segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre Drones, Violência e Segurança

Vivemos o período da inversão da narrativa "fulano mata a própria mãe", como se pudéssemos arrumar uma justificativa, caso ele tivesse matado a mãe de alguém e não a dele própria.

A primeira coisa que a imprensa gaúcha fez ao informar sobre o apedrejamento da casa de uma família vizinha do estádio Beira Rio foi ressaltar que se trata de colorados. Foi um crime contra a vida de pessoas, praticado por marginais, não por torcedores colorados. Nada disso tem a ver sobre a cor da bandeira do time de quem ali mora. O melhor que um torcedor colorado pode fazer agora é não tentar encontrar justificativa para o que aqueles meliantes fizeram, devem ser os primeiros a reclamar uma a punição severa de todos os marginais, pelo bem da dignidade do próprio clube. Até agora, nenhuma palavra oficial da direção colorada. Alguns, inclusive, buscam justificativa. Citam o drone que sobrevoou o Beira Rio com uma faixa insinuando o eventual rebaixamento do Internacional para a Série B. Todos corresponsáveis, portanto.

Imprensa, mais uma vez errada, ressalta que "flauta alguma justifica o que aconteceu". Eu, menos inocente, censuro o uso de drones pelo motivo verdadeiro: a segurança do espaço aéreo, coisa que pouco chama atenção. Afinal, uma das características de um idiota é ficar impressionado com a tecnologia e esquecer o contorno envolvido. Dizem que a "flauta é normal", como se houvesse relação entre o uso de um avião para passar uma faixa sobre o estádio adversário e um equipamento operado por amadores, comprometendo a segurança de muitas pessoas. A Aeronáutica já se manifestou sobre o assunto, mesmo que as regras ainda sejam confusas.

Mesmo como o que eu disse - o melhor argumento possível em torno daquela idiotice do drone que circulou o estádio Beira Rio -, nenhuma justificativa cabível está à disposição de marginais. Em um país liberal, aquilo que aconteceu ontem com aquela família não teria acontecido por dois motivos: primeiro, porque o papel do Estado é preservar a qualquer custo a vida das pessoas. Jamais a segurança pública seria acionada e chegaria ao local 40 minutos após o ocorrido. A audácia dá força ao meliante. Em segundo lugar, muito provavelmente a invasão de uma casa, comprometendo um casal e uma criança de 10 meses, justificaria um abatimento dos agressores de forma truculenta e mortal, seja por vizinhos ou mesmo pelo pai de família envolvido, no episódio. No liberalismo, o agressor deve ser parado, sempre, custe o que custar.

Enquanto isso, a imprensa destaca: "não se trata de uma família gremista"; "não se trata do gremista flautista que fez um drone sobrevoar o estádio do coirmão".

Esse foi um texto sobre drones, violência e segurança, mas na ordem inversa.

Não tem nada certo na ordem dos fatos.

sábado, 19 de novembro de 2016

Pós-verdade

Não sei se já disse que dedico boa parte do meu tempo em um doutorado na área de Ética e Filosofia Política? É provável que nunca tenha mencionado, porque considero minha vida desinteressante por demais. Digo isso agora pela vontade de deixar pública minha profunda inveja aos colegas que estudam Epistemologia. Além de um assunto demasiadamente delicado, onde não há lugar para os mais ou menos inteligentes, entendo que esse pessoal tem crediário com um instinto filosófico genuíno. Digo isso pela imensa dificuldade que encontro de justificar um trabalho na área. Pensem, por exemplo, na ideia de "atualidade". Pode alguma coisa ser menos atual do que se dedicar a unir crenças e fatos para chama-los de "verdades"?

Vivemos na era da pós-verdade. Independente dos fatos, aquilo que realmente influencia as crenças das pessoas em torno da realidade é quem é atingido pelo conjunto de sentenças. Exigir que essas sentenças tenham alguma relação com o mundo é um exagero pueril nos dias de hoje. O mundo real não tem condições de se manifestar em nenhum setor da vida privada das pessoas. A dicotomia entre internalismo e externalismo nunca foi tão evidente.

Podemos tomar como exemplo a completa judicialização da vida política nacional. Independente de ela expor a fragilidade e o perigo de o judiciário estar se tornando um partido político, os populares sem filiam a essa ideia com bastante afinco. Inegavelmente, é bastante revigorante para a opinião pública ver figuras que, até pouco tempo atrás, esbanjavam em pomposas - e cafonas, aliás - festas na Europa indo parar na cadeia. Na medida em que isso vai acontecendo, a corrupção institucionalizada do próprio judiciário, junto com seu poder de barganha, vai ganhando força e, sem alarido, não chamam atenção aumentos salariais de quase 50%, nem vales-alimentação que cumpririam duas ou três folhas de pagamento de um professor do mesmo estado.

A curva do gráfico da epistemologia chega ao ponto mais alto quando as redes sociais são as principais referências para pautar o noticiário tradicional. A relevância de determinado assunto está diretamente condicionado a quantidade de memes que o personagem principal consegue movimentar. O interesse público não é pelos fatos envolvidos no cenário político, jurídico ou social, muito menos por deixar claro o histórico de absurdos que levou as coisas a esse patamar bizarro. Vale é a quantidade de likes.

Com a hegemonia da pós-verdade, até a mentira vale como verdade, dependendo de quem ela detrate. Os fatos não são tão interessantes quanto a caixa de comentários das redes sociais e isso transforma nossa geração na primeira completamente desconectada do mundo real.

Uma excelente maneira de identificar esse tipo de hiper-indivíduo é observar a velocidade com a qual ele se filia a uma determinada causa: a favor das ocupações nas escolas, "esses alunos são heróis"; a favor da polícia cumprir a reintegração de posse arrebentando a cabeça desses "doutrinados pelo sistema de educação comunista".

