quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Estado das coisas - atualizado para fevereiro de 2018

As forças armadas são irrelevantes para a segurança interna de uma nação? Se a resposta para essa pergunta fosse sim, nós, brasileiros, deveríamos avisar o USA para desativar a National Guard. O Reino Unido deveria aposentar definitivamente seu corpo de Home Guard e a França deveria recolher os militares que ainda patrulham áreas nefrálgicas suscetíveis aos ataques terroristas em todo seu território. Às favas com a Garde Nationale! A pergunta não deve ser tão ingênua.

A real demanda que não é respondida no Brasil é: por que não se faz segurança pública integrada com escalonamento de patrulhas para atender cenários específicos de forma preventiva e com o mínimo de estardalhaço possível? A resposta ninguém dá, mas eu aviso: não dá voto.
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A intervenção federal no Rio de Janeiro chega atrasada, errada e sem plano algum. Os militares não só não sabem o que fazer como estaríamos muito melhor atendidos se um corpo de fuzileiros da Rússia resolvesse testar seus parcos conhecimentos de geografia tropical no Morro da Tijuca.

O Rio havia dado passos largos e importantes com as Unidades de Polícia Pacificadora. Jamais tão largos a ponto de convencer alguém que UPP era sinônimo de paz como avisou o próprio secretário da época José Beltrame. O buraco de cidadania não foi superado e a iniciativa se tornou mais um capítulo do corrompido mecanismo de transformar policial bom em bandido ou vítima de bandido; e policial ruim e chefe de polícia em chefe de bandido. Tudo errado.

Quantas pessoas, civis e militares, vamos ver morrer para dar voto ao PMDB? A resposta para isso só vem no fim de 2018.

Que o vulgo pense que milico é alguma resposta isolada para qualquer pergunta que se imagine fazer, eu compreendo. Vulgo é vulgo. O despreparo técnico e material não são capazes de mostrar para o militante de militar o quê é, efetivamente, segurança pública. O vulgo não precisa se perguntar como chega no morro armamento contrabandeado de altíssimo poder de parada. Para o vulgo, pouco importa que aquilo está lá por incompetência do nosso patrulhamento no Oeste e por água e céus. É como se a irresponsabilidade militar latente das fronteiras tivesse como prêmio o controle institucional de um Estado sem controle. Premiamos a incompetência. Exatamente o contrário de meritocracia.

O caso em questão é que isso terminará por destruir o aparelho que deveria ser consertado desde dento. Não há inventário pré-intervenção. Não se saberá o que restará. Não se sabe contra quem é a genericamente chamada 'guerra contra o tráfico' e, mais uma vez, veremos bandidos serem substituídos para dar lugar a outros bandidos. Um desserviço, pois o serviço prestado beneficia outros bandidos e outras quadrilhas, especialmente o PMDB.

Apenas uma onda real de insegurança que atinja o poder central pode acalmar a insegurança das ruas. É preciso levar a guerra que eles fantasiam estarem lutando para dentro de assembleias e casas governamentais. Enquanto a insegurança não atingir governadores de estado, deputados e marajás, qualquer medida é algo com o qual e sem o qual tudo ficará tal e qual.

No mais, todo milico teve ter como chefe uma Rainha e se limitar àquilo que lhe é ensinado sobre geografia, logística e a dependência que devem ter da ração MRE que lhe é servida.

Sem mais, meritíssimo.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Fim dos 10 anos: desaniversário do blog

Nesse ano que passou, o Blog do Capeta completou 10 anos. Virou, nesse meio tempo, Blog do Maciel. Foi escrito de umas 20 cidades. Em cinco delas, morei por bastante tempo, incluindo, Londres e um período em Barcelona. Não dei bola para o evento de aniversário. Na real, a política editorial aqui mudou bastante. Era para ser um projeto coletivo, mas, como muita coisa na vida, caiu no meu colo. Era para ser noticioso, virou relato. Era para ser regional, virou mundial. Também estive sobremaneira ocupado com a finalização da minha tese de doutorado, nos últimos quatro anos. Gosto muito de publicar e escrever. Mas a vida acadêmica é contraprodutiva nesse sentido. Incrivelmente, contraprodutiva. Se eu voltar para a atividade de magistério, devo publicar mais. Se eu voltar para a atividade jornalística (deus-me-livre!), devo publicar mais ainda. Mas a ideia de ter um espaço para aleatoriedades nunca sairá de mim. Inclusive porque aquilo que funciona aqui jamais seria publicado por um periódico ou uma revista. Não por falta de periódico ou revista, mas por falta de leitores. Essas coisas já não existem mais. Claro que sinto saudade de ver meu nome impresso em papel com tinta, mas, gente, vocês não têm ideia do que era minha folha de pagamento naquela época.

