quinta-feira, 6 de junho de 2019

Na esteira dos idiotas úteis

O bolsonarista de segundo turno (que nem o título de bolsonarista merece, pobre coitado!) foi o primeiro a desembarcar. Como ele é considerado pelo governo um eleitor de ocasião, pode ser visto como 'idiota útil'. Numericamente, será deles que o mandatário do cargo de presidente da república vai precisar para continuar. A tentativa [travestida de estratégia] do governo é de criminalizar a política feita no Congresso, mas com o material empírico criminoso vem da milícia montada na própria famiglia de nada serve. Outro elemento que prejudica a cartilha montada de ataque ao legislativo é o sobrevoo do olhar que naturalizou a "renovação", com o PSL passando de UM para 52 deputados. Criminalizar a velha política fazendo parte dela não é agora só um número abstrato de quase 30 anos mamando nas tetas dos cofres públicos, é a institucionalização da incompetência como vitrine eleitoral. Nada disso dá votos, mesmo que a campanha ainda não tenha terminado.

Em meio a isso, o pouco que se faz com o poder da caneta é insólito: decretos que não vingam, liberações que nada liberam (cadeirinha de bebês, pela alma da burrice! Quando diabos um chefe de deveria estar preocupado com isso?!) Bolsonaro reina para o último círculo de abobados, mas não governa para ninguém. E, na falta de governo, sobra espaço para o norma da velha política. A compra de uma frota de carros passando dos R$ 7 milhões para transportar milicianos e idiotas úteis da família real faz mais contra Bolsonaro em uma única canetada do que faz o maior número de decretos esdrúxulos e das tentativas de governar legislando desde Collor. O governo ainda tem o apoio da mídia tradicional e ordeira, que gosta de ver novelas globais e faz campanha pela reforma de Guedes. Com o fracasso das reformas, especialmente a previdenciária, sobre a qual o próprio presidente mostra nada entender, nada sobrará para a queda. A reforma na mão do Congresso é a certeza de que privilégios não vão ser combatidos e, nem pra disfarçar que gostaria de ver privilégios combatidos, esse governo serve. O resultado será sangue, suor e as lágrimas dos idiotas úteis. Afinal, nenhuma agenda do governo é daquelas que dá votos e 57milhões de idiotas úteis não é quase nada para 2022. A ignorância é um método eleitoral eficiente para se chegar ao poder em um país de ignorantes, mas não para se manter lá.

sábado, 16 de março de 2019

O pior tipo e proselitismo


Como a maior parte das coisas na história do pensamento humano, o proselitismo encontra uma diferença de graus e não de eespécie Por certo, existe proselitismo de qualidade. Hobbes e Rousseau, patriarcas do contratualismo, foram proselitistas, tentaram vender ideias morais disfarçadas de conteúdo político abstrato. Não é para eles que empregamos o termo proselitismo no sentido mais usual. O prosélitos que tratamos como problema é um ato catequético. É o esforço sistemático de distribuir conteúdo moral sem relações causais imediatas em absolutamente qualquer evento, político ou não. 


Resultado de imagem para suzanoAs redes sociais instalaram um novo nível de proselitismo, o meme. O meme inibe o constrangimento que teríamos em tornar uma ideia proselitista verbo. Meme, fundamentalmente, não é verbo nem palavra, muito menos ideia. Ele é a expressão de um conteúdo catequético e sentimental, tendo como base fundante a oportunidade. As oportunidades surgem dos mais diferentes modos, políticos ou não. Quando oito crianças são mortas em uma escola no interior, a oportunidade para o proselitismo está armada e o proselitista não tem freio moral para distribuir seu conteúdo insensível e irracional: ele profere e distribui xilogravura de feira sobre o caixão e a dor alheia, sem pudor, pois essa é a principal característica de um proselitista.

Quando major Olímpio, um político sem freio moral ou integridade intelectual, sugere que os professores deveriam estar armados nas escolas, em um país onde o preço de uma arma é duas ou três vezes maior do que o salário de um professor; quando a esquerda sugere que devemos banir o registro de armas do país, para evitar crimes cometidos por armas buscadas no contrabando e na ilegalidade, enterramos nosso debate em torno de qualquer assunto, desrespeitamos a dor dos familiares envolvidos e mostramos que não temos condições de administrar nosso próprio futuro. Estamos na escala argumentativa política mais baixa, a do proselitismo.

