quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Cinco coisas para a Dilma fazer em Porto Alegre

Querida presidente Dilma - ou "presidenta", como preferem seus fãs mais inveterados,

estou escrevendo em solidariedade a traição que a senhora sofreu daquelezinho lá. Todo mundo sabia que casamento arranjado pelos outros dá nisso. Lula nunca foi um padrinho para se levar a sério. A senhora sabia disso. A senhora não fazia o menor esforço para disfarçar o desgosto. Sua cara azeda diante dos microfones e das câmeras denunciava tudo. Quase um pedido de socorro! E nem estou falando da inabilidade para ser chefe de estado e aqueles discursos feitos para o Youtube. Uma mulher com uma relação daquelas seria capaz de tudo para chamar atenção. A gente desculpa a senhora.

Bueno, fiquei feliz que a senhora está voltando para Porto Alegre. Nem deveria ter saído. Aqueles nossos planos de abrir uma padoca perto da UFRGS podem ser retomados. Pode ser mais difícil conseguir o tal financiamento no BNDS e tal, mas não custa tentar. Só não abro mão da foto do Stédile nos frios da mortadela. Em contra partida, a senhora pode estampar a Janaina Paschoal no forninho das coxinhas e fica tudo certo.

Legal a decisão da senhora de não esperar os 30 dias para sair de casa. Eles não devem ficar por aí pensando que a senhora precisa de favores. Já arrumei aquele colchão no quartinho dos fundos e até limpei os lençóis. Um dos gatos sempre vai fazer companhia de noite, mas de gatos a senhora entende bem. Não vai se importar. A Cidade Baixa vai ser pequena para tanta curtição, Dilminha! Tomei a liberdade de fazer uma lista para a senhora se sentir bem a vontade no paralelo 30. Vai lá:

Pedalar (de bicicleta) na ciclovia da José do Patrocínio: Sei muito bem que a senhora prefere ir lá nas bandas do Guaíba curtir
sua bike. Mas muito melhor é usar essa obra que o Fortunati fez e ninguém usa. Quem sabe, ele valoriza o agrado e sobra uma secretaria para a senhora...

Comer um Speed - Ahh, os tempos de fome acabaram. A senhora emagreceu imensamente com o stress desse trabalho inútil dos últimos anos. Vamos direto na esquina da República (a rua, nada de pensar que existe uma República por aqui) com a Lima comer um super X Speed. O segredo é passar lá no final do domingo. A chapa só é limpa nas segundas e o tchaaaan do lanche está justamente na gordura acumulada durante a semana.

Jogar uma bocha no Soeral - A redenção está meio down desde o último temporal. Caíram muitas árvores e colocaram um trenzinho para as crianças (só tem velho usando). Mas ainda tem os companheiros dos finais de tarde que jogando bocha. Cada rolada está valendo uma duas Polar. Tem muito vereador que não deu certo jogando lá. A senhora pode fazer uns contatos.

Tomar uma gelada no Pinguim - Andam dizendo que o Pinguim é fascista. Veja só! Só porque - dizem - deram uns petelecos nuns gays lá dentro. Com a presença da senhora, a gente reativa a moral do bar e, se trabalhar bem o merchan, ainda descolamos umas geladas na sola do gerente.

Queimar contêiner de lixo - Tudo bem, tudo bem. Eu sei que anda meio fora de moda e sei também que a senhora até reclamou disso em 2013. Mas vá lá. Tem seu charme. O lixo orgânico exala aquele cheiro podre do capitalismo selvagem. No mais, a senhora volta a estar entre os seus. Por mais que a militância baderneira DCE aqui não seja tão legal quanto é na USP, ainda dá para ganhar umas fotos. No mais, o Sartori está parcelando o salário da Brigada Militar também. E a Guarda Nacional anda por Porto Alegre. Eles tem intimidade com a senhora. Afinal, foi uma Guarda Petoriana montada de forma inconstitucional justamente para defender coisas inconstitucionais. Parece justamente o caso do seu mandato de Nossa Presidente Moral.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O Estado das Coisas é de Guerra

Essa semana uma jovem oftalmologista morreu, após uma tentativa de assalto aqui em Porto Alegre. Recentemente, números divulgados pela Secretaria de Segurança Pública mostram uma diminuição no número de furtos a veículos. Em contrapartida, há um aumento substancial nos casos de assaltos a mão armada, também tendo os carros como alvos. Com a melhor qualidade dos alarmes, chaves codificadas e dispositivos de rastreamento, o marginal precisa ser mais audacioso e abordar a vítima, enquanto entra, saí do veículo ou mesmo com ele em movimento. A abordagem, obviamente, é sempre violenta. Até onde sei, ninguém entrega seu carro em troca de flores.

No caso da oftalmo, me chamou atenção o testemunho a irmã da vítima. Ela disse que os criminosos tentaram abrir a porta que "estava trancada", como a investida foi frustrada, um meliantes disparou contra o vidro, atingindo o abdômen da vítima. Graziela Muller Lerias tinha 32 anos, era médica do SUS no Hospital Banco de Olhos e morreu na hora. Se fosse uma velha de 80 anos e indigente, a truculência com a qual o caso merece ser tratado seria rigorosamente. 

Nenhuma lei injusta deve ser cumprida.

Com alguma frequência autoridade de segurança pública ganham espaço da imprensa para dizer mais do mesmo "não reaja a assaltos", "evite movimentos bruscos". Agora, pelo jeito, uma nova orientação deve ser "mantenha as portas do seu carro destrancada e os vidros baixos para facilitar a vida do assaltante".

Jornalista burocratas, incluindo a maior emissora de TV do Brasil e suas respectivas afiliadas, dão espaço para desarmamentistas. Invadem o velório das vítimas para distribuir panfletos do proselitismo político que alimenta seus salários através da publicidade. Enquanto isso, os corpos das vítimas se empilham nos necrotérios. 

O que vou dizer aqui não contaria nenhuma norma de segurança. Apenas tem relação com direitos individuais inalienáveis. Pois lá vai: a vítima tem o direito de reagir. É uma escolha dela. E, mesmo que essa escolha venha a ser frustrada, ela não é responsável pelo desfecho de um cenário montado por outra pessoa. O criminoso é o único responsável. Assim como a escolha de não reagir também só pode ser feita pela vítima. Ninguém tem o poder metafísico de influenciar essa decisão. No caso de uma autoridade pública que dá "orientações" a respeito de como se comportar o caso já é de desrespeito. Obviamente, orientações tão espúrias jamais seriam dadas em um lugar onde a segurança pública fosse levada a seria pelos responsáveis por sua gestão. 

A legislação do desarmamento, derrotada a respeito da venda de armas de fogos de forma acachapante no referendo de 2005, é uma aberração jurídica e descumpri-la não é um atentado grave, quando envolve preparo técnico e armas legalmente registradas em nome daqueles que buscam apenas preservar sua vida ou os quem está a sua volta. No mais, o porte de arma não está impedido, como mente e tentam confundir. Para aqueles envolvidos em atividades esportivas, tanto transporte como porte já são garantidos por lei. Obviamente, o preparo técnico para ter o pedido deferido pela Policia Federal envolve um conjunto de exigências muito alto. O marginal não faz pedido de porte algum.