Obrigado pela paciência de todos.

domingo, 19 de novembro de 2017

O dia em que o Silvio conheceu a Rainha

Já devo ter falado do Silvio pra vocês. Ele é um barbeiro de humor duvidoso que trabalha aqui na Cidade Baixa. Um dos passatempos preferidos do Sílvio é jogar areia no churrasco dos outros. Nunca vi tamanho talento reunido em uma só viv'alma para fazer todo mundo se sentir ruim. Basicamente, ele vê o lado negativo de tudo. Se você chegar ali contando que ganhou na loteria, a primeira coisa que ele vai lembrar é dos impostos que devem ser pagos; depois, da encheção de saco que deve ser ajudar os parentes desafortunados. Não que ele seja uma pessoa ruim. Só não vê graça nenhuma na vida. Se o Guga Kuerten, a pessoa mais feliz da Terra (praticamente um Labrador Retriever no corpo de um humano), for cortar o cabelo ali, sai deprimindo e com pensamentos suicidas. O Silvio não só é mal-humorado, ele acha um completo absurdo que as outras pessoas andem por aí saltitando de felicidade.

Então, um dia eu fui cortar o cabelo e, logo depois de cumprimentar o Sílvio e me sentar na cadeira, falei para ele que ficaria uns meses sem aparecer ali. Eu havia arrumado uma viagem para Londres para fazer um trabalho e ficaria um tempo por lá. "Putz... Europa! Tudo velho. Deve ser cheiro de mofo por todo lado", lascou o Silvio. "Pois é, mas tem bastante coisa pra ver: museus, bibliotecas. Além disso, Londres é uma das capitais mais famosas do mundo", remendei tentando manter o ânimo. "Bem capaz! Imagina só. Deve ser turistas chinês pra todo lado. Essa gente anda por tudo. Sei lá se ganham passagem do governo. E dizem que nem banho tomam. Soma isso com os europeus que não tomam banho mesmo, imagina só", retrucou ele.

Falei da família real, da história de lutas e revoluções, da importância do império britânico no desenho do mapa, mas nada agradava o Sílvio. Tudo era um problema: sustentar príncipe vagabundo, arrumar problema com o governo, "atentados terroristas". Enfim. Terminou meu corte e eu saí de lá pensando que estava indo para um cativeiro de sequestro no Complexo do Alemão. Mesmo assim, fui-me para Londres naquela semana, e voltei só quase um ano depois.

Uma das primeiras coisas que fiz quando voltei foi ir no Silvio cortar o cabelo. "Mas ah! O guri que foi cheirar as calcinhas mofadas da rainha voltou", disse ele me cumprimentando. "Pois é. E se eu te conto o que aconteceu lá, tu nem acreditas", informei com pompa, ganhando atenção dos outros que estavam por ali esperando pra cortar o cabelo. "Não me digas que conseguiu um chá com a velha, naquele muquifo lá onde ela mora?", perguntou o Silvio fazendo todos rirem. "O Palácio de Buckingham? Não", respondi. "Mas ela falou comigo sim. Estava indo para uma celebração e eu estava na frente do palácio". "Falou contigo? Não diga! Aposto que entrou no carro e nem deu bola pros bocós ali esperando pra ver ela", chacotou ele. "Pois, eu estava lá. E ela saiu do carro e caminhou na direção da multidão. Deixou de entrar no carro pra falar comigo. Caminhou na nossa direção - até me arrepio de lembrar. Ela veio em MINHA direção, em linha reta, sem parar. Dois seguranças atrás dela, mas ela veio", contei emocionado. "Dá onde!! E ela disse alguma coisa? Falou com você?", perguntou o barbeiro já curioso.

"Falou. Veio pro meu lado só pra falar comigo. Eu baixei a cabeça. Estava muito emocionado. Mas ela veio em minha direção e colocou a mão no meu ombro", falei quase chorando. "E o que ela disse? Diz duma vez!", insistiu o Sílvio. Olhei pra ele e - finalmente - terminei a história: "Ela disse 'que cabelinho mal cortado, hein, meu filho?'"

sábado, 28 de outubro de 2017

A Era dos Extremos

A Era dos Extremos é o nome mais apropriado que alguém poderia dar para um livro que tenta contar a história do século XX. Eric Hobsbawm foi o maior historiador da contemporaneidade não apenas pela precisão e arqueologia, deveres da função, mas pela concisão e capacidade de chegar às massas. No ano em que precisamos lembrar dos 100 anos da Revolução Russa, da fome e histeria que ela produziu, nada mais prudente do que reler Hobsbawm. 

É preciso reler para não esquecer de Nixon e Che Guevara. Thatcher e Mikhail Gorbachev. A euforia da queda do muro de Berlim, o fim da cortina de ferro, e o início da guerra do Golfo são coisas intimamente relacionadas. 

O Brasil é um país tão atrasado que chegamos na década de 90 apenas agora. Somos o final de um livro que ainda está sendo reescrito. Não entendemos que rearrumar o populismo nos levou a volta das elites ao poder e não admitimos que existam elites, porque nos julgamos esclarecidos demais para seremos ludibriados. Um traço indelével do ludibriado é o iluminismo. Assim como o desejo de melhorar o mundo é marca registrada dos ditadores mais autoritários. 