Para nosso debate político ser pobre, ele precisa ganhar na loteria da falta de nexo causal.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Nixon vs. Bolsonaro


Resultado de imagem para frank langella oliver plattUma das cenas mais emblemáticas do filme Frost vs. Nixon é quando o ator que interpreta o único presidente americano na história a renunciar, Frank Langella, cumprimenta os jornalistas Bob Zelnick e James Reston Jr., interpretados por Oliver Platt e Sam Rockwell. Ambos são ferrenhos adversários intelectuais e políticos de Nixon, responsáveis por um número massivo de publicações e até um livro emblemático a respeito do caso Watergate, material altamente incriminatório sobre a participação de Nixon na compra de influência que levou a sua renúncia. O ex-presidente jamais havia admitido sua participação no caso. A entrevista o fez admitir.

Dado os spoilers, não do filme, mas da história, seguimos.

Zelnick e Reston Jr. acabaram nutrindo um ódio feroz pela figura de Nixon. Os jornalistas representam homens do jornalismo investigativo vigoroso que o USA tinha na década de 70, autoridades no caso Watergate e foram contratados pelo apresentador de TV David Frost, interpretado por Michael Sheen, para ajuda-lo na entrevista que levaria Nixon a admitir seus crimes. Confiantes pela sua credibilidade, conhecimento político e sabendo até o número de sapato da mãe de Nixon, eles foram apresentados ao ex-presidente horas antes da entrevista e, pasmem, estremeceram ao primeiro contato. O que Nixon fez para deixar os dois algoses sem palavras? Nada. Nixon representava o poder político de Maquiavel, mesmo fora da presidência. Reston Jr. jamais havia visto Nixon pessoalmente antes e estremeceu ao primeiro contato. Os relatos que levaram à produção do filme dizem que Nixon estendeu a mão se dizendo ansioso para conhecer Reston Jr., mas o jornalista só conseguiu dizer "mister president" e esse foi o fim do primeiro contato.

O poder gera um tipo intimidador de respeito. Isso é parte fundamental da tese maquiavélica de que é preferido ser temido do que amado, caso não se possa ser temido e amado ao mesmo tempo. Dilma foi uma presidente histérica, gritona, desorganizada e sem o menor respeito por si mesma e seus assessores. Falta de elegância que não combina nada com poder político. O resultado foi o impeachment. Temer, quando presidente do Senado, havia sido um homem poderoso. Esse poder foi diluído e pulverizado dentro do PMDB para preparar a sua aposentadoria fora das grades. Terminou como um presidente sem absolutamente nada de poder político e, se tivesse mais um ano a frente do Palácio do Planalto, não lhe sobraria nem a dignidade mais basilar. Lula e Fernando Henrique foram os últimos presidentes politicamente poderosos que o Brasil teve. Foram as últimas figuras com habilidade política suficiente para estremecer seus algoses. A pergunta desse momento histórico confuso é: que tipo de poder político tem Bolsonaro?

Bolsonaro não tem poder político apenas pela falta de sua habilidade política. Trata-se também de uma masculinidade frágil e vulnerável a todo tipo de ataque público. Ele não perde tempo, inclusive, exigindo respeito público, como fazia Dilma, porque sabe muito bem que isso não é possível. Logo, o apoio de um tipo de idolatria que se identifica com suas fragilidades é seu porto seguro. Se você não se entusiasma com um patriotismo de ocasião, cada palavra de Bolsonaro tem o mais profundo som do medo. O resultado da falta de respeito vai ser um governo com o poder loteado para o congresso e o presidente não passará de um twitteiro oficial, como temos nos Estados Unidos de hoje, onde não se pode mais fazer nem a jardinagem da Casa Branca por falta de inteligência em pagar os salários dos funcionários e honrar contratos básicos.