A pós-verdade identifica a era dos extremos. Podemos escapar dela transformando a ignorância em uma virtude ou agredindo qualquer um que se manifeste a favor de qualquer mudança que não seja tão radical quanto deva ser. Todo retrocesso da democracia deve ser condenado e o sofrimento se transformará no único método pedagógico.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Síndrome da Autoafirmação

Esse final de semana, eu fui cortar o cabelo ali no Sílvio. O Sílvio é um barbeiro meio rabugento meio gente boa que trabalha aqui perto de casa, sei lá, há uns 30 anos. Existem dois assuntos em barbearias: futebol e todos os outros. Como não entendo nada de futebol, sempre preciso ter um assunto na manga para disfarçar meus defeitos. Então, sugeri para o Sílvio um assunto envolvendo seus negócios: a ampliação substancial de concorrência na volta. Barbearias se proliferaram na Cidade Baixa, no mesmo ritmo que o crack. Primeira observação do Sílvio: "não é concorrência, porque ninguém volta nas outras barbearias". Fiquei sem entender o motivo e passou.

Lá pelas tantas, entrou outro cliente, se serviu de um copo d'água do bebedor, enquanto aguardava e sugeriu para o Sílvio: "verão chegando... com esse calor, podia botar uma água e vender aí, Silvio". Ele não deixou passar: "Não dá, chefe. O povo pensa que é brinde. Tem coisas que não dá pra misturar. Eu recém falei para o colega aqui (se referindo a mim). O pessoal fica abrindo essas barbearias, servindo cerveja e tal... meu cliente vai lá, para fazer uma foto e pôr no feicibuqui, mas depois volta".

Só fui entender o Sílvio, depois de passar na frente dos concorrentes dele e prestar mais atenção. Realmente, começou a surgir um mercado de "barbearias gurmetizadas". Funciona assim: você vai num lugar para cortar o cabelo, toma uma cerveja, olha uma revista com um artigo estranho sobre a diferença entre smoking e fraque, e tira uma foto para postar na rede social. A tal foto rende muitos joinhas, mas só funciona uma vez. Daí a tese do Sílvio: "não é concorrência, quando ninguém volta lá". A pessoa só vai voltar num lugar bizarro desses se chegar no nível de passar glitter na própria barba.

As pessoas estão proibidas de querer tomar uma cerveja artesanal puro malte plantado por monges da serra gaúcha? Não. As pessoas estão proibidas de querer pagar 50 reais por um corte de cabelo balaqueiro, quando poderia pagar 20 por um "normal"? Também não. Estão proibidas de pagar mais caro, para não esperar na fila, com mais três caras aguardando para cortar o cabelo? Nem pensar. O problema central desse fracasso é a tentativa de se autoafirmar, buscando um espaço com características "super-masculinas"; afinal, como eu vou passar pela vida sem deixar muito claro que sou homem, né?

É assim em vários níveis e em várias situações do nosso cotidiano mais ordinário. Todo mundo anda querendo fazer da vida uma frase feita, dessas para se compartilhar em rede social.

Vou citar um exemplo óbvio. "Não sou obrigada" é um slogan de efeito, repetido pelo movimento feminista, em ritmo de mantra. Quem se filia a uma obviedade dessas jamais vai admitir que, sim, você é obrigada a repetir isso centenas de vezes e, de preferência, fazer uma hashtag para deixar muito claro que não é obrigada a fazer nada. "Não se deixe levar por modinhas" é a modinha da vez. A autoafirmação de muita gente depende dessas coisas.

Fazemos isso com uma frequência surpreendente, porque buscamos nos esquivar da mais irrefutável das verdades: nós aprendemos do mundo as regras e não as exceções. E, precisamente por causa disso, a autoafirmação é um dos dramas mais contundentes dessa sociedade mimizenta. Nada mais normal do que ver alguém que faz parte da regra se julgando a mais nobre das exceções.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Eu estava com saudade de ser de esquerda

Fazia muito tempo - desde a minha adolescência - que eu não se sentia tão de esquerda. Não é só os novos ares de um governo de abutres, velhos e conhecidos. Nada mais de direita do que ser velho e conhecido. Mas estou falando da filiação com as pautas da chamada esquerda de hoje em dia, sabe? Estava com saudade delas.


Por exemplo, a esquerda descobriu, recentemente, que o Governo Federal dá festas no Palácio do Planalto com dinheiro público para leiloar o voto dos parlamentares. A diferença é que as festas de Lula eram juninas, com cachaça de Minas e carne de sol. Moët e Chandon e foi gras são coisas muito absurdas, mesmo com a cachaça de Minas custando mais que champanhe francês.

Outra coisa que me aproximou da esquerda foi o fato deles estarem indignados contra os absurdos da PEC 241, editada integralmente e enviada para o congresso pelo governo da presidente recém impeachmada Dilma Vana Roussef, carimbada e votada durante esse governo golpista.

Como pode um estado querer gastar apenas o que arrecada, se queremos manter os benefícios sociais dos pobres e as aposentadorias dos magnatas dos três poderes? Como pode um governo não fazer nada para ter uma reforma tributária justa, mesmo com mais de uma década de caneta na mão? Óbvio, nada mais direita que manter programas sociais aumentando o gasto público com servidores inúteis, impostos que atingem justamente os mais necessitados. Direita faz distribuição de renda assim: tira dinheiro da mesa do pobre para colocar na conta bancária. O estado rouba na mesa e serve no consumo de coisas socialmente mais importantes, disponíveis no shopping mais próximo da zona sul. Esses calhordas de direita.

Não sei se eu voltei a ser de esquerda ou a esquerda voltou a ser como eu nunca deixei de ser.

É um pouco estranho, depois de tanto, anos ter um governo de direita para poder criticar. Até pouco tempo atrás, pensei que tinha perdido a habilidade.

Às vezes, eu lembro do Millôr: "não gosto de direita porque é de direita; e não gosto da esquerda porque é de direita".

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Cinco coisas para a Dilma fazer em Porto Alegre

Querida presidente Dilma - ou "presidenta", como preferem seus fãs mais inveterados,

estou escrevendo em solidariedade a traição que a senhora sofreu daquelezinho lá. Todo mundo sabia que casamento arranjado pelos outros dá nisso. Lula nunca foi um padrinho para se levar a sério. A senhora sabia disso. A senhora não fazia o menor esforço para disfarçar o desgosto. Sua cara azeda diante dos microfones e das câmeras denunciava tudo. Quase um pedido de socorro! E nem estou falando da inabilidade para ser chefe de estado e aqueles discursos feitos para o Youtube. Uma mulher com uma relação daquelas seria capaz de tudo para chamar atenção. A gente desculpa a senhora.