O ano de 2018 será o "topo" do nosso declínio moral e intelectual, sopé da nossa curva humana! Sem reformas políticas e com figuras messiânicas que renderiam mais em púlpitos de igrejas do que em cargos públicos. Alguém pode tenta justificar que se trata de um fenômeno global, citando Trump, Brexit ou separatismo Catalão. Mas não. Somos especiais porque não temos passado e não admitimos pensar no futuro. Não temos o saudosismo dos "bons tempos" e aqueles que justificam dizendo que houve um passado melhor sofrem de amnésia conveniente. Afinal, não entendem o quanto são responsáveis por nos trazer até aqui. 

A era dos extremos está apenas começando. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Palhaço de Viamão

Qual a diferença entre um palhaço e um comediante? A princípio, ambos têm o mesmo objetivo: fazer rir. A principal diferença é que o palhaço quer fazer com que riam de si, já o comediante quer risadas consigo. Comediante, entende de ironia, sarcasmo e, principalmente, da ideia de criar uma expectativa e subverter ela. Não é disso que se trata esse texto.

O palhaço de Viamão queria que os ouvintes da emissora de rádio para qual ele trabalhava rissem o tempo todo dele mesmo. Tentava piadas com mulheres, negros, homossexuais, mas o resultado nunca era a piada, era a própria vulgaridade. O próprio palhaço virava assunto e seu objetivo estava sempre completado. Então, no último sábado, o palhaço de Viamão resolveu dizer o seguinte na rádio: "Eu confesso que não senti, achava o Sant'ana muito filho da puta", referindo-se ao falecimento recente de Paulo Sant'ana. "Meu Deus! Eu tava fazendo uma piada e botam no ar tudo", completou o palhaço de Viamão, sugerindo que não sabia que estava no ar ao vivo.

Nunca se discute o quê um palhaço diz; perdemos nosso tempo discutindo o palhaço em si. É disso que se trata o palhaço de Viamão, um cara produzido por outro palhaço, o palhaço da Olavo Bilac (desse palhaço eu trato outra hora).

Como acho meu tempo valioso demais, não vou me dirigir ao palhaço, mas ao circo. A empresa para a qual o palhaço trabalhava emitiu um comunicado nos seguinte termos: "Por não estar mais alinhado ao posicionamento adotado pelos veículos", referindo-se ao palhaço, ele "está deixando a empresa", completa a nota. Se o palhaço de Viamão não está "mais" alinhado, quer dizer que um dia ele já esteve. Na verdade esteve até ontem, 31 de julho de 2017, quando a nota foi emitida pelo circo e o palhaço teve seu contrato rescindido. Não tenho procuração para defender palhaço, mas observem que o circo ratificava, assinava embaixo e dava aval à homofobia, xenofobia e sexismo até antes de ontem. Toda coletânea de bobagens que o palhaço fez para chamar atenção para si faziam parte do seu "alinhamento ao posicionamento adotado" pelo circo.

Realmente, creio que existe um grau de lamento em permitir que um palhaço velho, meio neurótico, com visíveis sintomas de definhamento mental pela idade seja despachado nesses termos, quando a culpa central é do circo. É fácil manipular um palhaço, ao menos, nessas condições.

O circo, aliás, está à venda e cada vez com um preço mais baixo. Quem tiver interesse, aproveite.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O lado ruim da nossa resiliência

Somos permissivos.


'Brasileiros às vezes toleram coisas que não deveriam ser toleradas'. A frase foi dita na despedida do embaixador britânico que atuou no Brasil por três anos e meio, Alex Ellis. Admitir a nossa permissividade pode fazer parte do processo de reconhecimento da culpa. Um pré-requisito para suportar a injustiça de olhos limpos é justamente a expectativa de se beneficiar dela, algum dia.

As reformas reais que o Brasil necessita, incluindo pacto federativo, reforma fiscal e eleitoral, não foram feitas em picos de popularidade presidencial. Por certo, não serão feitas por mandatários que têm tanta intimidade com a urna quanto interesse pela qualidade de vida da população. Não teremos o fim da distribuição do afago das emendas parlamentares; também não há nenhuma maneira do governo reduzir os seus gastos extraordinários, regalias e cargos de comissão. Curiosamente, mesmo sem nada disso, não teremos panelaços e camisas verde-amarelas dançando ao redor de nenhum pato gigante. É a confirmação da máxima de Ellis.

Bradar aos quatro ventos que não gostamos de corrupção não impede a nutrição de um carinho distante por corruptos bem sucedidos. Existe outra justificativa para assistirmos deputados que devem montante superior a R$530mi à União votando o perdão de dívidas fiscais, sem que uma única lágrima de sangue seja derramada para impedir que isso progrida no Congresso? Alguma sugestão que explica uma reforma trabalhista que não altera em nada a colônia de férias de marajás e joga a conta integralmente para o trabalhador assalariado ou o aumento de impostos incidindo diretamente sobre o bolso do consumidor e do setor produtivo? Nada. É o barulhento silêncio das ruas misturado com a resiliência de um lugar que transformou covardia em virtude.