Enquanto for assim, Bolsonaro representará o medo e a fragilidade de um país covarde, como ele. Com apoio cintilante da idiocracia lulista que o colocou no poder, ele é o melhor representante para este momento do Brasil. E as alterações que o mundo sofreu contra o poder político em geral, exigindo que governantes buscassem respeito por outros mecanismos alheios ao mero poder político sem intimidações, são tão significativas. Todos aqueles que lutarem contra o tal 'globalismo' não vão parecer de um bando de velhotas histéricas exigindo a proibição de chuva nos domingos de missa. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A profecia Dilma: todo mundo vai perder

Pela primeira vez, em uma eleição, eu tenho o direito de estar mais preocupado com quem perderá do que com quem vai governar o país. Afinal, ser bom perdedor não é uma característica dos fracassados. Nosso fracasso federalista é traduzido em rancor, ódio e 7x1.

Hoje, o PT tem uma máquina de movimentar o terror adormecida. Por certo, qualquer movimento dessa máquina, agora, só projeta perda de votos. CUT, MST, e outras frentes de amparo ao escárnio ficarão como estão, ao menos, por ora.

Em 2019, tudo pode mudar.

Resultado de imagem para nao importa quem vai ganhar ou perderJá os focos da organização terrorista em torno da seita Bolsonariana não são administráveis com emails e telefonemas. É uma organização terrorista desorganizada, mas qualquer permissividade estatal pode transformar ela no que hoje é exatamente a CUT, MST etc. No fundo, administrar esse prejuízo é a única coisa que está em jogo, enquanto o país irá a passos largos para o agravamento do buraco econômico e institucional.

Todo resto e conversa pra boi dormir. Nada se pode prover sobre economia, segurança pública, saúde ou educação. Estamos na campanha política da descampanha.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Quem movimentou a máquina de transferência de votos 17.1?

Para poder responder essa pergunta é preciso fazer de conta que Lula nunca existiu. Digo isso, porque é evidente que o presidente-presidiário foi o maior mecanismo de contra-transferência de capital político desta eleição. O eleitorado 17.1 é composto não só pelos religiosos conservadores, mas pelos frustrados sociais. O cara comprou um carro financiado e agora viu que precisa pagar o preço dele na gasolina, o assalto à Petrobrás pagou as primeiras parcelas do Fiat Palio, mas a conta veio depois. A pergunta que proponho é a seguinte: excluindo Lula, quem mais transferiu votos para 17.1? Na carta fria dos números, foi Marina Silva e Geraldo Alckmin. A primeira, disparado responsável pela maior transferência, faz parte de um projeto fracassado do laboratório petista de fazer política na base do erro e acerto. O segundo, sem a mesma ligação, foi incapaz de captar para si o sentimento anti-petista, um verdadeiro picolé de chuchu. Bolsonaro não é um resultado dos seus próprios acertos políticos, é um resultado do nosso fracasso. O PT apostou que um retorno às origem dos partido iria frear a alucinação coletiva. Pois, as origens do partido estão tão sepultadas que restou a pá de cal da arrogância. Sim. Um petista é capaz de jogar o país no caos pra provar que o caos existe.

Agora, como convencer um eleitor petista de que ele é responsável pela onda Boso? Não é possível fazer isso, porque a militância petista que restou - mesmo pulverizada - não é dada aos argumentos do empirismo. Eles preferem a dialético do erro e acerto. Ou é o "rouba, mas faz", disfarçado de "eles sempre roubaram". Ou são os slogans preparados em cartilha: "fascista", "nazista". O segundo caso é ponto de confronto com o ideário Bolsonaro, afinal, é a mesma lógica de discurso "petralhas", "esquerdopatas"; o primeiro, nem isso. Jamais o eleitor de uma seita compreenderá que a outra é imune a esses rótulos. Como eu disse, falta empirismo e sobra dialética.

A responsabilidade do atual estado das coisas está presa em Curitiba, mas sua metáfora não. A insistência no desmonte da democracia iniciou com o mensalão, o loteamento para o PMDB, passou pelo boi de piranha Dilma - lembra da ideia estapafúrdia de "constituinte exclusiva"? -, nos deu Temer e, agora, nos dará Bolsonaro. O eleitor petista não faz mea culpa sobre nada disso.