Bueno, fiquei feliz que a senhora está voltando para Porto Alegre. Nem deveria ter saído. Aqueles nossos planos de abrir uma padoca perto da UFRGS podem ser retomados. Pode ser mais difícil conseguir o tal financiamento no BNDS e tal, mas não custa tentar. Só não abro mão da foto do Stédile nos frios da mortadela. Em contra partida, a senhora pode estampar a Janaina Paschoal no forninho das coxinhas e fica tudo certo.

Legal a decisão da senhora de não esperar os 30 dias para sair de casa. Eles não devem ficar por aí pensando que a senhora precisa de favores. Já arrumei aquele colchão no quartinho dos fundos e até limpei os lençóis. Um dos gatos sempre vai fazer companhia de noite, mas de gatos a senhora entende bem. Não vai se importar. A Cidade Baixa vai ser pequena para tanta curtição, Dilminha! Tomei a liberdade de fazer uma lista para a senhora se sentir bem a vontade no paralelo 30. Vai lá:

Pedalar (de bicicleta) na ciclovia da José do Patrocínio: Sei muito bem que a senhora prefere ir lá nas bandas do Guaíba curtir
sua bike. Mas muito melhor é usar essa obra que o Fortunati fez e ninguém usa. Quem sabe, ele valoriza o agrado e sobra uma secretaria para a senhora...

Comer um Speed - Ahh, os tempos de fome acabaram. A senhora emagreceu imensamente com o stress desse trabalho inútil dos últimos anos. Vamos direto na esquina da República (a rua, nada de pensar que existe uma República por aqui) com a Lima comer um super X Speed. O segredo é passar lá no final do domingo. A chapa só é limpa nas segundas e o tchaaaan do lanche está justamente na gordura acumulada durante a semana.

Jogar uma bocha no Soeral - A redenção está meio down desde o último temporal. Caíram muitas árvores e colocaram um trenzinho para as crianças (só tem velho usando). Mas ainda tem os companheiros dos finais de tarde que jogando bocha. Cada rolada está valendo uma duas Polar. Tem muito vereador que não deu certo jogando lá. A senhora pode fazer uns contatos.

Tomar uma gelada no Pinguim - Andam dizendo que o Pinguim é fascista. Veja só! Só porque - dizem - deram uns petelecos nuns gays lá dentro. Com a presença da senhora, a gente reativa a moral do bar e, se trabalhar bem o merchan, ainda descolamos umas geladas na sola do gerente.

Queimar contêiner de lixo - Tudo bem, tudo bem. Eu sei que anda meio fora de moda e sei também que a senhora até reclamou disso em 2013. Mas vá lá. Tem seu charme. O lixo orgânico exala aquele cheiro podre do capitalismo selvagem. No mais, a senhora volta a estar entre os seus. Por mais que a militância baderneira DCE aqui não seja tão legal quanto é na USP, ainda dá para ganhar umas fotos. No mais, o Sartori está parcelando o salário da Brigada Militar também. E a Guarda Nacional anda por Porto Alegre. Eles tem intimidade com a senhora. Afinal, foi uma Guarda Petoriana montada de forma inconstitucional justamente para defender coisas inconstitucionais. Parece justamente o caso do seu mandato de Nossa Presidente Moral.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Estado das Coisas é de Guerra

Essa semana uma jovem oftalmologista morreu, após uma tentativa de assalto aqui em Porto Alegre. Recentemente, dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública mostram uma diminuição no número de furtos a veículos. Em contrapartida, há um aumento substancial nos casos de assaltos a mão armada, também tendo os carros como alvos. Com a melhor qualidade dos alarmes, chaves codificadas e dispositivos de rastreamento, o marginal precisa ser mais audacioso e abordar a vítima, enquanto entra, saí do veículo ou mesmo com ele em movimento. A abordagem, obviamente, é sempre violenta. Até onde sei, ninguém entrega seu carro em troca de flores.

No caso da oftalmo, me chamou atenção o testemunho da irmã da vítima. Ela disse que os criminosos tentaram abrir a porta que "estava trancada", como a investida foi frustrada, um meliantes disparou contra o vidro, atingindo o abdômen da vítima. Graziela Muller Lerias tinha 32 anos, era médica do SUS no Hospital Banco de Olhos e morreu na hora. Se fosse uma velha de 80 anos e indigente, a truculência com a qual o caso merece ser tratado seria rigorosamente a mesma. 

Nenhuma lei injusta deve ser cumprida.

Com alguma frequência autoridade de segurança pública ganham espaço da imprensa para dizer mais do mesmo "não reaja a assaltos", "evite movimentos bruscos". Agora, pelo jeito, uma nova orientação deve ser "mantenha as portas do seu carro destrancada e os vidros baixos para facilitar a vida do assaltante".

Jornalista burocratas, incluindo a maior emissora de TV do Brasil e suas respectivas afiliadas, dão espaço para desarmamentistas. Invadem o velório das vítimas para distribuir panfletos do proselitismo político que alimenta seus salários através da publicidade. Enquanto isso, os corpos das vítimas se empilham nos necrotérios. 

O que vou dizer aqui não contaria nenhuma norma de segurança. Apenas tem relação com direitos individuais inalienáveis. Pois lá vai: a vítima tem o direito de reagir. É uma escolha dela. E, mesmo que essa escolha venha a ser frustrada, ela não é responsável pelo desfecho de um cenário montado por outra pessoa. O criminoso é o único responsável. Assim como a escolha de não reagir também só pode ser feita pela vítima. Ninguém tem o poder metafísico de influenciar essa decisão. No caso de uma autoridade pública que dá "orientações" a respeito de como se comportar o caso já é de desrespeito. Obviamente, orientações tão espúrias jamais seriam dadas em um lugar onde a segurança pública fosse levada a seria pelos responsáveis por sua gestão. 

A legislação do desarmamento, derrotada a respeito da venda de armas de fogos de forma acachapante no referendo de 2005, é uma aberração jurídica e descumpri-la não é um atentado grave, quando envolve preparo técnico e armas legalmente registradas em nome daqueles que buscam apenas preservar sua vida ou quem está a sua volta. No mais, o porte de arma não está impedido, como mentem e tentam confundir. Para aqueles envolvidos em atividades esportivas, tanto transporte como porte já são garantidos por lei. Obviamente, o preparo técnico para ter o pedido deferido pela Policia Federal envolve um conjunto de exigências muito alto. O marginal não faz pedido de porte algum.