No próximo ano, veremos o mesmo cenário político com uma leve alteração dos seus personagens, teremos ainda um aumento no desinteresse do eleitor pelo voto, o crescimento da centralização de poder e a amplificação da destruição de estados e municípios. Somos uma nação de tolerantes construída de tragédias anunciadas.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pos-truth II

Tradicionalmente, a epistemologia é a área do conhecimento humano dedicada a saber o que é ou não “verdade”. Um assunto bastante nebuloso, vamos combinar. Resumindo, posso tentar simplificar dizendo que verdade é aquele momento onde os fatos no mundo se encontram com as sentenças do pensamento humano. Quando alguém detém alguma crença, emite um juízo sobre ela. Basta que um juízo corresponda à realidade e – voilà! – a crença finalmente ganha o status epistêmico de conhecimento. Todo tipo de crença é candidato a pretenso conhecimento.

O dicionário Oxford elege, todos os anos, uma palavra “nova” para fazer parte da sua lista de verbetes. A última escolhida foi “post-truth”. “Pós-verdade” foi utilizada em 1992, na revista The Nation, pelo sérvio-americano Steve Tesich pela primeira vez. Mas não basta repetir uma palavra algumas vezes para que ela caia nas graças dos dicionaristas. É preciso um conceito sólido estabelecido socialmente em torno de um verbete, e esse conceito demorou quase 20 anos para surgir. A ideia de pós-verdade só ganhou forma com as redes sociais. A popularização, especialmente, do Facebook é a principal responsável por fazer o termo pós-verdade ser realmente interessante e subverter a epistemologia tradicional. Desde então, a formação do conhecimento está mais ligado ao apelo às emoções, desconectadas dos fatos no mundo social e político e próximo do conjunto geral de crenças resultante da soma de pessoas com as quais os indivíduos interagem no seu mundinho virtual. Recorrer ao sentimentalismo para publicidade política não é propriamente uma novidade. Os americanos utilizaram durante a Guerra Fria; os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A diferença está no alcance e na falta de objetivos práticos daqueles envolvidos no processo nos dias de hoje.

E o que pode ser usado na construção de uma pós-realidade? A resposta é simples: tudo. Notícias falsas, vídeos opinativos ridicularizando agentes políticos, memes (eis um forte candidato ao dicionário Oxford para os próximos anos), imagens apelativas e suas respectivas montagens. Qualquer coisa com alguma capacidade de alterar a capacidade das pessoas de refletir sobre fatos sociais e políticos reais são ferramentas úteis para influenciar a opinião pública. O resultado dessa disputa é sempre uma das extremidades: esquerda pré-queda do muro de Berlin ou direita teocrática. Mesmo que ambos os modelos já tenham se mostrado historicamente ineficientes, isso não importa para os pós-modernos relativistas da pós-verdade.


Precisamos compreender que as redes sociais são simulacros de democracia, onde tudo aquilo que o agente político tem diante de si é um conjunto de opiniões com as quais ele concorda e algumas opiniões dissonantes criadas justamente para que ele reaja aleatoriamente. O primeiro passo para fugir de uma cilada é conseguir identificá-la. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Quanto pior melhor. Sempre

É incrível a resistência em admitir algo que eu já escrevi aqui uma dezenas de vezes: quanto pior melhor. Digo isso desde antes de impeachment, antes da prisão do Delcídio, do Cunha. A diferença entre eu e eles é que não tenho outra torcida a não ser o caos generalizado. Michel Temer realmente é uma vergonha para aqueles que votaram nele, desde o início. Os petistas, responsáveis por Temer na linha de sucessão, dormirão sonhando com aquilo que nunca abandonam: o rasgar da Constituição, eleições direitas e ilegais. Nada provável, com um quórum infame no Congresso e boa parte da sua direção presa ou usando tornozeleira eletrônica.

Mesmo que os lacaios não admitam, o grande ponto a favor do escândalo envolvendo o mandatário da republiqueta é a estancamento das "reformas", são criminosas e no pior momento possível. Aécio, herdeiro de uma legião de políticos mafiosos, mostrou isso no vocabulário: "matar antes que delate". O status da corrupção busca se alterar a cada novo escândalo. Apenas o completo desmonte da política nacional e a reconstrução com bases instaladas em um pacto federativo sólido, reforma fiscal e o enxotamento de centenas da vida pública, incluindo a quadrilha de Aécio, Lula, Alckmin e todo o PMDB, com a criminalização dessa organização terrorista, pode nos dar algum rescaldo de chance. Que haja gente suficientemente estúpida para usar esses últimos fatos para tentar ressuscitar indivíduos capazes de causarem tanta insegurança para o país, não resta dúvida. A grande questão é o ambiente no qual esses delinquentes de inserem e se teriam eles capacidade de causar tanto desserviço a si mesmo e ao país com uma candidatura. Claro que me refiro a Lula e sua religião de moluscos. A influência dessa gentalha é muito superior a dos seguidores do Bolsonaro. Só não admite que não quer.