O PT, na sua troca de projeto de governo por projeto de poder, é diretamente responsável pela onda Boso. A tática do "inimigo de estado" funciona, portanto. Conseguiram, afinal, destruir o que havia restado da democracia representativa; apenas, não vai ser da forma que eles gostariam. Nosso atraso que estava calculado em 20 anos, agora precisa de mais quatro para ser recalculado. Bolsonaro fará o pior dos governos? Sem gerência política, experiência e capacidade de entender o Brasil: é muito provável. O PT voltaria na pior das suas faces? Sem a menor dúvida, e pelos mesmos motivos.

sábado, 29 de setembro de 2018

Escolher um presidente não tem nada a ver com isso

Nestas eleições, não se trata de escolher um presidente. Até porque temos coisas muito mais importantes acontecendo. A primeira delas é o fato do conjunto de candidatos apresentados pelos partidos expor o substrato de quem genuinamente somos: uma cambada de sociopatas, desprovida de toda e qualquer ideologia política, conservadora, progressista, esquerda e direita. Nada disso jamais pisou aqui, vivemos só a alucinação entre Russia e USA, como se tudo se resumisse a um filme de ação ruim.

Todos os Brasis estão ali, disponíveis nas urnas, e eles são terríveis, mas concorrem a alguma coisa, menos à presidência da República.

É assim a ponto de haver inclusive candidatos que eram presidenciáveis antes de serem candidatos de um partido; outros candidatos só são candidatos em virtude do partido que representam não ter a primeira alternativa disponível. Há também a excentricidade do PMDB estar representado pela, e primeira vez! O partido do fisiologismo resolveu mostrar um nome, mesmo sabendo que vai ser governo, aconteça o que acontecer, como sempre. O PMDB só governa porque não se elege. Se precisasse de voto para o Executivo, seria extinto.

No primeiro turno, o PMDB se viu obrigado a não saber quem apoiar, e isso é inédito. O PMDB tem um candidato porque não tem um cachorro disponível para encabeçar a chapa. Nem o PSDB! Nem o Podemos! Cada um correu atrás da sua versão de fisiologismo. É como se a lógica do "quero poder, não quero governo", instalada por Francisco de Assis Chateaubriand, fosse relutante pela primeira vez. Como sempre, o Brasil vai perder a oportunidade de tirar uma lição disso.

Não poderia haver uma eleição menos pemedebista do que uma eleição com um candidato do PMDB concorrendo. A ala evangélica fez sucesso com o homem meme. A tentativa de reeditar o caudilismo gaúcho veio do Ceará e, da floresta, o mesmo bichinho oportunista de sempre. Partidos foram mais locados do que nunca e a dificuldade para fechar as chapas em torno do nome dos vices mostrou que todo mundo está concorrendo para perder. Aliás, nunca antes na história dessa republiqueta foi tão barato locar um partido e tão caro subornar um político.

Não é possível que existam jornalistas que se orgulham de serem porta-vozes do caos, do escarnio e do absurdo. Cambada de ingênuos! Ou gazelas, buscando um holofote. Não se trata de eleger um presidente, mas de mostrar como ele é desnecessário, recolham-se a sua tolice.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Bolsonaro e Globo: a convergência dos imbecis


Quem assiste Jair Bolsonaro e bate palma está no mesmo nível intelectual das pessoas que passaram a ser fãs da Globo da noite pro dia. Na real, não tem nada certo acontecendo nesse engodo todo, mas aqui é assim: só idiota encontra ponto de diálogo com idiota. Para o nosso discurso político ser pobre, ele tem que ganhar na loteria.

Se vocês repararem, e se espremer bem espremidinho, vão ver que as ÚNICAS coisas que o Bolsonaro tem a favor dele é a Globo tentando ser progressista e a esquerda tentando ser esquerda. Esse é o teto dos 18% que o Enéas sempre teve. Não passa disso. Só serve para o circo, e que se lasque o pão.