Toda responsabilidade do cenário criado pelo criminoso é dele. Isso inclui o dolo as vítimas - fatais ou não - , "acidentes" envolvendo pessoas incluídas na cena do crime e, inclusive, uma retalhação da vítima causando a morte do marginal. Com alguma frequência, atrofiados mentais, auto-intitulados "defensores dos direitos humanos", usam argumentos como "mas ele só tinha uma faquinha e tomou dois tiros". Tenho uma novidade: faquinhas também matam. E só a vítima pode decidir se está disposta ou não a colocar sua vida à disposição em troca do agressor. A vítima não tem culpa, nunca. Ela nunca está "na hora errada", "no lugar errado". Nunca a vítima "se movimentou de um jeito brusco".

Quem não compreende e se compadece dos problemas sociais e educacionais que forma legiões de terroristas no Brasil é burro. Quem acha que alguém deve se submeter a isso, doando a vida e se entregando como uma ovelha para o abate, até que todos os problemas sociais e educacionais sejam resolvidos, é burro e ingênuo. 

Nosso atual estado das coisas é de guerra. Também sou contra a guerra. Apenas torço para quem atira melhor. 

No mais, segue a regra de ouro: não faça as outros o que não quer que lhe façam. Parece simples mas é preciso equilíbrio. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Rio é a nossa única capital

A abertura dos jogos Olímpicos foi uma festa invejável. Disso a gente entende: festa, carnaval e péssimo gosto estético. A boa novidade é que o mau gosto ficou de fora da cerimônia. Ponto para a equipe que pensou a abertura. O artista que desenhou a pira olímpica, Anthony Howe, também marcou um golaço. Bonito demais aquela cuia de chimarrão com as pazinhas se mexendo em movimento elíptico.

Mesmo antes a abertura, oficinal nossas especialidades mais elementares já estavam em cena: incompetência política, saúde pública destruída, segurança pública em ritmo de escarnio e nossa péssima educação. Seria possível elencar vários shows em cada uma dessas áreas. O mundo está fazendo isso, cada cultura a sua maneira. Sim, verdade. Vai ter jornalista elogiando a sede dos jogos. Não elogiar o Rio de Janeiro é um passo para a insanidade. Provavelmente, seja a geografia mais bonita do mundo. Excluindo os taxistas e os bandidos (nem todo bandido é taxista) tem muita gente boa no Rio. Então, nada mais natural do que você se encantar com a cidade. Uma cidade turística normal, onde turistas são explorados, como em qualquer outra cidade turística. Isso nunca será um problema. Turista merece ser explorado, mesmo. Mas só financeiramente. Precisa transporte, estrutura e assistência de toda ordem.

Os principal problema é que ninguém consegue ligar um botão "evento de projeção mundial" e isolar a cidade das Olimpíadas.

Por ora, nossa lista de absurdos inclui, um ministro português assaltado, uma arquiteta morta no Boulevard Olímpico, outro assassinado próximo do Maracanã, antes da abertura oficial. Também temos militares do Exército baleados e tiroteio no morro do Alemão, bala perdida no centro de imprensa e ônibus de jornalista tomando chumbo. Tudo coisas do cotidiano da cidade e, portanto, das Olimpíadas. Nada anormal.

Se a segurança pública não fosse um problema suficientemente grave, o transporte da pior qualidade ajuda a desenhar o cenário. Durante todo o dia de ontem, turistas relataram que não conseguiam comprar o vale-transporte de três dias, mais acessível que o individual. Também tem a saúde pública e saneamento roubando a atenção. Nem me refiro a Baia de Guanabara, mas a piscina de polo aquático que ficou com a água inexplicavelmente verde. Claro que "não faz mal pra saúde de nenhum atleta", mentem os irresponsáveis.

Burrice administrativas, e vários jogos sem público algum. Como os turistas viraram as costas para o evento, sobrou espaço vazio nas arquibancadas. Com o recorde negativo de UM único torcedor pagante em um jogo entre África do Sul e Suécia. Astros da NBA jogando para ninguém assistir e atletas desconhecidos, sem incentivo algum.

Distribuir ingressos para as escolas, então, quem sabe? Não seria inteligente demais para um lugar como o nosso. Simples demais. Não estamos acostumados a respostas simples. Não há como enganar ninguém com respostas simples.

Nossa educação, por outro lado, não precisou nem do Rio para mostrar sua debilidade. Basta lembrar que por onde a CBF passa com seus macaquinhos chutadores de bola há vaias e aplausos. Afinal, a torcida não é patriota, apenas gosta de festa e, sem espetáculo, bufadas vêm da arquibancada e xingamentos vêm da falta de uma terceira séria forte. Sobra é polêmica social pueril para dividir mortadelas e coxinhas. "A única diferença entre conservadores e progressistas é que os conservadores vão na missa das cinco e os progressistas na missa das oito", diria García Márquez.

Se a gente pudesse resumir bem resumido, ficaria claro que o Rio é a única capital moral, intelectual e cívica do Brasil. Isso inclui todos os seus defeitos e suas duas ou três qualidades.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A água do Dmae vem com merda de brinde

A água de Porto Alegre está fedendo a merda há dois meses. Há duas semanas o Dmae, responsável pela água e pelo esgoto da capital da República Farroupilha, explicou que se trata literalmente de merda. Uma das estações de captação, instalada no Guaíba, está recebendo esgoto, doméstico e industrial, quando deveria haver somente água proveniente da chuva escoando naquela área. A explicação foi dada há duas semanas, mas e daí? A água continua fedendo merda, tem gosto de merda e cor de merda.

A professora Jandira Coleto me ensinou, na terceira série do ensino fundamental, que a água é inodora, insípida e incolor. Acho isso legal até hoje. Nossa! Imaginar que o conjunto de características de alguma coisa é justamente a ausência de qualquer característica é até meio filosófico. Água não tem cheiro, não tem gosto e não tem cor. E só por isso é água! Se tem alguma dessas coisas, não é água: é água com mais alguma coisa. No caso de água de Porto Alegre: merda. A direção do Dmae diz que é normal. Ou não teve uma terceira série forte ou é canalha mesmo. Diz que essa água com cheiro, cor e gosto de merda não prejudica a saúde. Obviamente, quero crer que o cérebro dos diretores e técnicos do órgão público municipal, intoxicado pela merda, é o responsável por essa opinião de merda.