Toda responsabilidade do cenário criado pelo criminoso é dele. Isso inclui o dolo as vítimas - fatais ou não - , "acidentes" envolvendo pessoas incluídas na cena do crime e, inclusive, uma retalhação da vítima causando a morte do marginal. Com alguma frequência, atrofiados mentais, auto-intitulados "defensores dos direitos humanos", usam argumentos como "mas ele só tinha uma faquinha e tomou dois tiros". Tenho uma novidade: faquinhas também matam. E só a vítima pode decidir se está disposta ou não a colocar sua vida à disposição em troca do agressor. A vítima não tem culpa, nunca. Ela nunca está "na hora errada", "no lugar errado". Nunca a vítima "se movimentou de um jeito brusco".

Quem não compreende e se compadece dos problemas sociais e educacionais que forma legiões de terroristas no Brasil é burro. Quem acha que alguém deve se submeter a isso, doando a vida e se entregando como uma ovelha para o abate, até que todos os problemas sociais e educacionais sejam resolvidos, é burro e ingênuo. 

Nosso atual estado das coisas é de guerra. Também sou contra a guerra. Apenas torço para quem atira melhor. 

No mais, segue a regra de ouro: não faça as outros o que não quer que lhe façam. Parece simples mas é preciso equilíbrio. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Rio é a nossa única capital

A abertura dos jogos Olímpicos foi uma festa invejável. Disso a gente entende: festa, carnaval e péssimo gosto estético. A boa novidade é que o mau gosto ficou de fora da cerimônia. Ponto para a equipe que pensou a abertura. O artista que desenhou a pira olímpica, Anthony Howe, também marcou um golaço. Bonito demais aquela cuia de chimarrão com as pazinhas se mexendo em movimento elíptico.

Mesmo antes a abertura, oficinal nossas especialidades mais elementares já estavam em cena: incompetência política, saúde pública destruída, segurança pública em ritmo de escarnio e nossa péssima educação. Seria possível elencar vários shows em cada uma dessas áreas. O mundo está fazendo isso, cada cultura a sua maneira. Sim, verdade. Vai ter jornalista elogiando a sede dos jogos. Não elogiar o Rio de Janeiro é um passo para a insanidade. Provavelmente, seja a geografia mais bonita do mundo. Excluindo os taxistas e os bandidos (nem todo bandido é taxista) tem muita gente boa no Rio. Então, nada mais natural do que você se encantar com a cidade. Uma cidade turística normal, onde turistas são explorados, como em qualquer outra cidade turística. Isso nunca será um problema. Turista merece ser explorado, mesmo. Mas só financeiramente. Precisa transporte, estrutura e assistência de toda ordem.

Os principal problema é que ninguém consegue ligar um botão "evento de projeção mundial" e isolar a cidade das Olimpíadas.

Por ora, nossa lista de absurdos inclui, um ministro português assaltado, uma arquiteta morta no Boulevard Olímpico, outro assassinado próximo do Maracanã, antes da abertura oficial. Também temos militares do Exército baleados e tiroteio no morro do Alemão, bala perdida no centro de imprensa e ônibus de jornalista tomando chumbo. Tudo coisas do cotidiano da cidade e, portanto, das Olimpíadas. Nada anormal.

Se a segurança pública não fosse um problema suficientemente grave, o transporte da pior qualidade ajuda a desenhar o cenário. Durante todo o dia de ontem, turistas relataram que não conseguiam comprar o vale-transporte de três dias, mais acessível que o individual. Também tem a saúde pública e saneamento roubando a atenção. Nem me refiro a Baia de Guanabara, mas a piscina de polo aquático que ficou com a água inexplicavelmente verde. Claro que "não faz mal pra saúde de nenhum atleta", mentem os irresponsáveis.

Burrice administrativas, e vários jogos sem público algum. Como os turistas viraram as costas para o evento, sobrou espaço vazio nas arquibancadas. Com o recorde negativo de UM único torcedor pagante em um jogo entre África do Sul e Suécia. Astros da NBA jogando para ninguém assistir e atletas desconhecidos, sem incentivo algum.

Distribuir ingressos para as escolas, então, quem sabe? Não seria inteligente demais para um lugar como o nosso. Simples demais. Não estamos acostumados a respostas simples. Não há como enganar ninguém com respostas simples.

Nossa educação, por outro lado, não precisou nem do Rio para mostrar sua debilidade. Basta lembrar que por onde a CBF passa com seus macaquinhos chutadores de bola há vaias e aplausos. Afinal, a torcida não é patriota, apenas gosta de festa e, sem espetáculo, bufadas vêm da arquibancada e xingamentos vêm da falta de uma terceira séria forte. Sobra é polêmica social pueril para dividir mortadelas e coxinhas. "A única diferença entre conservadores e progressistas é que os conservadores vão na missa das cinco e os progressistas na missa das oito", diria García Márquez.

Se a gente pudesse resumir bem resumido, ficaria claro que o Rio é a única capital moral, intelectual e cívica do Brasil. Isso inclui todos os seus defeitos e suas duas ou três qualidades.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A água do Dmae vem com merda de brinde

A água de Porto Alegre está fedendo a merda há dois meses. Há duas semanas o Dmae, responsável pela água e pelo esgoto da capital da República Farroupilha, explicou que se trata literalmente de merda. Uma das estações de captação, instalada no Guaíba, está recebendo esgoto, doméstico e industrial, quando deveria haver somente água proveniente da chuva escoando naquela área. A explicação foi dada há duas semanas, mas e daí? A água continua fedendo merda, tem gosto de merda e cor de merda.

A professora Jandira Coleto me ensinou, na terceira série do ensino fundamental, que a água é inodora, insípida e incolor. Acho isso legal até hoje. Nossa! Imaginar que o conjunto de características de alguma coisa é justamente a ausência de qualquer característica é até meio filosófico. Água não tem cheiro, não tem gosto e não tem cor. E só por isso é água! Se tem alguma dessas coisas, não é água: é água com mais alguma coisa. No caso de água de Porto Alegre: merda. A direção do Dmae diz que é normal. Ou não teve uma terceira série forte ou é canalha mesmo. Diz que essa água com cheiro, cor e gosto de merda não prejudica a saúde. Obviamente, quero crer que o cérebro dos diretores e técnicos do órgão público municipal, intoxicado pela merda, é o responsável por essa opinião de merda.

O velho filtro de barro não serve mais para deixar a água com um gosto menos ruim. As chamadas "velas", usadas dentro dos filtros, não aguentam tanta merda. A água filtrada, vendida como se fosse mineral em garrafas de 20 litros, têm a mesma fonte, o Rio Guaíba, ou seja, as empresas que testei, oferecem a mesma água, literalmente, de merda. A única alternativa é a água mineral, muito mais cara, ou água de poço artesiano engarrafada e também cara.

Retomei os conhecimentos mais remotos das minhas habilidades escoteiras e estou usando uma técnica que me permite beber a pior das águas: a fervura. Tenho fervido água do Dmae, sem tampa na chaleira para que fique ali, apenas, o H2O.

Não sou químico, mas a temperatura de fervura da água (100 graus) deve ser maior que a temperatura de fervura da merda, que eu compro pelo Dmae. O curioso disso tudo é a negação e não o fato. Na real, o Dmae está me oferecendo mais do que eu pago. Afinal, quero só água tratada. A merda vem de brinde.