Mas todo este circo, feito sob medida para rede social, não seria necessário seguindo uma regra básica do bom jornalismo e outra do jornalismo marrom, respectivamente: perseguir a imparcialidade não mata ninguém, só frustra; o melhor jeito de deixar um doido se enfocar é dando corda para ele falar. Fomos da convergência digital para a convergência dos imbecis, sem escala.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Diário de Macapá, dia 8

Passou uma semana que estou no extremo norte do Brasil, Macapá, selva amazônica. A cidade não foi feita para a floresta. Tudo que tenta ser urbano é estranho, errado, pouco civilizado por aqui. Vale para tudo mesmo: trânsito, saneamento, arborização, calçadas. Nada disso faz sentido no na garganta da floresta que serve de foz para o maior rio do mundo.

Esta minha mania de criar alterações drásticas na minha vida pode ter chegado ao limite do respeito e medo da amazônia. As coisas aqui não funcionam no ritmo que operam no sul. O Equador não é trópico. A sombra do paraíso é defendido pelo calor do inferno. As pessoas se envolvem nesse ritmo de tempo especial. Festa e música ruim têm prioridade. Só bêbado vale a pena viver debaixo desse sol. A primeira impressão, da madrugada no aeroporto, é de um conjunto de secadores de cabelo ligados nas suas costas. Nada intelectual, produtivo, bonito ou sensível pode ser produzido no meio do stress de tentar se defender do calor. Só dança brega e música ruim tem um sentido imperativo.

Nenhum racionalismo opera acima de 25 graus.

São os rescaldos de tentar construir uma cidade no meio da selva.

Apocalipse Temer, agosto de 2018.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Poste mijando em cachorro


Resultado de imagem para poste mijando em cachorrosA internet - mais especificamente, as redes sociais - nos ofereceram algo inédito, antes visto apenas em alguns filmes violentos, criados para chocar. É a estranha sensação de que um poste pode mijar em um cachorro.

O status quo dessa excentricidade envolve o fato de que chegaram nas plataformas digitais uma geração atrasada em absolutamente tudo, inclusive, na capacidade de fazer pesquisas elementares, na própria internet. Gente que nunca saberia usar um e-mail foi colocada diante de plataformas amigáveis através de smart phones. Tão smarts que, inclusive, oferecem ao proprietário a oportunidade de não precisar fazer absolutamente mais nada a não ser distribuir likes e o, cada vez mais popular, crazy share: a mania louca de não produzir nada, mas reproduzir tudo com um aval de concordância, no alto de suas vassouras.

Aliás, bom seria se houvesse vassouras por trás deste movimento de mentecaptos. Na média, a maioria não apenas está apenas na maldita média, mas nunca teve a dignidade de fazer coisas abaixo da média, e isso é realmente algo impressionante. É um povo sem nenhum talento para trabalhos manuais, gente que nunca cortou uma grama, mas se sente parte do mundo da natureza, porque fez uma "pós-ead em separação de lixo". Isso os transforma em entidades muito acima do gari e, eventualmente, os transforma em fiscais de toda dubiedade.

A média, graças às redes sociais, aprendeu o que é um ad hominem, mesmo que não tenha tido a capacidade de reconhecer a diferença entre uma premissa contraditória e uma contrária dentro do quadrado lógico aristotélico. O resultado é o que a gente está vendo: todo mundo se transformou em fiscal de cu. Duas gerações inteiras de óbvios e pueris que exige "coerência" de pessoas que eles sequer teria oportunidade de conhecer, não fossem as redes sociais.

Chegamos num momento excêntrico onde a grosseira pergunta "você sabe com que está falando?" se tornou algo imperativo, pois não se trata de alguém ser melhor que os outros, mas apenas ser melhor que um conjunto de indigentes que pensa estar acima da média quando não serve sequer para coisas abaixo da média. É o apogeu dos inúteis, onde todos são concurseiros ou criadores de memes. Orientações sobre a vida alheia são a regra e a falta de consistência para levar a própria vida com alguma dignidade é a consequência de uma população inteira sem formação, mas preocupada com a falta de oportunidades, incapaz de criar as suas.