O velho filtro de barro não serve mais para deixar a água com um gosto menos ruim. As chamadas "velas", usadas dentro dos filtros, não aguentam tanta merda. A água filtrada, vendida como se fosse mineral em garrafas de 20 litros, têm a mesma fonte, o Rio Guaíba, ou seja, as empresas que testei, oferecem a mesma água, literalmente, de merda. A única alternativa é a água mineral, muito mais cara, ou água de poço artesiano engarrafada e também cara.

Retomei os conhecimentos mais remotos das minhas habilidades escoteiras e estou usando uma técnica que me permite beber a pior das águas: a fervura. Tenho fervido água do Dmae, sem tampa na chaleira para que fique ali, apenas, o H2O.

Não sou químico, mas a temperatura de fervura da água (100 graus) deve ser maior que a temperatura de fervura da merda, que eu compro pelo Dmae. O curioso disso tudo é a negação e não o fato. Na real, o Dmae está me oferecendo mais do que eu pago. Afinal, quero só água tratada. A merda vem de brinde.

A Fepam deu nome para a merda da Dmae. É "actinobacteria". Quem teve a terceira série forte, não a Fepam ou Dmae, sabe muito bem que isso não explica nada. Actinobacteria é uma família que vai desde bactérias benéficas ao organismo humano até bactérias que podem causar tuberculose e lepra. Eu sempre aposto na burrice das pessoas, quando não quero apostar na desonestidade. Fepam e Dmae, então, é formada por um conjunto de técnicos que deve passar sede, afinal a água trocou de cor. Caso o capim troque de cor, devem morrer de fome.

Eu escrevi "água do Dmae", ali em cima? Corrijo-me. É "minha água", afinal o Dmae está me vendendo água de merda, e se eu pago por ela. Trata-se de "minha água" e não mais água do Dmae. Órgãos públicos, com palhaços políticos e burocratas idiotas, têm o velho costume de fazer de conta que estão fazendo um favor para seus clientes.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Brexit: a sangue frio

O Reino Unido nunca fez parte da União Europeia. Jornais importantes de lá têm uma editoria inteira chamada "Europa". Eles lá e nós aqui, na cultura. Tudo aqui quando o assunto é dinheiro. Nada aqui quando o caso é dividir o mérito. Ou vocês acham que os países da Escandinávia são europeus também? O que mais vocês querem? Dizer que os latino-americanos são europeus? Isso, isso. Todo mundo é europeu, agora! Somos contra globalização, mas a favor de continentes gigantes. A esquerda peca pela inocência; a direita é só por burrice mesmo.

No dia 9 de setembro, o partido conversador terá seu novo líder e a Inglaterra, consequentemente, um novo primeiro ministro. Boris Johnson, populista de direita e favorito na corrida, já disse que não concorre. Teve um surto de dignidade e, como principal homem da campanha do chamado Brexit, sabe que não pode administrar a saída definitiva do bloco.

Os velhos foram às urnas, buscando retomar um país ao qual estavam habituados na juventude. Os jovens pouco participaram - muitos porque não podiam -, agora, reclamam a manutenção de um país ao qual estão habituados. No fundo, todo jovem é conservador. Não existe progresso moral, nem estético. Só existe progresso no discurso.

O Reino Unido conseguiu uma coisa espetacular: mostrou que é maior que Londres. Essa obviedade geográfica não é tão óbvia assim, do ponto de vista político. Toda capital mundial apequena o país onde ela está. É o simulacro da relevância, pela imponência e intimidação. Não tem como sustentar isso nas urnas nas urnas. Bairrismo, provincianismo e patriotismo. Todos filhos da mesma Bruxa de Blair. O inglês e o galês foram às urnas para mostrar que a Cornualha é quem manda na região. Alimentar o separatismo da Escócia e da Irlanda é uma consequência previsível e administrável, ao menos essa é a aposta deles.

Agora, o Reino Desunido se transformou na nova América. Síndrome da cultura colonizadora que foi colonizada. Portugal sente isso por nós faz muito tempo. O caso bretão lembrou-me a imagem criada pela história do livro "A Sangue Frio" do Truman Capote. A mesma Europa que queria a ilha vizinha no seu continente, agora vai brigar para que a ruptura seja rápida. Capote precisou lutar para adiar a pena capital dos seus personagens e, meses depois, brigou para que eles fossem mortos o quanto antes. Afinal, seu livro ficaria impublicável. A Europa vai se transformar em uma peça impublicável de Shakespeare.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Saindo do velho e chegando no velhíssimo continente

Nas minhas escalas para o Brasil, estavam a cidade de Paris e Barcelona. Muito bom isso. O cara volta a se acostumar com o raciocínio latino, aos poucos. Estou, e cada vez mais, convicto de que o nosso problema é um caso de raciocínio linguístico. Somos mortos pelo excesso de humanidade. Nórdicos e Alemães, mais espertos, preferem matar os outros pelo excesso de humanidade que convém para eles, claro. Por que há pichações nos prédios da maravilhosa arquitetura de Paris? Porque há parisienses em Paris e parisienses, gostando ou não da ideia, são tão latinos quanto os cidadãos da Península Ibérica ou do Paraguai. A diferença entre colonizadores e colonizados não é tão grande assim. Com exceção dos Estados Unidos, quem sabe, um lugar muito particular na história da humanidade.

Vou repetir: é uma deficiência de raciocínio. É uma forma de ver o mundo ultrapassada. Então, não existem idiotas fora do mundo latino? Claro que existem. Está aí o Estado Islâmico para provar. Mas a idiotice pública tem um preço mais alto entre os ingleses. Então, melhor criar ferramentas para ser idiota privadamente. Eis que surge o punk rock e a "arte" de Banksy, cada vez mais próxima da pichação do que da arte. É só uma questão de tempo para eles se flagrarem disso completamente.