A Fepam deu nome para a merda da Dmae. É "actinobacteria". Quem teve a terceira série forte, não a Fepam ou Dmae, sabe muito bem que isso não explica nada. Actinobacteria é uma família que vai desde bactérias benéficas ao organismo humano até bactérias que podem causar tuberculose e lepra. Eu sempre aposto na burrice das pessoas, quando não quero apostar na desonestidade. Fepam e Dmae, então, é formada por um conjunto de técnicos que deve passar sede, afinal a água trocou de cor. Caso o capim troque de cor, devem morrer de fome.

Eu escrevi "água do Dmae", ali em cima? Corrijo-me. É "minha água", afinal o Dmae está me vendendo água de merda, e se eu pago por ela. Trata-se de "minha água" e não mais água do Dmae. Órgãos públicos, com palhaços políticos e burocratas idiotas, têm o velho costume de fazer de conta que estão fazendo um favor para seus clientes.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Brexit: a sangue frio

O Reino Unido nunca fez parte da União Europeia. Jornais importantes de lá têm uma editoria inteira chamada "Europa". Eles lá e nós aqui, na cultura. Tudo aqui quando o assunto é dinheiro. Nada aqui quando o caso é dividir o mérito. Ou vocês acham que os países da Escandinávia são europeus também? O que mais vocês querem? Dizer que os latino-americanos são europeus? Isso, isso. Todo mundo é europeu, agora! Somos contra globalização, mas a favor de continentes gigantes. A esquerda peca pela inocência; a direita é só por burrice mesmo.

No dia 9 de setembro, o partido conversador terá seu novo líder e a Inglaterra, consequentemente, um novo primeiro ministro. Boris Johnson, populista de direita e favorito na corrida, já disse que não concorre. Teve um surto de dignidade e, como principal homem da campanha do chamado Brexit, sabe que não pode administrar a saída definitiva do bloco.

Os velhos foram às urnas, buscando retomar um país ao qual estavam habituados na juventude. Os jovens pouco participaram - muitos porque não podiam -, agora, reclamam a manutenção de um país ao qual estão habituados. No fundo, todo jovem é conservador. Não existe progresso moral, nem estético. Só existe progresso no discurso.

O Reino Unido conseguiu uma coisa espetacular: mostrou que é maior que Londres. Essa obviedade geográfica não é tão óbvia assim, do ponto de vista político. Toda capital mundial apequena o país onde ela está. É o simulacro da relevância, pela imponência e intimidação. Não tem como sustentar isso nas urnas nas urnas. Bairrismo, provincianismo e patriotismo. Todos filhos da mesma Bruxa de Blair. O inglês e o galês foram às urnas para mostrar que a Cornualha é quem manda na região. Alimentar o separatismo da Escócia e da Irlanda é uma consequência previsível e administrável, ao menos essa é a aposta deles.

Agora, o Reino Desunido se transformou na nova América. Síndrome da cultura colonizadora que foi colonizada. Portugal sente isso por nós faz muito tempo. O caso bretão lembrou-me a imagem criada pela história do livro "A Sangue Frio" do Truman Capote. A mesma Europa que queria a ilha vizinha no seu continente, agora vai brigar para que a ruptura seja rápida. Capote precisou lutar para adiar a pena capital dos seus personagens e, meses depois, brigou para que eles fossem mortos o quanto antes. Afinal, seu livro ficaria impublicável. A Europa vai se transformar em uma peça impublicável de Shakespeare.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Saindo do velho e chegando no velhíssimo continente

Nas minhas escalas para o Brasil, estavam a cidade de Paris e Barcelona. Muito bom isso. O cara volta a se acostumar com o raciocínio latino, aos poucos. Estou, e cada vez mais, convicto de que o nosso problema é um caso de raciocínio linguístico. Somos mortos pelo excesso de humanidade. Nórdicos e Alemães, mais espertos, preferem matar os outros pelo excesso de humanidade que convém para eles, claro. Por que há pichações nos prédios da maravilhosa arquitetura de Paris? Porque há parisienses em Paris e parisienses, gostando ou não da ideia, são tão latinos quanto os cidadãos da Península Ibérica ou do Paraguai. A diferença entre colonizadores e colonizados não é tão grande assim. Com exceção dos Estados Unidos, quem sabe, um lugar muito particular na história da humanidade.

Vou repetir: é uma deficiência de raciocínio. É uma forma de ver o mundo ultrapassada. Então, não existem idiotas fora do mundo latino? Claro que existem. Está aí o Estado Islâmico para provar. Mas a idiotice pública tem um preço mais alto entre os ingleses. Então, melhor criar ferramentas para ser idiota privadamente. Eis que surge o punk rock e a "arte" de Banksy, cada vez mais próxima da pichação do que da arte. É só uma questão de tempo para eles se flagrarem disso completamente.

Obviamente, isso não significa que nada de bom possa ser recolhido da transgressão latina. Claro que pode. Mesmo que o conceito de revolução - um exemplo extremo - só possa ser levado a sério por gente que não pode ser levada a sério, há muita coisa para inspirar nesse contexto. A arte revolucionária, é o caso. Como não amar Delacroix? Como preferir Banksy? Não dá.

Sentir falta de Londres é sentir falta de uma megalópole cosmopolita, em meio a excentricidade de alguns poucos ingleses. Não conheci a Inglaterra e, honestamente, nem interesse tenho. O que vi de Londres, no entanto, me basta para saber que toda a água que rolou por debaixo daquelas pontes do Tâmisa fez muita coisa de boa e de ruim para o ocidente. E a tensão nunca diminuiu. No máximo, ela é disfarçada com uma dose de bom humor. A guerra entre civilização e barbárie está mais acessa do que nunca e, se precisamos agradecer que a tensão é menor na América Latina, não devemos isso à benevolência do novo expansionismo, proveniente do Islã, é pela falta de interesse na fraqueza. As lutas devem ser travadas contra os inimigos do passado e do futuro, aqueles que estão no topo da cadeia alimentar civilizatória. E isso inclui muita coisa: ciência, cultura, religião, finanças e, principalmente, hombridade, a disposição para se doar por uma causa, coisa que nós não temos.

Fiquei feliz de chegar no Brasil. Estava com saudade de churrasco e mulheres bonitas. Claro que assusta ficar um ano inteiro no inverno da vida. O pouco calor que eu vi foi em Barcelona e não passou dos 22º graus. Não fiquei resfriado em nenhum momento. Espero não ficar agora que me vacinei contra a tal H1N1. Muito se fala disso na Europa. Aqui se fala do básico, para não assustar e porque pouco se sabe.

Ah!! Saudade do Brasil!! Taxista dando voltas por causa das ruas fechadas pelo protesto! Dez por cento direto na comanda do restaurante por um serviço prestado que já foi pago no preço do produto! Condomínio dando sermão em todo mundo por causa de entulhos abandonados na área comum, sem punir o culpado diretamente! R$ 6,89 por um quilo de feijão! R$8 o quilo de batata!

E o povo? Nas redes sociais defendendo governos, golpistas e canalhas! Querendo saber quem roubou primeiro, mas sem se preocupar porque continuam roubando. A gente não tem atentado terrorista por falta de interesse mesmo. Se fosse por merecimento, já seria uma população dizimada.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Temer não deve poder governar; O PT não merece

Nada na agenda política nacional deve ser tolerado. Nenhuma reforma educacional, trabalhista ou de saúde pública deve ser discutida. Tudo deve ser objeto de boicote e rechaço. Michel Temer, o líder de quadrilha, não deve ser deixado em paz um só minuto. Temer teve a oportunidade de montar um ministério 100% chapa limpa. Não o fez. Teve a oportunidade de fortalecer a lava-a-jato, preferiu perder credibilidade com o canalha de estimação de todos os governos desde Sarney, Romero Jucá.