A alteração do modus operandi da corrupção não parou e com a queda de muitas peças, o envolvimento direito de um chefe de quadrilha era inevitável. Os investigadores da Polícia Federal finalmente devem ter assistido "Todos os Homens do Presidente" e tiveram a genial ideia de comprar um incriminado para incriminar mais gente. Confirmado o cenário onde Temer delega a Rodrigo Loures (PMDB) a missão de calar Eduardo Cunha várias coisas podem acontecem. As cenas de uma mala com R$ 500mil circulando para pagar o silêncio comprado pelo colaborador incriminado, Joesley Batista, fará a república ruir em várias direções diferentes. Que bom. Essa república que está aí já não serve mais.

Preocupar-se agora se teremos eleições indiretas ou diretas é comprar o lado de algum dos canalhas. Quanto pior para todos eles, melhor pode ser para o país. Só me acordem quando houver sangue rolando.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Fora de controle

Eu cheguei a Porto Alegre há pouco mais de quatro anos. Gostei muito daqui, mas eu sou bem pouco exigente, mesmo. A Porto Alegre de quatro anos atrás, nem de longe, nada tinha a ver com essa de hoje. Temos assaltos desde tempos remotos. Ganhamos o latrocínio como regra. A sujeira eventual se transformou na constante. A destruição e o desinteresse na manutenção de prédios históricos, particulares e públicos, vai de encontro com à pichação insistente, dessas que dá desânimo de limpar porque amanhã estarão lá de novo. O morador de rua, antes resultado da falta de oportunidade, agora é o consumidor de crack e foi multiplicado na mesma proporção com a qual distribuímos poder de compra e não transferimos renda real. Maximizamos a desigualdade dentro de um governo dito de esquerda e esperamos resultados "reformistas" de um grupo ainda mais mascarado.

A real é que nós somos ruins demais em absolutamente tudo o que fazemos. Negar isso é uma mistura de paixão nacionalista pueril com esperança tosca. Quem conhece a forma como lavamos nossa salada não tem coragem de chegar perto do nosso churrasquinho. As ruas de grande metrópoles são só o resultado mais visível da nossa incompetência. Violência, greve, falta de transporte, saúde, educação e Uber são as consequências não as causas dos nossos problemas morais e intelectuais. Nada disso é diferente de estradas intrafegáveis e da insistência em ignorar meios de locomoção a longa distância mais viáveis. Afinal, quem vai vender pneu para trem, não é mesmo?

Cezar Schirmer e um colega de quadrilha mais bem sucedido
Porto Alegre se transformou no resultado prático das nossas aberrações. O secretário de segurança do Estado, um debochado chamado Cezar Schirmer - homem que num país justo estaria indiciado por homicídio culposo no caso onde 242 pessoas perderam a vida durante sua gestão como prefeito de Santa Maria, dentro de uma boate -, tem a audácia de afirmar que "não se faz segurança pública só com brigadianos". No mínimo, 50 chibatadas, nu, na praça da Alfândega, se o brasileiro (e o gaúcho ainda mais) não fosse um povinho permissivo. Ultrapassamos o nível da indolência e empilhamos corpos como se nada fossem. A audácia do criminoso é inversamente proporcional à falta de controle do lugar onde ele se encontra confortável para ser aquilo que ele nunca deixou de ser: bandido. A média dos cidadãos está disposta entre uma massa de marginais de quinta categoria e aqueles controlando todas as esferas de poder. Eles não ganham de nós numericamente, mas ganham em capacidade de agir. Quanto mais não encontram reação, mais numerosos são seus roubos e estelionatos. Aquilo que dispomos hoje para fazer a prevenção e contornar o prejuízo não é suficiente sequer para juntar os corpos. Não passamos nem perto de contornar o prejuízo. Quanto mais a bandidagem age, mais oportunidades surgem para que ela possa seguir agindo. Estamos enxugando gelo.

O estrago produzido em Porto Alegre pelo somatório de políticas nacionais, estaduais e municipais geridas por macacos corruptos, se revertido a partir de hoje, demorará 10 anos para ter reflexos práticos. Honestamente, creio que devemos admitir, sempre que olharmos para nós mesmos, nosso país, filhos e aqueles que elegemos: as coisas deveriam estar ainda piores.

Todo otimismo deve ser censurado.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Estado das Coisas

Jornal Zero Hora publicou um artigo de opinião meu

O cenário de completa insegurança imperando em grandes centros urbanos do Brasil não foi gerado na semana passada. É resultado de três décadas sem planejamento nas áreas vitais (educação, segurança pública e saúde). O material sempre foi inflamável, mas o fósforo do incêndio veio com a instabilidade da democracia. O ódio foi maximizado no ambiente virtual, contudo a incivilidade sempre esteve nas ruas, entre nós.

Constatar a senilidade dos nossos problemas não ajuda a resolvê-los. Ainda, impressiona que faça parte da nossa agenda tanto aplausos às tropas do Exército e da Força Nacional, quanto as insistentes tentativas de condenar a existência da Polícia Militar.