Era isso, meritíssimo. 

domingo, 3 de junho de 2018

"Não tem corrupção no quartel"


Fui comprar umas coisas numa loja de caça e pesca do centro de Porto Alegre e notei uma movimentação diferente. Vários recrutas do Exército comprando a mesma coisa: um "kit para limpar EDC", segundo me informou um deles. Fiquei curioso e – intrometido que sou! – pedi para ver do que se tratava. Basicamente, uma latinha com alguns utensílios de limpeza, óleo, flanelas, escovas etc. Nada muito caro, nem muito barato. Coisas que poderiam estar na caixa de pesca de qualquer um. (tipo isso da foto)

Eles haviam recebido o soldo naquele mesmíssimo dia e precisavam se apresentar para instrução com aquela quinquilharia comprada no próximo dia de serviço.

A primeira e – óbvia! – pergunta que me fiz foi a seguinte: “por que diabos o Exército não fornece uma porcaria tão simples para eles?” Ignorei a primeira pergunta, porque não queria ficar dando voltas mentais. A segunda pergunta eu repassei para um dos recrutas: “onde tem pra vender esse kit?" "Só aqui", o moleque respondeu. Ou seja, no centro inteiro de Porto Alegre, só uma loja vende aquela latinha montada com aqueles utensílios. "Não dá pra comprar pela internet porque não chega a tempo de se apresentar de serviço na segunda", me explicou outro deles.

A minha história acabou.

Fiquem vocês com as conclusões sobre a idoneidade e lisura de um oficial do Exército que manda uma meia centena de recrutas comprar algo que só tem para vender em uma única loja no centro de Porto Alegre. Quem ganha o quê com isso?

Segundo uma meia dúzia de tias minhas, no feicibuqui, as Forças Armadas são um conjunto de instituições sérias e idôneas. Eu compreendo perfeitamente a frustração alheia. Compreendo a existência de debiloide pueril que acha que esse tipo de patriota é super-adequada para governar um país. O fato é que eles não conseguem ser honestos sequer entre eles mesmos. E só vai negar esse fato quem nunca pisou em um quartel. Eu desafio qualquer praça ou oficial temporário que tenha servido: venha me contar a história de um ano de atividade militar, sem JAMAIS ter presenciado uma ação flagrantemente corrupta!

Ouvir as pessoas falarem bocabertices como se estivessem se referindo ao exército da Nova Zelândia, Austrália ou Canadá não é apenas chocante, é constrangedor. Nossos regimentos, batalhões, bases aéreas e navais são comandadas por brasileiros e - pasmem! - estão cheias de brasileiros! Como vocês sabem, onde houver um único brasileiro sempre haverá roubo, escarnio e pilantragem. É o nosso DNA. Só servimos para contraexemplo. 

Boa semana a todos e SELVA! 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Pega fogo, cabaré!

Projetos nos quais eu ando envolvido:

Sem Gastar Papel e Tinta. Trata-se de uma live on line (com o perdão da redundância) colocada no ar, por ora, as terças-feiras com o objetivo de discutir temas com alguma liberdade. Curta a página e você pode acompanhar quando a gente entrar no ar. Fica hospedado no sitezinho do tio Zuck. Acesse, curta, acompanhe.

Tenho postado sistematicamente meus comentários semanais de rádio em um canal do Sound Cloud. Você pode ouvir, seguir, etc.

Também tenho estado muito ocupado com coisas de trabalho que rendem o pão de cada dia.

Desculpem pelo abandono deste blog.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Estado das coisas - atualizado para fevereiro de 2018

As forças armadas são irrelevantes para a segurança interna de uma nação? Se a resposta para essa pergunta fosse sim, nós, brasileiros, deveríamos avisar o USA para desativar a National Guard. O Reino Unido deveria aposentar definitivamente seu corpo de Home Guard e a França deveria recolher os militares que ainda patrulham áreas nefrálgicas suscetíveis aos ataques terroristas em todo seu território. Às favas com a Garde Nationale! A pergunta não deve ser tão ingênua.