Obviamente, isso não significa que nada de bom possa ser recolhido da transgressão latina. Claro que pode. Mesmo que o conceito de revolução - um exemplo extremo - só possa ser levado a sério por gente que não pode ser levada a sério, há muita coisa para inspirar nesse contexto. A arte revolucionária, é o caso. Como não amar Delacroix? Como preferir Banksy? Não dá.

Sentir falta de Londres é sentir falta de uma megalópole cosmopolita, em meio a excentricidade de alguns poucos ingleses. Não conheci a Inglaterra e, honestamente, nem interesse tenho. O que vi de Londres, no entanto, me basta para saber que toda a água que rolou por debaixo daquelas pontes do Tâmisa fez muita coisa de boa e de ruim para o ocidente. E a tensão nunca diminuiu. No máximo, ela é disfarçada com uma dose de bom humor. A guerra entre civilização e barbárie está mais acessa do que nunca e, se precisamos agradecer que a tensão é menor na América Latina, não devemos isso à benevolência do novo expansionismo, proveniente do Islã, é pela falta de interesse na fraqueza. As lutas devem ser travadas contra os inimigos do passado e do futuro, aqueles que estão no topo da cadeia alimentar civilizatória. E isso inclui muita coisa: ciência, cultura, religião, finanças e, principalmente, hombridade, a disposição para se doar por uma causa, coisa que nós não temos.

Fiquei feliz de chegar no Brasil. Estava com saudade de churrasco e mulheres bonitas. Claro que assusta ficar um ano inteiro no inverno da vida. O pouco calor que eu vi foi em Barcelona e não passou dos 22º graus. Não fiquei resfriado em nenhum momento. Espero não ficar agora que me vacinei contra a tal H1N1. Muito se fala disso na Europa. Aqui se fala do básico, para não assustar e porque pouco se sabe.

Ah!! Saudade do Brasil!! Taxista dando voltas por causa das ruas fechadas pelo protesto! Dez por cento direto na comanda do restaurante por um serviço prestado que já foi pago no preço do produto! Condomínio dando sermão em todo mundo por causa de entulhos abandonados na área comum, sem punir o culpado diretamente! R$ 6,89 por um quilo de feijão! R$8 o quilo de batata!

E o povo? Nas redes sociais defendendo governos, golpistas e canalhas! Querendo saber quem roubou primeiro, mas sem se preocupar porque continuam roubando. A gente não tem atentado terrorista por falta de interesse mesmo. Se fosse por merecimento, já seria uma população dizimada.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Temer não deve poder governar; O PT não merece

Nada na agenda política nacional deve ser tolerado. Nenhuma reforma educacional, trabalhista ou de saúde pública deve ser discutida. Tudo deve ser objeto de boicote e rechaço. Michel Temer, o líder de quadrilha, não deve ser deixado em paz um só minuto. Temer teve a oportunidade de montar um ministério 100% chapa limpa. Não o fez. Teve a oportunidade de fortalecer a lava-a-jato, preferiu perder credibilidade com o canalha de estimação de todos os governos desde Sarney, Romero Jucá.

A recriação do Ministério da Cultura, desvinculado do seu devido lugar, o MEC, apenas no governo de Lula, não foi só um sinal de fraqueza, mas de ignorância e inabilidade política. Uma coisa é controlar um partido (ou melhor: uma quadrilha), outra, bem diferente, é ser chefe de estado. Quem nasceu pra Al Capone, jamais chegará a Mandela. Temer não tem calibre, preparo político, craquejo administrativo ou intelectual para o tipo de reconciliação que a sociedade exige; muito menos para fazer um pacto federativo real. Por isso, não deve ser deixado em paz um só momento.

Do ponto de vista econômico, a quebradeira é inevitável; quando a garantia da ordem social, bom... não temos faz um bom tempo. O limite parece ser o escarnio completo. Haverá mais inflação? Sim. Falta de investimento estrangeiro? Completamente. Faltará moeda estrangeira e o dólar voltará a casa dos quatro reais? Pode apostar. Mais problemas nos setores sociais que realmente importam, saúde, educação e segurança pública? Aham!!

A máquina pública não será freada com a agilidade que o país precisa. Não é possível se livrar do gasto com pessoal acumulado durante 13 anos de inserção de militantes no funcionalismo público federal.

A esquerda, histérica, é capaz de fazer qualquer coisa pelo seu terceiro reich, Lula. Vai morrer na praia por falta de figura institucional e perder o pouco que conservou de credibilidade internacional. Restará a militância DCE enquanto as torneiras estiverem pingando, mas estão todas secando. Ou alguém espera que a torneira da militância baixinha não será a primeira a ser secada? A tese de golpe, criada para tentar reabilitar a militância em torno da figura presidencial de Lula, só serve para fortalecer os incautos que assumiram o poder. No fundo, a única coisa que Michel Temer tem hoje a seu favor é a oposição da esquerda. Ela depõem contra si mesmo e faz um bom trabalho para Temer.

O problema é muito mais embaixo. É a estrutura da república que precisa ruir para que se construa outra, com outros atores políticos. Nada do que está aí pode ser aproveitado com dignidade. Uma assembleia constituinte precisa ser chamada. Afinal, vocês acham que aqueles que fazem as regras do jogo podem fazer isso enquanto jogam e tentam defender cada um seus pequenos feudos?

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Se cochilar, o cachimbo cai

Dei uma rápida passada por uma tal rede social - não recomendo! - e vi vários jovens jornalistas tendo a oportunidade de criticar um governo federal pela primeira vez na vida. Bem-vindos à profissão! Ela era bem interessante até a década de 90, quando vocês ainda estavam todos mijados dentro das suas fraldas.

Independente dos argumentos falaciosos que tentam mostrar um país dividido, os 54 milhões de votos - também depositados no salafrário Michel Temer, aliás - passam muito longe de representar a maioria do contingente eleitoral brasileiro. O cenário é esse em virtude de atores políticos oportunistas, Marina Silva e outros fracassados em geral, como os advindos do PSol e partidos de aluguel, criados para captar o fundo partidário e enriquecer seus donos, pequenos senhores feudais modernos.

A queda de Dilma, um impeachment político e, portanto, com um julgamento político é a informação mais evidente de que o presidencialismo de coalizão e  troca de votos por cargos deve ter um fim, mesmo que seja violento e traumático. Dilma tentou elevar esse modelo político a enésima potência, mas isso não é possível sem a habilidade política dos dois presidentes que a sucederam somadas. E quanto a habilidade política de Dilma, bem...