Direita e esquerda batem boca, cada um em suas trincheiras e, no meio, o povo, desatendido em todos os aspectos e sem perspectiva de ver qualquer grande problema resolvido. Machuca a dignidade de uma nação passar tanto tempo sem ver nenhuma questão nacional significativa apaziguada, com um Estado cada vez mais caro e ineficiente. Assistir saques em Vitória, presídios incendiados no norte e nordeste e crimes contra a vida sendo cometidos em todas as grandes capitais, sem uma pronta resposta para evitar que tudo se repita, agride nosso maltratado entendimento de quem somos, brasileiros.

Em meio a nossa completa indigência cívica, cada passo dos nossos representantes é dado para tentar resolver seus próprios problemas. Manter-se fora da cadeia, em primeiro lugar; depois, encontrar um novo modus operandi para a corrupção. Nenhuma grande reforma é esperada. Se algo é oferecido como solução vem sempre em detrimento de quem sustenta a máquina ou daqueles que tentam a manter funcionando. À margem da população e no centro do viciado poder de barganha, um determinado nicho da classe jurídica é aclamado como se fossem heróis, e não se importam de ostentar esse título bizarro.

Enquanto o eleitor não substituir os heróis e os discursos extremistas por um modelo que ofereça uma reforma política real e um pacto federativo suficientemente radical para reconstruir o país, esse será o estado das coisas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Bandido bom

Todos vocês devem estar um pouco cansados de ler coisas sobre segurança pública. Mas vou voltar ao assunto por dois motivos: primeiro, é uma questão atordoante para quem mora em grandes centros urbanos, como eu; segundo, porque não me importo com vocês; se quiserem parar de ler porque julgam muito chato, ok. Vá compartilhar gatinhos no feicibuqui e não perca seu tempo aqui.

O que aconteceu no presídio do Amazonas identifica o resultado de anos de movimentos predatórios de uma esquerda burra e de uma direita tão desorientada que não presta nem para ser chamada de conservadora. O único debate sobre presídios no Brasil, em 30 anos, busca rechaçar ou justificar a ideia idiota de que bandido bom é bandido morto. A pergunta correta é: como deve ser um sistema penitenciário para que ele melhore a vida das pessoas, dentro e fora dos presídios, ou seja, melhore a segurança pública em geral?

Claro que é uma pergunta mais complexa e, portanto, não está a disposição de qualquer arigó se posicionar de forma clara e objetiva sobre o assunto. Governador do Amazonas (o velho caduco), Ministro da Justiça (o careca com cara de tarado) e presidente da república (vampirão fisiologista) fazem parte do grupo de incompetentes morais e intelectuais incapazes de pensar a segurança pública. Eles mostraram isso abrindo a boca, seja pela demora em se manisfestar ou porque ainda estão filiados à ideia de que bandido bom é bandido morto, sem saber muito bem o que fazer com a resposta em um mundo que não aceita mais sequer a pergunta.

Quase 60 pessoas foram decapitadas dentro de um local que deveria estar sendo controlado pelo estado com o mais alto rigor, atenção que o comportamento de presos requer em qualquer lugar do mundo. Mas, pelo jeito, somos especiais por aqui. Armas, celulares, festas e visitas descontroladas são a regra, em meio a um regime de permanente exceção. A esquerda culpa a terceirização, porque não conhece um lugar onde a terceirização funcione. O lugar onde a privatização funciona é a civilização, tão distante de uma teoria de esquerda que nem toca sua concepção de Estado. Já a direita acha que é assim mesmo: matem-se os bandidos, não são flores para serem cheiradas. Não preciso nem lembrar que essa é justamente a posição dos próprios bandidos. Então, todo bandido é de direita, mesmo aqueles que se dizem de esquerda.

Apenas os menos ignorantes são capazes de compreender que os mais interessados em um sistema prisional falido é justamente o criminoso. A imbecilidade também ignora o fato de que 40% dos presos de um país estão encarcerados em regime provisório, por roubarem um pote de margarina no supermercado ou darem uns tapas na mulher. Presos sem condenação e aguardando a morosidade de um sistema judiciário incompetente, útil apenas para sustentar juízes corruptos e funcionários marajás.

Somos tão burros - mas tão burros - que preferimos discutir a redução da maioridade penal. Não nos importamos com o limite de encarceramento de 30 anos para criminosos que deveriam passar o resto da sua vida na cadeia. Nossa imbecilidade é tanta que insistimos em ressocialização sem conseguir sequer controlar. Em matéria de idiotice não somos direita nem esquerda, somos todos ambidestros.

Nosso sistema jurídico passou de uma ditadura militar mongolóide e sem rumo para um ambiente onde impera o garantivismo e, consequentemente, a ideia bizarra de que tudo é permitido. E ficou proibido proibir, quando o direito do indiciado é tão volumoso quanto a sua conta bancária, capacidade de buscar advogados e manobrar recursos. Viajamos da proibição dos protestos para a banalidade da baderna. Sem escala.