A recriação do Ministério da Cultura, desvinculado do seu devido lugar, o MEC, apenas no governo de Lula, não foi só um sinal de fraqueza, mas de ignorância e inabilidade política. Uma coisa é controlar um partido (ou melhor: uma quadrilha), outra, bem diferente, é ser chefe de estado. Quem nasceu pra Al Capone, jamais chegará a Mandela. Temer não tem calibre, preparo político, craquejo administrativo ou intelectual para o tipo de reconciliação que a sociedade exige; muito menos para fazer um pacto federativo real. Por isso, não deve ser deixado em paz um só momento.

Do ponto de vista econômico, a quebradeira é inevitável; quando a garantia da ordem social, bom... não temos faz um bom tempo. O limite parece ser o escarnio completo. Haverá mais inflação? Sim. Falta de investimento estrangeiro? Completamente. Faltará moeda estrangeira e o dólar voltará a casa dos quatro reais? Pode apostar. Mais problemas nos setores sociais que realmente importam, saúde, educação e segurança pública? Aham!!

A máquina pública não será freada com a agilidade que o país precisa. Não é possível se livrar do gasto com pessoal acumulado durante 13 anos de inserção de militantes no funcionalismo público federal.

A esquerda, histérica, é capaz de fazer qualquer coisa pelo seu terceiro reich, Lula. Vai morrer na praia por falta de figura institucional e perder o pouco que conservou de credibilidade internacional. Restará a militância DCE enquanto as torneiras estiverem pingando, mas estão todas secando. Ou alguém espera que a torneira da militância baixinha não será a primeira a ser secada? A tese de golpe, criada para tentar reabilitar a militância em torno da figura presidencial de Lula, só serve para fortalecer os incautos que assumiram o poder. No fundo, a única coisa que Michel Temer tem hoje a seu favor é a oposição da esquerda. Ela depõem contra si mesmo e faz um bom trabalho para Temer.

O problema é muito mais embaixo. É a estrutura da república que precisa ruir para que se construa outra, com outros atores políticos. Nada do que está aí pode ser aproveitado com dignidade. Uma assembleia constituinte precisa ser chamada. Afinal, vocês acham que aqueles que fazem as regras do jogo podem fazer isso enquanto jogam e tentam defender cada um seus pequenos feudos?

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Se cochilar, o cachimbo cai

Dei uma rápida passada por uma tal rede social - não recomendo! - e vi vários jovens jornalistas tendo a oportunidade de criticar um governo federal pela primeira vez na vida. Bem-vindos à profissão! Ela era bem interessante até a década de 90, quando vocês ainda estavam todos mijados dentro das suas fraldas.

Independente dos argumentos falaciosos que tentam mostrar um país dividido, os 54 milhões de votos - também depositados no salafrário Michel Temer, aliás - passam muito longe de representar a maioria do contingente eleitoral brasileiro. O cenário é esse em virtude de atores políticos oportunistas, Marina Silva e outros fracassados em geral, como os advindos do PSol e partidos de aluguel, criados para captar o fundo partidário e enriquecer seus donos, pequenos senhores feudais modernos.

A queda de Dilma, um impeachment político e, portanto, com um julgamento político é a informação mais evidente de que o presidencialismo de coalizão e  troca de votos por cargos deve ter um fim, mesmo que seja violento e traumático. Dilma tentou elevar esse modelo político a enésima potência, mas isso não é possível sem a habilidade política dos dois presidentes que a sucederam somadas. E quanto a habilidade política de Dilma, bem...

Nesse momento, uma reforma política precisa estar em mais alta monta, deixando as tentativas de reformas eleitorais completamente de lado. O ex-presidente, atual investigado e futuro réu da lava-jato, Luis Inácio Lula da Silva foi o último com habilidade política para promover uma reforma política real. Ele preferiu o caminho do populismo, fez uma escolha pessoal e elegeu um poste para o suceder. Se o populismo também se esgotou, isso só poderá ser atestado por uma eventual derrota de Lula nas urnas em 2018. Contudo, a sua vitória é praticamente inevitável por dois motivos: i) ele é dono do PT e leva no bolso seus militantes mongoloides; ii) sem uma reforma política, será o único candidato com o conhecimento real da estrutura de marketing necessária para se ganhar uma eleição presidencial. No atual modelo é assim, eleições não são vencidas com propostas e projetos, mas marqueteiros.

Não será possível mudar esse cenário sem uma reforma política e o presidente de coalizão continuará sempre sujeito a um parlamentarismo de ocasião. Podem bradar "GOLPE!!" com toda força. Os pulmões intoxicados de Derby dos militantes lulistas não é tão forte quanto o sistema político. Sobre os militantes, aliás, o comportamento do grupo descontente é evidente. Eles se dividirão entre a mão de obra barata que incendeia pneus, tranca estradas e os pseudointelectuais de orelha de livro, produzindo muita subliteratura e falando muita bobagem em universidades e redes sociais. O comportamento dos militantes que realmente interessa envolve os 4 milhões que foi às ruas para pedir a queda de Dilma. Se esses esmaecerem e mostrarem qualquer sinal de contentamento com o governo do presidente interino, Dilma voltará em menos de 180 dias, mais: podemos sepultar definitivamente qualquer tentativa de transformar o Brasil em uma República.

Michel Temer é muito mais um líder de quadrilha do que um chefe-de-estado.

O segundo grupo de militantes é capaz de voltar às ruas para pedir uma reforma política, com manifestações espontâneas, desvinculadas da publicidade promovida pelos obscuros do Movimento Brasil Livre e Fiesp? Só a história dirá.

Sou um pessimista e todo sinal de otimismo deve ser encarado como uma profunda falta de caráter no Brasil.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Isentões e liberdade de acesso a informação

Ficar em cima do muro não é fácil. Duvida? tenta ficar em cima da tela que instalaram na frente do Congresso!

O afloramento dos ânimos em momentos conturbados da história política não é uma novidade brasileira. É possível remontar vários períodos nos quais governantes viram-se diante de “nós”, aqueles que os apoiam, e “eles”, os conspiradores. Foi assim contra Getúlio Vargas na Revolução Constitucionalista de 32 (ou seria golpe, contragolpe?); a Alemanha, por sua vez, espera jamais precisar revisitar o sentimento de divisão da República de Weimar, entre as duas grandes guerras, e suas consequências desastrosas. Quando a disputa ultrapassa o futebol, o acirramento entre defensores e detratores se instala no ambiente político. Com isso, podemos visualizar uma polarização muito particular, diferente da separação de classes e raças, mas capaz de atingir esses segregacionismos horrendos com uma velocidade incrível.

A única originalidade da atual crise política que o país vive agora é diretamente ligada com o amplo acesso à informação, seja pela transparência das fontes investigadoras, Ministério Público e Polícia Federal, ou em virtude dos meios, imprensa, veículos de comunicação e, muito especialmente, as redes sociais. A proximidade entre os receptores desse conjunto sufocante de informações acirra ainda mais a divisão entre os grupos. O simulacro de democracia atinge sua forma mais elevada, pois vemos centenas de opiniões com as quais concordamos, misturadas com informações e boatos que as ratificam, passando verticalmente diante dos nossos olhos. Somam-se a isso outras opiniões, boatos e informações que agridem nossa posição inicial, são publicações e compartilhamentos dos nossos “inimigos”. Banham-se nessa cascata julgamentos prévios os respectivos grupos, já bem tipificados: “direita-coxinha” e “esquerda-mortadela”, os bisnetos dos adjetivos “chimangos” e “maragatos”, originalmente usados com conotações depreciativas.