Nesse momento, uma reforma política precisa estar em mais alta monta, deixando as tentativas de reformas eleitorais completamente de lado. O ex-presidente, atual investigado e futuro réu da lava-jato, Luis Inácio Lula da Silva foi o último com habilidade política para promover uma reforma política real. Ele preferiu o caminho do populismo, fez uma escolha pessoal e elegeu um poste para o suceder. Se o populismo também se esgotou, isso só poderá ser atestado por uma eventual derrota de Lula nas urnas em 2018. Contudo, a sua vitória é praticamente inevitável por dois motivos: i) ele é dono do PT e leva no bolso seus militantes mongoloides; ii) sem uma reforma política, será o único candidato com o conhecimento real da estrutura de marketing necessária para se ganhar uma eleição presidencial. No atual modelo é assim, eleições não são vencidas com propostas e projetos, mas marqueteiros.

Não será possível mudar esse cenário sem uma reforma política e o presidente de coalizão continuará sempre sujeito a um parlamentarismo de ocasião. Podem bradar "GOLPE!!" com toda força. Os pulmões intoxicados de Derby dos militantes lulistas não é tão forte quanto o sistema político. Sobre os militantes, aliás, o comportamento do grupo descontente é evidente. Eles se dividirão entre a mão de obra barata que incendeia pneus, tranca estradas e os pseudointelectuais de orelha de livro, produzindo muita subliteratura e falando muita bobagem em universidades e redes sociais. O comportamento dos militantes que realmente interessa envolve os 4 milhões que foi às ruas para pedir a queda de Dilma. Se esses esmaecerem e mostrarem qualquer sinal de contentamento com o governo do presidente interino, Dilma voltará em menos de 180 dias, mais: podemos sepultar definitivamente qualquer tentativa de transformar o Brasil em uma República.

Michel Temer é muito mais um líder de quadrilha do que um chefe-de-estado.

O segundo grupo de militantes é capaz de voltar às ruas para pedir uma reforma política, com manifestações espontâneas, desvinculadas da publicidade promovida pelos obscuros do Movimento Brasil Livre e Fiesp? Só a história dirá.

Sou um pessimista e todo sinal de otimismo deve ser encarado como uma profunda falta de caráter no Brasil.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Isentões e liberdade de acesso a informação

Ficar em cima do muro não é fácil. Duvida? tenta ficar em cima da tela que instalaram na frente do Congresso!

O afloramento dos ânimos em momentos conturbados da história política não é uma novidade brasileira. É possível remontar vários períodos nos quais governantes viram-se diante de “nós”, aqueles que os apoiam, e “eles”, os conspiradores. Foi assim contra Getúlio Vargas na Revolução Constitucionalista de 32 (ou seria golpe, contragolpe?); a Alemanha, por sua vez, espera jamais precisar revisitar o sentimento de divisão da República de Weimar, entre as duas grandes guerras, e suas consequências desastrosas. Quando a disputa ultrapassa o futebol, o acirramento entre defensores e detratores se instala no ambiente político. Com isso, podemos visualizar uma polarização muito particular, diferente da separação de classes e raças, mas capaz de atingir esses segregacionismos horrendos com uma velocidade incrível.

A única originalidade da atual crise política que o país vive agora é diretamente ligada com o amplo acesso à informação, seja pela transparência das fontes investigadoras, Ministério Público e Polícia Federal, ou em virtude dos meios, imprensa, veículos de comunicação e, muito especialmente, as redes sociais. A proximidade entre os receptores desse conjunto sufocante de informações acirra ainda mais a divisão entre os grupos. O simulacro de democracia atinge sua forma mais elevada, pois vemos centenas de opiniões com as quais concordamos, misturadas com informações e boatos que as ratificam, passando verticalmente diante dos nossos olhos. Somam-se a isso outras opiniões, boatos e informações que agridem nossa posição inicial, são publicações e compartilhamentos dos nossos “inimigos”. Banham-se nessa cascata julgamentos prévios os respectivos grupos, já bem tipificados: “direita-coxinha” e “esquerda-mortadela”, os bisnetos dos adjetivos “chimangos” e “maragatos”, originalmente usados com conotações depreciativas.

Existe, contudo, um grupo que sempre chamou pouca atenção nesse duelo, mas se trata do único verdadeiramente resistente, sem muitas nuances ao longo da história. Os “isentões” não escaparam da tipificação das redes sociais e ganharam um apelido bem particular. Por isentão não estamos falando de alguém pouco preocupado com a crise institucional e moral da política brasileira. Pelo contrário, basta que o internauta não morda o biscoito de um dos extremos ou se comporte de uma forma cética diante de boatos disfarçados de informações para ser enquadrado no grupo. Não entrou na histeria coletiva? Isentão!

O surgimento dos isentões me fez pensar se é possível existir um radicalismo genuinamente de centro, um democrata intransigente, capaz de sustentar que nenhuma opinião deve ser embargada, nenhuma informação relevante deve ser censurada e, diante da alteração dos fatos, as posições também podem ser alteradas, independente do lado para qual elas se inclinem. Uma democracia madura parece exigir esse tipo de radicalidade. Sempre que há uma tentativa deliberada de anular um dos polos, suas opiniões, a forma como elas são expressão nas redes sociais ou o conteúdo da imprensa livre estamos diante de um retrocesso de prejuízo incalculável. Se essas tentativas tivessem eficácia real, os Papeis do Panamá jamais teriam sido publicados, o maior esforço jornalístico global de todos os tempos esbarraria no poder de barganha descomunal de banqueiros em paraísos fiscais e autoridades políticas dos cinco continentes. Precisamos decidir se queremos um ambiente político, econômico e social transparente ou “transparente dependendo do alvo”.