A real demanda que não é respondida no Brasil é: por que não se faz segurança pública integrada com escalonamento de patrulhas para atender cenários específicos de forma preventiva e com o mínimo de estardalhaço possível? A resposta ninguém dá, mas eu aviso: não dá voto.
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A intervenção federal no Rio de Janeiro chega atrasada, errada e sem plano algum. Os militares não só não sabem o que fazer como estaríamos muito melhor atendidos se um corpo de fuzileiros da Rússia resolvesse testar seus parcos conhecimentos de geografia tropical no Morro da Tijuca.

O Rio havia dado passos largos e importantes com as Unidades de Polícia Pacificadora. Jamais tão largos a ponto de convencer alguém que UPP era sinônimo de paz como avisou o próprio secretário da época José Beltrame. O buraco de cidadania não foi superado e a iniciativa se tornou mais um capítulo do corrompido mecanismo de transformar policial bom em bandido ou vítima de bandido; e policial ruim e chefe de polícia em chefe de bandido. Tudo errado.

Quantas pessoas, civis e militares, vamos ver morrer para dar voto ao PMDB? A resposta para isso só vem no fim de 2018.

Que o vulgo pense que milico é alguma resposta isolada para qualquer pergunta que se imagine fazer, eu compreendo. Vulgo é vulgo. O despreparo técnico e material não são capazes de mostrar para o militante de militar o quê é, efetivamente, segurança pública. O vulgo não precisa se perguntar como chega no morro armamento contrabandeado de altíssimo poder de parada. Para o vulgo, pouco importa que aquilo está lá por incompetência do nosso patrulhamento no Oeste e por água e céus. É como se a irresponsabilidade militar latente das fronteiras tivesse como prêmio o controle institucional de um Estado sem controle. Premiamos a incompetência. Exatamente o contrário de meritocracia.

O caso em questão é que isso terminará por destruir o aparelho que deveria ser consertado desde dento. Não há inventário pré-intervenção. Não se saberá o que restará. Não se sabe contra quem é a genericamente chamada 'guerra contra o tráfico' e, mais uma vez, veremos bandidos serem substituídos para dar lugar a outros bandidos. Um desserviço, pois o serviço prestado beneficia outros bandidos e outras quadrilhas, especialmente o PMDB.

Apenas uma onda real de insegurança que atinja o poder central pode acalmar a insegurança das ruas. É preciso levar a guerra que eles fantasiam estarem lutando para dentro de assembleias e casas governamentais. Enquanto a insegurança não atingir governadores de estado, deputados e marajás, qualquer medida é algo com o qual e sem o qual tudo ficará tal e qual.

No mais, todo milico teve ter como chefe uma Rainha e se limitar àquilo que lhe é ensinado sobre geografia, logística e a dependência que devem ter da ração MRE que lhe é servida.

Sem mais, meritíssimo.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Fim dos 10 anos: desaniversário do blog

Nesse ano que passou, o Blog do Capeta completou 10 anos. Virou, nesse meio tempo, Blog do Maciel. Foi escrito de umas 20 cidades. Em cinco delas, morei por bastante tempo, incluindo, Londres e um período em Barcelona. Não dei bola para o evento de aniversário. Na real, a política editorial aqui mudou bastante. Era para ser um projeto coletivo, mas, como muita coisa na vida, caiu no meu colo. Era para ser noticioso, virou relato. Era para ser regional, virou mundial. Também estive sobremaneira ocupado com a finalização da minha tese de doutorado, nos últimos quatro anos. Gosto muito de publicar e escrever. Mas a vida acadêmica é contraprodutiva nesse sentido. Incrivelmente, contraprodutiva. Se eu voltar para a atividade de magistério, devo publicar mais. Se eu voltar para a atividade jornalística (deus-me-livre!), devo publicar mais ainda. Mas a ideia de ter um espaço para aleatoriedades nunca sairá de mim. Inclusive porque aquilo que funciona aqui jamais seria publicado por um periódico ou uma revista. Não por falta de periódico ou revista, mas por falta de leitores. Essas coisas já não existem mais. Claro que sinto saudade de ver meu nome impresso em papel com tinta, mas, gente, vocês não têm ideia do que era minha folha de pagamento naquela época.