Existe, contudo, um grupo que sempre chamou pouca atenção nesse duelo, mas se trata do único verdadeiramente resistente, sem muitas nuances ao longo da história. Os “isentões” não escaparam da tipificação das redes sociais e ganharam um apelido bem particular. Por isentão não estamos falando de alguém pouco preocupado com a crise institucional e moral da política brasileira. Pelo contrário, basta que o internauta não morda o biscoito de um dos extremos ou se comporte de uma forma cética diante de boatos disfarçados de informações para ser enquadrado no grupo. Não entrou na histeria coletiva? Isentão!

O surgimento dos isentões me fez pensar se é possível existir um radicalismo genuinamente de centro, um democrata intransigente, capaz de sustentar que nenhuma opinião deve ser embargada, nenhuma informação relevante deve ser censurada e, diante da alteração dos fatos, as posições também podem ser alteradas, independente do lado para qual elas se inclinem. Uma democracia madura parece exigir esse tipo de radicalidade. Sempre que há uma tentativa deliberada de anular um dos polos, suas opiniões, a forma como elas são expressão nas redes sociais ou o conteúdo da imprensa livre estamos diante de um retrocesso de prejuízo incalculável. Se essas tentativas tivessem eficácia real, os Papeis do Panamá jamais teriam sido publicados, o maior esforço jornalístico global de todos os tempos esbarraria no poder de barganha descomunal de banqueiros em paraísos fiscais e autoridades políticas dos cinco continentes. Precisamos decidir se queremos um ambiente político, econômico e social transparente ou “transparente dependendo do alvo”.

O mais prejudicado com todas as tentativas, judiciais ou políticas, de anular seus contrários é justamente o público médio, aberto para formar sua própria opinião, capaz de reconhecer as tentativas de manipulação e consciente dos efeitos terríveis da censura. No fundo é isso, precisamos proteger os isentões. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Noticiário internacional sobre o Brazilian Car Wash

Quando eu era um jovem repórter, cheio de ideais, sonhos de mudança e virtudes - fui assim por uns 15 dias, acho -, ouvi um medalhão do jornalismo internacional dizer o seguinte: "É preciso olhar o mundo e o noticiário internacional pela perspectiva de um brasileiro comum". Nunca tinha entendido direito isso. Primeiro, não sabia como era olhar para qualquer coisa sem a perspectiva de um brasileiro. Sinto-me o cara mais comum do mundo, ora. Não entendia como algum repórter, sendo ele brasileiro, não seria outro comum. Ainda, não me parecia fazer muito sentindo olhar para qualquer coisa sem ser influenciado pelo tom com o qual ela chega aos meus ouvidos ou olhos. Por muitos anos, isso me pareceu mais um daqueles mitos jornalísticos tão mal vendidos quanto a ideia de que "o jornalismo deve ser imparcial". Sério que alguém algum dia acreditou nisso e outras pessoas ainda acreditam?

Enfim, o tempo passou e eu tinha muitas outras coisas com as quais me preocupar.

Esse tempo aqui na Europa me fez ter contato violento com o noticiário das mais diversas fontes e vertentes políticas, especialmente impresso e radiofônico, tanto por gosto pessoal quanto por motivo de tempo. Pois como o pessoal deve ter notado aí no Brasil também, o noticiário em torno da nossa política nacional se intensificou muito e ficou concentrado basicamente em um único assunto na última semana: a mais recente fase da chamada operação Lava Jato. Inevitavelmente, desde a condução coercitiva do ex-presidente Lula para um depoimento à Polícia Federal, os gringos voltaram a luneta de Colombo do seu noticiário internacional para o lado sul do Atlântico. Mesmo colonizadores, eles não fazem a menor ideia do tipo de repercussão que isso pode ter para o Brasil do ponto de vista da política internacional, diplomática ou econômica. Estão tão ou mais perdidos que a gente.

Muito mais importante do que entender o que os gringos estão falando a respeito do conteúdo desse noticiário me parece prestar atenção ao que eles não têm dito. Não se fala em “golpe”. Também não se fala em nada envolvendo as outras fazes da Lava Jato, coisa confusa aí no Brasil, imagina onde o espaço para essas informações é ainda mais restrito. A própria operação Lava Jato não tem esse nome para o noticiário internacional. Na maioria das vezes, o texto é superficial e explicar um nome tão complicado não convém. Excluindo as exceções, os gringos chamam apenas de "escândalo de corrupção da "oil company Petrobras". Isso parece uma detalhe em meio a outros, mas mostra como tentar emplacar bandeiras artificiais, não serve para tudo. Nem tudo é como o caso Watergate, ou como a operação Mãos Limpas, nem sempre esses slogans colam. Alguns veículos de comunicação tentaram, no começo, batizar a força tarefa do nosso "FBI" de Car Wash. Achei divertido. Não colou no ouvido de ninguém.

O noticiário internacional deve estar muito mais focado na ordem na qual os fatos acontecem do que em escabrosidades declaracionistas como depoimentos, entrevistas e delações premiadas. Quem sabe isso seja uma regra para qualquer noticiário, em qualquer situação? Não sei. E não tenho como pensar sobre isso, agora. O fato inevitável é que o Brasil chamou a atenção do mundo porque um ex-presidente está sendo investigado por, supostamente, ter recebido a reforma de um apartamento de uma empresa que presta serviço para uma das maiores empresas públicas do mundo, a maior petroleira da América Latina. Lavagem de dinheiro e suborno são as acusações do momento. E são elas que devem ter destaque. A partir disso, tudo é um sucessão de fatos em direção ao futuro - que se torna passado cada vez numa velocidade mais frenética, graças a internet. Não há retrospectiva apontando para governos anteriores, muito menos uma retrospectiva até 1964, como se tenta fazer frequentemente no Brasil.

É claro que o maior esquema de corrupção da nossa história deve exigir justamente de nós a discussão a respeito dos seus detalhes. Contudo, essa discussão invade o noticiário político nacional e os analistas políticos locais ficam atordoados com o tsunami de quinquilharias das redes sociais. Correm para todos os lados e apontam para todas as direções. Essa reverberada facebuquiana não existe entre com os gringos; pelo menos não, com algum impacto influente.

Um dos momentos mais significativos a respeito do que vem acontecendo no Brasil foi justamente a tentativa do governo de nomear Lula ministro. Foi confuso para os jornalistas daqui também. Afinal, é muito difícil você explicar que uma Chefe de Estado está dando poderes de ministro para um colega de partido para que ele tenha "foro privilegiado" ou foro por prerrogativa de função, como alguns preferem. Isso não tem som algum em outra língua; muito menos em outro raciocínio político! Como explicar o que é "foro privilegiado", onde isso parece um absurdo vindo de outro planeta? The Guardian tentou: "re-entry into politics would shield Luiz Inácio Lula da Silva from some levels of prosecution over alleged kickbacks and money laundering". Osso duro, né? Esse mesmo absurdo, deveria estar invadindo nossos olhos e ouvidos há um bom tempo.