Bandido bom é bandido julgado e condenado que cumpre a pena com o rigor da lei, debaixo dos olhos do Estado. Todo o resto é conversa secundária, disponível apenas para quem já resolveu o problema da base. Não é o nosso caso.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre Drones, Violência e Segurança

Vivemos o período da inversão da narrativa "fulano mata a própria mãe", como se pudéssemos arrumar uma justificativa, caso ele tivesse matado a mãe de alguém e não a dele própria.

A primeira coisa que a imprensa gaúcha fez ao informar sobre o apedrejamento da casa de uma família vizinha do estádio Beira Rio foi ressaltar que se trata de colorados. Foi um crime contra a vida de pessoas, praticado por marginais, não por torcedores colorados. Nada disso tem a ver sobre a cor da bandeira do time de quem ali mora. O melhor que um torcedor colorado pode fazer agora é não tentar encontrar justificativa para o que aqueles meliantes fizeram, devem ser os primeiros a reclamar uma a punição severa de todos os marginais, pelo bem da dignidade do próprio clube. Até agora, nenhuma palavra oficial da direção colorada. Alguns, inclusive, buscam justificativa. Citam o drone que sobrevoou o Beira Rio com uma faixa insinuando o eventual rebaixamento do Internacional para a Série B. Todos corresponsáveis, portanto.

Imprensa, mais uma vez errada, ressalta que "flauta alguma justifica o que aconteceu". Eu, menos inocente, censuro o uso de drones pelo motivo verdadeiro: a segurança do espaço aéreo, coisa que pouco chama atenção. Afinal, uma das características de um idiota é ficar impressionado com a tecnologia e esquecer o contorno envolvido. Dizem que a "flauta é normal", como se houvesse relação entre o uso de um avião para passar uma faixa sobre o estádio adversário e um equipamento operado por amadores, comprometendo a segurança de muitas pessoas. A Aeronáutica já se manifestou sobre o assunto, mesmo que as regras ainda sejam confusas.

Mesmo como o que eu disse - o melhor argumento possível em torno daquela idiotice do drone que circulou o estádio Beira Rio -, nenhuma justificativa cabível está à disposição de marginais. Em um país liberal, aquilo que aconteceu ontem com aquela família não teria acontecido por dois motivos: primeiro, porque o papel do Estado é preservar a qualquer custo a vida das pessoas. Jamais a segurança pública seria acionada e chegaria ao local 40 minutos após o ocorrido. A audácia dá força ao meliante. Em segundo lugar, muito provavelmente a invasão de uma casa, comprometendo um casal e uma criança de 10 meses, justificaria um abatimento dos agressores de forma truculenta e mortal, seja por vizinhos ou mesmo pelo pai de família envolvido, no episódio. No liberalismo, o agressor deve ser parado, sempre, custe o que custar.

Enquanto isso, a imprensa destaca: "não se trata de uma família gremista"; "não se trata do gremista flautista que fez um drone sobrevoar o estádio do coirmão".

Esse foi um texto sobre drones, violência e segurança, mas na ordem inversa.

Não tem nada certo na ordem dos fatos.

sábado, 19 de novembro de 2016

Pós-verdade

Não sei se já disse que dedico boa parte do meu tempo em um doutorado na área de Ética e Filosofia Política? É provável que nunca tenha mencionado, porque considero minha vida desinteressante por demais. Digo isso agora pela vontade de deixar pública minha profunda inveja aos colegas que estudam Epistemologia. Além de um assunto demasiadamente delicado, onde não há lugar para os mais ou menos inteligentes, entendo que esse pessoal tem crediário com um instinto filosófico genuíno. Digo isso pela imensa dificuldade que encontro de justificar um trabalho na área. Pensem, por exemplo, na ideia de "atualidade". Pode alguma coisa ser menos atual do que se dedicar a unir crenças e fatos para chama-los de "verdades"?

Vivemos na era da pós-verdade. Independente dos fatos, aquilo que realmente influencia as crenças das pessoas em torno da realidade é quem é atingido pelo conjunto de sentenças. Exigir que essas sentenças tenham alguma relação com o mundo é um exagero pueril nos dias de hoje. O mundo real não tem condições de se manifestar em nenhum setor da vida privada das pessoas. A dicotomia entre internalismo e externalismo nunca foi tão evidente.

Podemos tomar como exemplo a completa judicialização da vida política nacional. Independente de ela expor a fragilidade e o perigo de o judiciário estar se tornando um partido político, os populares sem filiam a essa ideia com bastante afinco. Inegavelmente, é bastante revigorante para a opinião pública ver figuras que, até pouco tempo atrás, esbanjavam em pomposas - e cafonas, aliás - festas na Europa indo parar na cadeia. Na medida em que isso vai acontecendo, a corrupção institucionalizada do próprio judiciário, junto com seu poder de barganha, vai ganhando força e, sem alarido, não chamam atenção aumentos salariais de quase 50%, nem vales-alimentação que cumpririam duas ou três folhas de pagamento de um professor do mesmo estado.

