em 2022 e termina de afundar o PT se for eleito, com a mesma força que o faria caso não fosse.

O Brasil estará diante de uma nova polarização, especialmente porque precisamos levar em conta a completa impossibilidade de que Lula consiga movimentar sua militância com o discurso Lulinha paz e amor que o fez presidente, agradando a gregos, troianos e a Fiergs.

Toda militante de esquerda que tenta distinguir os currículos de Bolsonaro com o de Lula, a partir de agora tende a falhar. Não há mais em cena dois candidatos ou potenciais mandatários do executivo, mas duas concepções bizarras e extremistas de Brasil. Não são mais homens, são ideias espúrias, fracassadas ou por falta de projeto ou por excesso de projeto. Lula sai na frente apenas porque tem muito mais habilidade em ignorar a ideia do bolsonarismo, enquanto Bolsonaro vai precisar aprender a conviver com o político que o fez político. Nunca, desde Osvaldo Aranha e Getúlio Vargas um político dependeu tanto de outro como Bolsonaro depende de Lula. Fato é que o primeiro não sabe se comportar como rede Glogo, ignorando o segundo; e, por mais que possa tentar, o peixe que não morre pela boca, morre tentando defender o cardume. Levando em conta que o cardume dos Bolsonaros é aquilo que é nas redes sociais, é inevitável que ele esteja completamente perdido.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Macron foi desmascarado: é comunista!

Emmanuel Macron, o maior líder conservador do continente europeu, foi desmascarado: é comunista! A denúncia veio da Abin, a agência brasileira de arapongagem. Depois de muita pesquisa no Feici, os espiões do Palácio do Planalto e a inteligência militar brasileira (desculpem, é eles que se batizaram assim), finalmente, desbaratou a maior fraude eleitoral da história recente da Europa. Macron é, sim, comunista!

Resultado de imagem para Brigitte Marie-Claude MacronAo que tudo indica, Macron se tornou comunista há muitos anos. Sua ligação com o martelo e a foice remontam ao tempo do ensino médio, quando tentou pegar a professora. Isso mesmo! Diferente do que pensam os menos solertes, Macron não se tornou comunista nos últimos cinco dias por insistir em defender o dinheiro do povo francês depositado no Fundo Amazônia. Muito menos, ele se tornou comunista quando sugeriu que o Brasil deveria ter um presidente que se comportasse com a dignidade que o cargo exige. Macron também não se tornou comunista quando deu atenção para as imagens de satélite e disse que o Brasil tinha a responsabilidade de fazer algo para conter incêndios na maior floresta tropical do planeta.

Macron, pasmem, se tornou comunista quando casou com uma mulher mais velha do que ele. E, acreditem, Macron não a trocou pela primeira puta, depois de surgirem as primeiras rugas na cara da esposa, como muitos conservadores acham de boas fazer.

Brigitte Marie-Claude Macron, 66 anos de idade (25 a mais que o marido), foi professora de ensino médio. Sem histórico de ligação com milicianos, é uma primeira dama relativamente discreta. Ela tem três filhos do casamento anterior. Brigitte fez de Macron comunista. E agora ele se soma a lista de comunistas que incluem o Papa, os diretores da Nasa e todos os outros comunistas que sabotam o governo do mito.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Presidente não tem babá

Ninguém, nem mesmo Onix Lorenzoni, o aeroporto de mosquito com implante de cabelo, tutela a fala de um presidente. Tutelou-se a fala e o movimento de bufanismo durante tanto tempo que se esqueceu que presidente da república tem voz e caneta. Quando o presidente fala, a economia se movimenta, o investimento se retrai ou se expande. Ninguém tutela a fala de presidentes. Eles são responsáveis direitos por tudo que falam. Quando Bozo xinga governadores do nordeste aleatoriamente, não é apenas o preconceito e a burrice falando, o resultado vem. Na Bahia, a PM, por ordem do governador, não oferece segurança para visitas e inaugurações presidenciais. Na ciência, a ordem do cala a boca não cola, "hierarquia e disciplina" só tem vez com base em dados e os gringos que mandam no fundo Amazônia recolhem sua grana, deixando o investimento na agricultura e indústria de lado. Ninguém tutela a fala de presidente. Nem ele mesmo.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Na esteira dos idiotas úteis

O bolsonarista de segundo turno (que nem o título de bolsonarista merece, pobre coitado!) foi o primeiro a desembarcar. Como ele é considerado pelo governo um eleitor de ocasião, pode ser visto como 'idiota útil'. Numericamente, será deles que o mandatário do cargo de presidente da república vai precisar para continuar. A tentativa [travestida de estratégia] do governo é de criminalizar a política feita no Congresso, mas com o material empírico criminoso vem da milícia montada na própria famiglia de nada serve. Outro elemento que prejudica a cartilha montada de ataque ao legislativo é o sobrevoo do olhar que naturalizou a "renovação", com o PSL passando de UM para 52 deputados. Criminalizar a velha política fazendo parte dela não é agora só um número abstrato de quase 30 anos mamando nas tetas dos cofres públicos, é a institucionalização da incompetência como vitrine eleitoral. Nada disso dá votos, mesmo que a campanha ainda não tenha terminado.

Em meio a isso, o pouco que se faz com o poder da caneta é insólito: decretos que não vingam, liberações que nada liberam (cadeirinha de bebês, pela alma da burrice! Quando diabos um chefe de deveria estar preocupado com isso?!) Bolsonaro reina para o último círculo de abobados, mas não governa para ninguém. E, na falta de governo, sobra espaço para o norma da velha política. A compra de uma frota de carros passando dos R$ 7 milhões para transportar milicianos e idiotas úteis da família real faz mais contra Bolsonaro em uma única canetada do que faz o maior número de decretos esdrúxulos e das tentativas de governar legislando desde Collor. O governo ainda tem o apoio da mídia tradicional e ordeira, que gosta de ver novelas globais e faz campanha pela reforma de Guedes. Com o fracasso das reformas, especialmente a previdenciária, sobre a qual o próprio presidente mostra nada entender, nada sobrará para a queda. A reforma na mão do Congresso é a certeza de que privilégios não vão ser combatidos e, nem pra disfarçar que gostaria de ver privilégios combatidos, esse governo serve. O resultado será sangue, suor e as lágrimas dos idiotas úteis. Afinal, nenhuma agenda do governo é daquelas que dá votos e 57milhões de idiotas úteis não é quase nada para 2022. A ignorância é um método eleitoral eficiente para se chegar ao poder em um país de ignorantes, mas não para se manter lá.