As manifestações foram narradas como pró e contra o governo. É isso que cada uma delas foi. A panfletagem revestida com gritos de "golpe" é o pedido de renúncia de uma presidente que nomeia alguém investigado em um esquema de corrupção. O "mortadelaço" é o apoio de um determinado segmento da sociedade à manutenção da mandatária do executivo. Só isso. Nada mais. Fala-se de coisas especificas, singulares entre si. Não existe uma lista de instituições golpistas. Não existe um grupo neo-comunista tentando tomar o poder no Brasil a força de forma indefinida.

A poeira sempre baixa mais rápido onde ela chegou mais longe. O noticiários internacional tem muito desse fenômeno estranho: aquilo que foi manchete de primeira-página ontem; hoje, não chega a chama de roda-pé. Se há confronto de manifestantes aí no Brasil, nas redes sociais ou nas ruas, a culpa não é dos grupos exaltados, é da nossa falta de competência para administrar todos os problemas de educação e segurança pública. Não esperem que essas coisas façam eco longe de nós. Nossa gritaria é isolada. Não haverá uma Primavera Árabe no outono brasileiro, sem que nós a façamos. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Diário de Londres - Museus

Hoje vou falar de um assunto muito divertido para gente velha e chata, tipo eu: museus. É museus. Aquele lugar onde a gente guarda a parte da nossa história que vale a pena ser contada, e onde a gente melhora aquilo que não deve ser contado para que possa ser contado do jeito que mais nos interessa. Também é o lugar onde a gente guarda aquilo que não deveria ter existido, para que nunca mais se repita. Aquele lugar lindo, onde um povo, não se preocupa com os seus fatos e se dedica a expor suas verdades a respeito do seu jeito de ver o mundo! Arrisco dizer que os museus só competem com as bibliotecas em termos de importância para a história da humanidade.

Londres é farta em museus de todo tipo. Fui em vários, mas ainda tenho uma listinha boa para percorrer. Já adianto: esse não é o tipo de coisa que você pode fazer sem calma, paciência e uma boa dose de sorte.

Não fiz essa lista pensando em turistas. Então, se você é um turista, desista. Procure um aqueles guias que vendem nas corner shops dos indianos. Nada contra os indianos. O problema sempre são os turistas.

Começarei pelo óbvio e encerro com os meus museus preferidos.

British Museum

Essa é uma das maiores referências quando o assunto é museus no mundo. O British é uma junção de tudo que a Inglaterra conquistou, ganhou e saqueou ao longo da sua história. É um museu que requer pelo menos umas boas quatro horas de caminhada. Há galerias maravilhosas, mas praticamente não existe uma curadoria cronológica. Muitas das salas são compostas por temas geográficos genéricos. Índia, Egito, Grécia, Império Romano etc. Claro que vale a pena ser visitado, mas não espere muito, não. É muito turista chines vindo ver algo do Império Mongol e algumas galerias são muito apertadas para receber tanta gente, especialmente, a egípcia. Turista, em geral, tem um fascínio por múmias. Deve ser alguma identificação pessoal.

Entrada franca.
Tem áudio guia para alugar.

Petrie Museum of Egyptian Archaeology

Esse sim é um museu sobre o Egito antigo! Fica dentro de UCL, uma das maiores universidades de Londres e com um dos maiores departamentos de arqueologia do mundo. Existe um conjunto de peças muito bem preservadas, mas o foco não fica nos sarcófagos. Realmente, vale a pena ir ver. E tem um calendário de eventos legalzão, com várias atividades para o público conhecer melhor o museu. Fica pertinho do British Museum. Pesquise no google maps. 

(Não fiz foto)

Entrada franca (não seja cuzão e deixe algumas moedas de doação).
Sem áudio guia, mas com um mapinha explicativo.

British Library

Sim. Tem um museu dentro da British Library onde são expostas publicações raras de autores importantes da literatura inglesa. Virginia Woolf, Sir Conan Doyle, Charles Dickens, Lewis Carroll são nomes que lá estão. Também há partituras originais de Beethoven e muita coisa legal. Eu sei que parece chato ficar olhando para livros velhos e papeis, mas, por favor, o lugar preserva a Magna Carta de 1215! Tem cartas trocadas entre o rei Henry VIII e Anne Boleyn! Bilhetes de padaria do John Locke. Qualquer um com mais de dois neurônios quer ver essas coisas. Além disso, o museu tem lá sua interatividade, com narrações das rádios da BBC de livros clássicos. Também tem um lugar imenso só para que gosta de filatelia e mumismática. Eu acho interessante. Também há exposições itinerantes. Ano passado, foi todo dedicado a Magna Carta e Alice no País das Maravilhas. A lojinha tem temas que vão se alterando de acordo com o que vai sendo comemorado. Bem legal. 

Não paga nada para entrar, mas a lojinha é bem cara para quem gosta de coizinhas personalizadas. 
Sem áudio guia, mas seria inútil. 

Museum of London

A melhor curadoria de um museu que eu já vi na minha vida. O prédio mais moderno. Esse lugar é fora de qualquer coisa que pode ser pensado por uma mente do terceiro mundo. Mantido pela cidade de Londres, o Museum of London fica próximo da St. Paul Cathedral, em Barbican. Você pode visitar em ordem cronológica tanto num sentido quanto no outro. Parte do princípio de remontar cenas da cidade. Desde a pré-história até os jogos Olímpicos de 2012. O ponto alto do museu é o período do Império Romano. O prédio é moderno e foi construído ao lado do chamado London Wall, um conjunto de muros erguido quando os romanos ainda mandavam por aqui. Abriam uma janela que dá uma visão panorâmica dos muros. É genial e detalhista. O museu parte do princípio de misturar coisas montadas com peças originais de escavações. Uma boas três horas muito bem investidas da sua vida. 

Entrada franca (tem a melhor lojinha de museus de Londres. Não seja pão duro e compre algo que custe mais de £10 e não foi feito na China)
Tem áudio guia. É tão bem curado que não precisa nem de mapinha. 

Churchill War Rooms

Esse é um dos museus do conjunto de Imperial War Museums. Trata-se de um bunker de guerra de verdade montado para administração do gabinete de guerra de Winston Churchill, o maior líder político da primeira metade do século XX. Sem exageros: serve para ter uma aula de civilização bélica. Churchill mandou a escavação ser construída embaixo de um prédio público em frente ao St. James's Park, exatamente no lado oposto ao Palácio de Buckingham e próximo da casa oficial do primeiro ministro, 10 Downing Street. Detalhes, detalhes e detalhes. Desde o museu dedicado a vida do Churchill, passando pelas salas de transmissão da BBC, sala de mapas, gabinete de reuniões, dormitórios dos homens do gabinete de guerra, quarto da mulher do Churchill e o quarto onde ele dormiu menos de três vezes, mas fez discursos ao vivo transmitidos pela rádio. Curadoria precisa e muito cuidado na preservação do banker. É possível ver a estrutura de aço que protege o local de bombardeios, cozinha, tudo. A história da segunda guerra passou por ali e quando a guerra acabou o local foi fechado e só reaberto depois da morte do Churchill. Os britânicos nos ensinam uma coisa genial: vai civilizar a humanidade quem nos convencer da melhor história. 