A curva do gráfico da epistemologia chega ao ponto mais alto quando as redes sociais são as principais referências para pautar o noticiário tradicional. A relevância de determinado assunto está diretamente condicionado a quantidade de memes que o personagem principal consegue movimentar. O interesse público não é pelos fatos envolvidos no cenário político, jurídico ou social, muito menos por deixar claro o histórico de absurdos que levou as coisas a esse patamar bizarro. Vale é a quantidade de likes.

Com a hegemonia da pós-verdade, até a mentira vale como verdade, dependendo de quem ela detrate. Os fatos não são tão interessantes quanto a caixa de comentários das redes sociais e isso transforma nossa geração na primeira completamente desconectada do mundo real.

Uma excelente maneira de identificar esse tipo de hiper-indivíduo é observar a velocidade com a qual ele se filia a uma determinada causa: a favor das ocupações nas escolas, "esses alunos são heróis"; a favor da polícia cumprir a reintegração de posse arrebentando a cabeça desses "doutrinados pelo sistema de educação comunista".

A pós-verdade identifica a era dos extremos. Podemos escapar dela transformando a ignorância em uma virtude ou agredindo qualquer um que se manifeste a favor de qualquer mudança que não seja tão radical quanto deva ser. Todo retrocesso da democracia deve ser condenado e o sofrimento se transformará no único método pedagógico.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Síndrome da Autoafirmação

Esse final de semana, eu fui cortar o cabelo ali no Sílvio. O Sílvio é um barbeiro meio rabugento meio gente boa que trabalha aqui perto de casa, sei lá, há uns 30 anos. Existem dois assuntos em barbearias: futebol e todos os outros. Como não entendo nada de futebol, sempre preciso ter um assunto na manga para disfarçar meus defeitos. Então, sugeri para o Sílvio um assunto envolvendo seus negócios: a ampliação substancial de concorrência na volta. Barbearias se proliferaram na Cidade Baixa, no mesmo ritmo que o crack. Primeira observação do Sílvio: "não é concorrência, porque ninguém volta nas outras barbearias". Fiquei sem entender o motivo e passou.

Lá pelas tantas, entrou outro cliente, se serviu de um copo d'água do bebedor, enquanto aguardava e sugeriu para o Sílvio: "verão chegando... com esse calor, podia botar uma água e vender aí, Silvio". Ele não deixou passar: "Não dá, chefe. O povo pensa que é brinde. Tem coisas que não dá pra misturar. Eu recém falei para o colega aqui (se referindo a mim). O pessoal fica abrindo essas barbearias, servindo cerveja e tal... meu cliente vai lá, para fazer uma foto e pôr no feicibuqui, mas depois volta".

Só fui entender o Sílvio, depois de passar na frente dos concorrentes dele e prestar mais atenção. Realmente, começou a surgir um mercado de "barbearias gurmetizadas". Funciona assim: você vai num lugar para cortar o cabelo, toma uma cerveja, olha uma revista com um artigo estranho sobre a diferença entre smoking e fraque, e tira uma foto para postar na rede social. A tal foto rende muitos joinhas, mas só funciona uma vez. Daí a tese do Sílvio: "não é concorrência, quando ninguém volta lá". A pessoa só vai voltar num lugar bizarro desses se chegar no nível de passar glitter na própria barba.

As pessoas estão proibidas de querer tomar uma cerveja artesanal puro malte plantado por monges da serra gaúcha? Não. As pessoas estão proibidas de querer pagar 50 reais por um corte de cabelo balaqueiro, quando poderia pagar 20 por um "normal"? Também não. Estão proibidas de pagar mais caro, para não esperar na fila, com mais três caras aguardando para cortar o cabelo? Nem pensar. O problema central desse fracasso é a tentativa de se autoafirmar, buscando um espaço com características "super-masculinas"; afinal, como eu vou passar pela vida sem deixar muito claro que sou homem, né?

É assim em vários níveis e em várias situações do nosso cotidiano mais ordinário. Todo mundo anda querendo fazer da vida uma frase feita, dessas para se compartilhar em rede social.

Vou citar um exemplo óbvio. "Não sou obrigada" é um slogan de efeito, repetido pelo movimento feminista, em ritmo de mantra. Quem se filia a uma obviedade dessas jamais vai admitir que, sim, você é obrigada a repetir isso centenas de vezes e, de preferência, fazer uma hashtag para deixar muito claro que não é obrigada a fazer nada. "Não se deixe levar por modinhas" é a modinha da vez. A autoafirmação de muita gente depende dessas coisas.

Fazemos isso com uma frequência surpreendente, porque buscamos nos esquivar da mais irrefutável das verdades: nós aprendemos do mundo as regras e não as exceções. E, precisamente por causa disso, a autoafirmação é um dos dramas mais contundentes dessa sociedade mimizenta. Nada mais normal do que ver alguém que faz parte da regra se julgando a mais nobre das exceções.