Obrigado pela paciência de todos.

domingo, 19 de novembro de 2017

O dia em que o Silvio conheceu a Rainha

Já devo ter falado do Silvio pra vocês. Ele é um barbeiro de humor duvidoso que trabalha aqui na Cidade Baixa. Um dos passatempos preferidos do Sílvio é jogar areia no churrasco dos outros. Nunca vi tamanho talento reunido em uma só viv'alma para fazer todo mundo se sentir ruim. Basicamente, ele vê o lado negativo de tudo. Se você chegar ali contando que ganhou na loteria, a primeira coisa que ele vai lembrar é dos impostos que devem ser pagos; depois, da encheção de saco que deve ser ajudar os parentes desafortunados. Não que ele seja uma pessoa ruim. Só não vê graça nenhuma na vida. Se o Guga Kuerten, a pessoa mais feliz da Terra (praticamente um Labrador Retriever no corpo de um humano), for cortar o cabelo ali, sai deprimindo e com pensamentos suicidas. O Silvio não só é mal-humorado, ele acha um completo absurdo que as outras pessoas andem por aí saltitando de felicidade.

Então, um dia eu fui cortar o cabelo e, logo depois de cumprimentar o Sílvio e me sentar na cadeira, falei para ele que ficaria uns meses sem aparecer ali. Eu havia arrumado uma viagem para Londres para fazer um trabalho e ficaria um tempo por lá. "Putz... Europa! Tudo velho. Deve ser cheiro de mofo por todo lado", lascou o Silvio. "Pois é, mas tem bastante coisa pra ver: museus, bibliotecas. Além disso, Londres é uma das capitais mais famosas do mundo", remendei tentando manter o ânimo. "Bem capaz! Imagina só. Deve ser turistas chinês pra todo lado. Essa gente anda por tudo. Sei lá se ganham passagem do governo. E dizem que nem banho tomam. Soma isso com os europeus que não tomam banho mesmo, imagina só", retrucou ele.

Falei da família real, da história de lutas e revoluções, da importância do império britânico no desenho do mapa, mas nada agradava o Sílvio. Tudo era um problema: sustentar príncipe vagabundo, arrumar problema com o governo, "atentados terroristas". Enfim. Terminou meu corte e eu saí de lá pensando que estava indo para um cativeiro de sequestro no Complexo do Alemão. Mesmo assim, fui-me para Londres naquela semana, e voltei só quase um ano depois.

Uma das primeiras coisas que fiz quando voltei foi ir no Silvio cortar o cabelo. "Mas ah! O guri que foi cheirar as calcinhas mofadas da rainha voltou", disse ele me cumprimentando. "Pois é. E se eu te conto o que aconteceu lá, tu nem acreditas", informei com pompa, ganhando atenção dos outros que estavam por ali esperando pra cortar o cabelo. "Não me digas que conseguiu um chá com a velha, naquele muquifo lá onde ela mora?", perguntou o Silvio fazendo todos rirem. "O Palácio de Buckingham? Não", respondi. "Mas ela falou comigo sim. Estava indo para uma celebração e eu estava na frente do palácio". "Falou contigo? Não diga! Aposto que entrou no carro e nem deu bola pros bocós ali esperando pra ver ela", chacotou ele. "Pois, eu estava lá. E ela saiu do carro e caminhou na direção da multidão. Deixou de entrar no carro pra falar comigo. Caminhou na nossa direção - até me arrepio de lembrar. Ela veio em MINHA direção, em linha reta, sem parar. Dois seguranças atrás dela, mas ela veio", contei emocionado. "Dá onde!! E ela disse alguma coisa? Falou com você?", perguntou o barbeiro já curioso.

"Falou. Veio pro meu lado só pra falar comigo. Eu baixei a cabeça. Estava muito emocionado. Mas ela veio em minha direção e colocou a mão no meu ombro", falei quase chorando. "E o que ela disse? Diz duma vez!", insistiu o Sílvio. Olhei pra ele e - finalmente - terminei a história: "Ela disse 'que cabelinho mal cortado, hein, meu filho?'"