Paga para entrar. Pesquise os preços atualizados no site. Estudante tem desconto. 
Áudio guia incluído no valor do ingresso. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Diário de Londres - Como o transporte público deveria funcionar

Tenho acompanhado a nova onda de protestos a respeito do transporte público de São Paulo sem dar muita importância. Sou a favor dos manifestantes quebrando tudo e também sou a favor da polícia baixando o sarrafo. Sem sangue, suor e lágrimas não existe liberdade. Não chegamos ao nível da liberdade, ainda. As nações que já chegaram lá aderem rapidamente ao lema da "eterna vigilância". Nós ainda não estamos em condições de vigiar nada.

Sobre o transporte público, tudo que posso narrar é minha experiência com o uso do mecanismo aqui no cotidiano de Londres e em algumas [poucas] viagens curtas que tenho feito. Realmente, é algo público e que funciona para todos e em serviço de todos. O nome da agência controladora diz muitos sobre o objetivo do transporte público TfL, Transport for London. Não é transporte "de" Londres. É "para" Londres. Londres é tratada como um gênero, uma pessoa, mas nunca como um mero lugar no mundo. Parece um detalhes abobado, mas é a forma de ver a coisa. E isso faz toda a diferença. 

A maioria das pessoas no Brasil acha que o problema do transporte público recai sobre dois fatores que se opõem: "quanto" é cobrado e "como" o serviço é oferecido. São as referências financeiras e de qualidade. Eu posso afirmar categoricamente que a forma do brasileiro interpretar isso não está só errada, mas está completamente invertida. Essa interpretação favorece apenas quem detém a concessão do sistema e o duelo idiota por oferecer um serviço cada vez pior, aumentando os preços sempre que possível não termina nunca. 

A forma correta de se enxergar a coisa é "como" se cobra e "quanto" se oferece. Exatamente, o contrário. Simples, mas difícil para o raciocínio latino-americano-subdesenvolvido-médio, ou seja, a maioria dos brasileiros, desde o empresário capitalista dono da concessão, até os militantes do Catraca Livre, um grupo de primatas tão limitado quanto o primeiro. 

Qualquer sistema de transporte que não sobreviva de um raciocínio medieval precisa compreender a diferença entre consumidor e usuário. É completamente insólito imaginar que o trabalhador que precisa todo dia se deslocar entre determinado trecho desembolse o mesmíssimo valor que um turista eventual, ou alguém que simplesmente chegou a uma cidade para participar de um evento passageiro, ficar ali por por uma semana ou dias de trabalho ou negócios. Um sistema de transporte com uma cobrança justa precisa pensar em detalhes que o cérebro brasileiro não atinge, porque justiça envolve complexidade. Caso você queira saber quanto custa para andar de trem ou ônibus em Londres, aqui está a lista, mas já adianto: não há uma resposta objetiva. Cada caso é um caso diferente tratado com a especificidade que merece. É complexo e justo. 

Outro elemento central é "quanto" de transporte público é oferecido. Essa pergunta é, mais fundamentalmente ligada à qualidade do serviço, atinge a regularidade da oferta e, principalmente, a ampliação permanente de linhas, pontos de coleta e terminais, sempre que surge a necessidade de aumentar a oferta para atender a demanda crescente. 

Na cobertura disso tudo, existe um elemento secundário que muitos idiotas da esquerda transforam em elemento principal: o administrador do sistema deve ser uma empresa pública ou privada? A resposta é auto-evidente, mas vou escrever para que não reste dúvidas: tanto faz. Isso. Se o serviço for de qualidade e por um preço justo, podem montar até uma cooperativa de analfabetos funcionais, pouco importa quem vai administrar as linhas de concessão, contanto que o controle da cobrança e a regulação do setor seja completamente transparente. Aqui em Londres, quem administra, como eu disse, é a TfL, mas a maioria das linhas são privatizadas para empresas que estão sob o controle público e recebem da agência para prestar o serviço. Atrasos, descontinuidade, acidentes, tudo isso gera multa. Falar em multa é falar de dinheiro que não cairá, no futuro (sempre no futuro!), na conta do fornecedor do serviço. Nenhuma dessas coisas, está desligada do que eu apontei como quantidade. É inconcebível que o concedido coloque as mãos no dinheiro, sem a intermediação da agência controladora. Primeiro se presta o serviço, depois se recebe, caso esteja tudo nos eixos. Inverter isso, como acontece no Brasil, é burrice. 

Mesmo os elementos que parecem dizer respeito ao conforto, são simplesmente quantitativos, como é o caso de paradas em boas condições, estações preparadas para atender a superlotação e mesmo a existência ou não de climatização, tanto nos veículos quanto nos pontos de concentração e espera de passageiros. A logística do sistema  também é outra refém do fator quantitativo/valorativo.

Bonus track

Eu sinto uma profunda vergonha de saber que sou cidadão de um país onde existe a figura do "cobrador de ônibus". Isso é vexatório! O simples fato da existência desse personagem depõe muito contra o sistema ao qual estamos submetidos no Brasil. E informa o tipo de cultura política e pública que temos. É inconcebível que seja necessário empregar esforço humano para uma tarefa mecânica. Realmente, qualquer um que não pertença ao Catraca Livre ou ao grupo de concessionários precisa ficar indignado com isso. Se cair de quatro na grama, essa gentalha sai pastando.

Qual a melhor maneira de gerar renda, riqueza e LUCRAR com o transporte público? Com ampliação da necessidade de uso do sistema! Mais: com as obras que essa ampliação geraria e com o incentivo permanente para que novos usuários se insiram ao sistema. Só para citar o exemplo de Porto Alegre, no ano passado, o número de passageiros de ônibus caiu. Vem caindo e vai cair cada dia mais. O indivíduo vai para o caderno, faz as contas e vê que dá na mesma enfrentar o trânsito. A lógica econômica não tem piedade da burrice. A economia não se preocupa com natureza por conta própria, seus estúpidos! Se os atrasos são equivalentes e tudo inflaciona ao mesmo tempo, combustível e passagem, vamos de carro.

Não existe uma solução mágica para resolver o problema do transporte público no Brasil, mas uma delas é bastante prática ou serve, ao menos, como ponto de partida: a extinção da legislação absurda que trata o vale-transporte como um "direito" do trabalhador. Essa aberração jurídica com todas as características assistencialistas não só agride o raciocínio econômico, onerando o setor produtivo, mas também prejudica o trabalhador, que vê sua renda ser defasada para se transformar em lucro para a empresa concedida de transporte público local. É uma aberração completa e em todos os sentidos. O salário é desvalorizado em troca de um poder de barganha ridículo que tira do trabalhador o poder de optar pela melhor condição para se deslocar para seu local de trabalho, seja de carro, de bicicleta ou fazendo cooper, como muito vejo aqui em Londres.

Querem resolver o problema? Resolvam com sangue, suor e lágrimas. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Londres é bom se você for rico e/ou feliz

Eu estava procurando uma festa ou algo do gênero na internet para não ficar em casa bêbado e depressivo na virada do ano aqui em Londres. Encontrei algumas coisas legais num sites, outras em outro. Até que descobri uma festa dentro de um barco ao longo do Thames River. E isso me lembrou que Londres é como Paris, que por sua vez é como São Paulo, sucessivamente, igual a Porto Alegre e Santa Rosa, onde passei minha infância, no interior do Rio Grande do Sul.

A festa custa algo em torno de £240. Isso é muito dinheiro, é grana pácaraio para se gastar em uma noite de ano novo. O que quero dizer com isso é o seguinte: qualquer lugar pode ser melhor do que outro, contanto que você seja rico. Mas rico mesmo. Aqui em Londres, você pode ver lojas da Ferrari, Mclaren e Aston Martin. Isso só para citar o mercado de carros de luxo. Se você gosta de relógios, tem Patek Philippe de £8mil também. Bolsa da Louis Vuitton por £800, na promoção, também tem. Tem tudo.