O mais prejudicado com todas as tentativas, judiciais ou políticas, de anular seus contrários é justamente o público médio, aberto para formar sua própria opinião, capaz de reconhecer as tentativas de manipulação e consciente dos efeitos terríveis da censura. No fundo é isso, precisamos proteger os isentões. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Noticiário internacional sobre o Brazilian Car Wash

Quando eu era um jovem repórter, cheio de ideais, sonhos de mudança e virtudes - fui assim por uns 15 dias, acho -, ouvi um medalhão do jornalismo internacional dizer o seguinte: "É preciso olhar o mundo e o noticiário internacional pela perspectiva de um brasileiro comum". Nunca tinha entendido direito isso. Primeiro, não sabia como era olhar para qualquer coisa sem a perspectiva de um brasileiro. Sinto-me o cara mais comum do mundo, ora. Não entendia como algum repórter, sendo ele brasileiro, não seria outro comum. Ainda, não me parecia fazer muito sentindo olhar para qualquer coisa sem ser influenciado pelo tom com o qual ela chega aos meus ouvidos ou olhos. Por muitos anos, isso me pareceu mais um daqueles mitos jornalísticos tão mal vendidos quanto a ideia de que "o jornalismo deve ser imparcial". Sério que alguém algum dia acreditou nisso e outras pessoas ainda acreditam?

Enfim, o tempo passou e eu tinha muitas outras coisas com as quais me preocupar.

Esse tempo aqui na Europa me fez ter contato violento com o noticiário das mais diversas fontes e vertentes políticas, especialmente impresso e radiofônico, tanto por gosto pessoal quanto por motivo de tempo. Pois como o pessoal deve ter notado aí no Brasil também, o noticiário em torno da nossa política nacional se intensificou muito e ficou concentrado basicamente em um único assunto na última semana: a mais recente fase da chamada operação Lava Jato. Inevitavelmente, desde a condução coercitiva do ex-presidente Lula para um depoimento à Polícia Federal, os gringos voltaram a luneta de Colombo do seu noticiário internacional para o lado sul do Atlântico. Mesmo colonizadores, eles não fazem a menor ideia do tipo de repercussão que isso pode ter para o Brasil do ponto de vista da política internacional, diplomática ou econômica. Estão tão ou mais perdidos que a gente.

Muito mais importante do que entender o que os gringos estão falando a respeito do conteúdo desse noticiário me parece prestar atenção ao que eles não têm dito. Não se fala em “golpe”. Também não se fala em nada envolvendo as outras fazes da Lava Jato, coisa confusa aí no Brasil, imagina onde o espaço para essas informações é ainda mais restrito. A própria operação Lava Jato não tem esse nome para o noticiário internacional. Na maioria das vezes, o texto é superficial e explicar um nome tão complicado não convém. Excluindo as exceções, os gringos chamam apenas de "escândalo de corrupção da "oil company Petrobras". Isso parece uma detalhe em meio a outros, mas mostra como tentar emplacar bandeiras artificiais, não serve para tudo. Nem tudo é como o caso Watergate, ou como a operação Mãos Limpas, nem sempre esses slogans colam. Alguns veículos de comunicação tentaram, no começo, batizar a força tarefa do nosso "FBI" de Car Wash. Achei divertido. Não colou no ouvido de ninguém.

O noticiário internacional deve estar muito mais focado na ordem na qual os fatos acontecem do que em escabrosidades declaracionistas como depoimentos, entrevistas e delações premiadas. Quem sabe isso seja uma regra para qualquer noticiário, em qualquer situação? Não sei. E não tenho como pensar sobre isso, agora. O fato inevitável é que o Brasil chamou a atenção do mundo porque um ex-presidente está sendo investigado por, supostamente, ter recebido a reforma de um apartamento de uma empresa que presta serviço para uma das maiores empresas públicas do mundo, a maior petroleira da América Latina. Lavagem de dinheiro e suborno são as acusações do momento. E são elas que devem ter destaque. A partir disso, tudo é um sucessão de fatos em direção ao futuro - que se torna passado cada vez numa velocidade mais frenética, graças a internet. Não há retrospectiva apontando para governos anteriores, muito menos uma retrospectiva até 1964, como se tenta fazer frequentemente no Brasil.

É claro que o maior esquema de corrupção da nossa história deve exigir justamente de nós a discussão a respeito dos seus detalhes. Contudo, essa discussão invade o noticiário político nacional e os analistas políticos locais ficam atordoados com o tsunami de quinquilharias das redes sociais. Correm para todos os lados e apontam para todas as direções. Essa reverberada facebuquiana não existe entre com os gringos; pelo menos não, com algum impacto influente.

Um dos momentos mais significativos a respeito do que vem acontecendo no Brasil foi justamente a tentativa do governo de nomear Lula ministro. Foi confuso para os jornalistas daqui também. Afinal, é muito difícil você explicar que uma Chefe de Estado está dando poderes de ministro para um colega de partido para que ele tenha "foro privilegiado" ou foro por prerrogativa de função, como alguns preferem. Isso não tem som algum em outra língua; muito menos em outro raciocínio político! Como explicar o que é "foro privilegiado", onde isso parece um absurdo vindo de outro planeta? The Guardian tentou: "re-entry into politics would shield Luiz Inácio Lula da Silva from some levels of prosecution over alleged kickbacks and money laundering". Osso duro, né? Esse mesmo absurdo, deveria estar invadindo nossos olhos e ouvidos há um bom tempo.

As manifestações foram narradas como pró e contra o governo. É isso que cada uma delas foi. A panfletagem revestida com gritos de "golpe" é o pedido de renúncia de uma presidente que nomeia alguém investigado em um esquema de corrupção. O "mortadelaço" é o apoio de um determinado segmento da sociedade à manutenção da mandatária do executivo. Só isso. Nada mais. Fala-se de coisas especificas, singulares entre si. Não existe uma lista de instituições golpistas. Não existe um grupo neo-comunista tentando tomar o poder no Brasil a força de forma indefinida.

A poeira sempre baixa mais rápido onde ela chegou mais longe. O noticiários internacional tem muito desse fenômeno estranho: aquilo que foi manchete de primeira-página ontem; hoje, não chega a chama de roda-pé. Se há confronto de manifestantes aí no Brasil, nas redes sociais ou nas ruas, a culpa não é dos grupos exaltados, é da nossa falta de competência para administrar todos os problemas de educação e segurança pública. Não esperem que essas coisas façam eco longe de nós. Nossa gritaria é isolada. Não haverá uma Primavera Árabe no outono brasileiro, sem que nós a façamos.