Existe uma confusão moral entre causa e efeito quando você se depara constantemente com o mercado da altíssima roda social. E o público normal, o popular telespectador do Jornal Nacional ou militante do DCE, não entende o que está acontecendo e acaba, sem pensar, abominando essas coisas. Eles empregam ódio aos consumidores desses produtos e, pior, julgam-os como imorais e irresponsáveis. Pois tenho uma notícia para vocês: quem faz isso é burro. E vou tentar explicar de um jeito simples, afinal, sou lido por burros também.

O carro 1.0 que a classe média baixa usa no Brasil tem sua tecnologia, desempenho de combustível, conforto e todo o resto diretamente dependente da pesquisa aerodinâmica empregada em uma Ferrari Spider e num Porsche Cayenne. Todo esse investimento é pago exclusivamente pelos consumidores que gastaram muito para ver esses veículos serem projetados contrariando completamente todas as leis logísticas e administrativas do modelo fordista de produção industrial.

Não bastasse esse elemento empírico, ainda há a barreria da falácia naturalista, também conhecida com dicotomia fato-valor, ultrapassada pelos "de espírito crítico" que se julgam preocupados com a "responsabilidade social". Funciona de um jeito mais simples ainda, ao mesmo, tempo mais abstrato: ninguém é moralmente responsável por um dano que não produziu. Se a mulher quiser gastar £1000 comprando uma bolsa na Oxford St., possui esse valor de forma honesta, nada pode ser feito contra ela, inclusive, está isenta de qualquer tipo de julgamento moral porque o fato dela ter gasto esse recurso em uma mísera bolsa não contém nenhum valor moral envolvido. (por isso, se chama dicotomia fato-valor) As pessoas pegam fatos no mundo empírico e insistem e dar valor moral para eles. O público leigo não sabe o que está fazendo e faz isso o tempo todo. Trata-se do mesmíssimo raciocínio utilizado para julgar alguém por seu comportamento sexual ou coisa que o valha.

A mulher que gasta seu dinheiro com uma bolsa não é obrigada a tratar de famintos da Somália. É duro ler isso, porque a maldita verdade nunca vem enfeitada em coroa de flores e fazendo uma performance teatral artística dadaísta.

Votamos à festa VIP no Thames com seus 600 convidados, cada um gastando £240. As coisas envolvidas nesse preço dizem respeito a muitos fatores: a segurança de uma festa dentro de um barco que não pode estar superlotado de gente - como estaria no Brasil; a qualidade da bebida que será servida; funcionários; decoração etc etc. Tudo para ver fogos de artifício do mesmo modo que o mais popular dos londrinos verá na margem norte do rio, gastando só o preço do transporte público e uma cidra de £2. Existe, ainda, o fator mais caro envolvido: a exclusividade daquilo que está sendo oferecido. Esse fator é idêntico, desde um carro da Lotus de £100mil até a festa no rio. Trata-se de um elemento intransferível. O cidadão que entra dentro de uma loja da Rolex para comprar um relógio de £10mil está fazendo isso por UMA das 300 peças - ou menos - produzidas no mundo todo. A qualidade do produto na qual ele está confiando depende desse dado ligado a exclusividade e a artesanalidade desse mercado tão específico e a confiança que a tal marca, Rolex, conquistou. Se ele quisesse, simplesmente, ver que horas são, ele entraria no site da Submarino e pagaria R$110 por um Casio resistente à água, coisa que eu fiz.

Se não houvesse mais nenhum motivo no mundo para convencer as pessoas de que não se pode julgar moralmente alguém em virtude de quanto dinheiro esse infeliz tem na conta bancária e a forma como ele emprega seus recursos eu usaria apenas esse: deixe de ser um cuzão cagador de regras. Cuide da sua vida, das suas responsabilidades e não perturbe a beleza alheia. Você não passa de um invejoso, alguém que, em situação igual, faria coisas muito piores. Afinal, teu caráter já te denunciou.

Encerro com o motivo pelo qual Londres não é uma cidade especial: qualquer lugar é melhor que outro se você é rico, bem resolvido consigo mesmo e/ou feliz. Essas coisas não mantêm nenhuma relação uma com a outra.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Diário de Londres - Short-term Sun

Não gosto de escrever quando tem assuntos demais, porque acabo sem assunto nenhum. Não vou comentar nada sobre os atuais problemas políticos Brasileiro, afinal ele não têm nada de atuais. Estão se arrastando desde o golpe de proclamação da república.

Aqui na Inglaterra a vida segue seu curso de um jeito cada vez mais cafeinado. A polícia vinha tratando um ataque a faca na estação de metro Leytonstone como terrorismo, as inundações no oeste da ilha ficam te lembram que Londres parece ser maior que o Reino Unido, porque aqui tudo é mais seguro e organizado. E também o abobado do Donald Trump falando coisas absurdas sobre não permitir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos. Só para vocês terem uma ideia de como andam as relações internacionais nesse mundo doidão: hoje a House of Commons estava batendo boca se coloca ou não o Trump numa lista de personas non gratas do Reino Unido, como "retalhação".

Uma das maiores dificuldades que tenho enfrentado aqui é o escasso período de sol. No inverno, o astro mostra as fuças lá pelas sete horas da manhã e se despede às 16h.

Minha adaptação não tem isso tem sido difícil porque sou um cara que gosta muito de trabalhar durante as manhãs, tomo banho, bebo um café e caminho até a universidade. Fico lá das 8h45 até por volta das 13h30 ou 14h, quando a fome volta e me me expulsa das atividades. Fico superfeliz quando tem algum evento, geralmente, marcado para as 12h30. Sim. Como a universidade britânica é praticamente inteiramente diurna, os britânicos adoram marcar coisas de trabalho para a hora do almoço. Às vezes, as pessoas chegam para grupos de estudos, abrem uma marmita e começam a comer ali na frente dos outros. No começo eu achava estranho, mas agora já estou acostumado.

Diferente de mim, eles não gostam de comer muito de meio dia, não. Ficam no sanduichinho ou na batata assada com queiro e feijão, comidas que fazem sucesso na cantina da universidade e é bom pácaramba essa batata. Também tem uns caras hare-krishna-gente-fina que servem comida de graça para os estudantes no pátio da universidade. Sério. É bonzão. Mas a fila geralmente é gigante e, quando já esta menor, a comida esfriou. Geralmente é arroz, batata e pão. Tempero bom demais. Acho o máximo esse negócio de tentar provar que o lema "there is not free lunch" está errado. Mesmo não estando errado.

O grande problema é que quando resolvo tirar a minha siesta depois do almoço, não sobra mais dia algum para se ver lá fora. Os parques e praças são fechados por motivos de segurança e tem uma noite longa pela frente. Aproveito para ir no mercado. Passear pelas estações centenárias de trem e escrever alguns postais. Depois, meto um wiskey na cabeça e vou dormir molinho. O outro dia começa cedo e termina cedo também. Às 17horas é darkzão. Isso faz com que as noites sejam longas e vá bebida nos pubs para não ficar louco ou, pelo menos, substituir a loucura pela embriaguez, ideia que tem feito cada vez mais sentido na minha cabeça.