sábado, 19 de novembro de 2016

Pós-verdade

Não sei se já disse que dedico boa parte do meu tempo em um doutorado na área de Ética e Filosofia Política? É provável que nunca tenha mencionado, porque considero minha vida desinteressante por demais. Digo isso agora pela vontade de deixar pública minha profunda inveja aos colegas que estudam Epistemologia. Além de um assunto demasiadamente delicado, onde não há lugar para os mais ou menos inteligentes, entendo que esse pessoal tem crediário com um instinto filosófico genuíno. Digo isso pela imensa dificuldade que encontro de justificar um trabalho na área. Pensem, por exemplo, na ideia de "atualidade". Pode alguma coisa ser menos atual do que se dedicar a unir crenças e fatos para chama-los de "verdades"?

Vivemos na era da pós-verdade. Independente dos fatos, aquilo que realmente influencia as crenças das pessoas em torno da realidade é quem é atingido pelo conjunto de sentenças. Exigir que essas sentenças tenham alguma relação com o mundo é um exagero pueril nos dias de hoje. O mundo real não tem condições de se manifestar em nenhum setor da vida privada das pessoas. A dicotomia entre internalismo e externalismo nunca foi tão evidente.

Podemos tomar como exemplo a completa judicialização da vida política nacional. Independente de ela expor a fragilidade e o perigo de o judiciário estar se tornando um partido político, os populares sem filiam a essa ideia com bastante afinco. Inegavelmente, é bastante revigorante para a opinião pública ver figuras que, até pouco tempo atrás, esbanjavam em pomposas - e cafonas, aliás - festas na Europa indo parar na cadeia. Na medida em que isso vai acontecendo, a corrupção institucionalizada do próprio judiciário, junto com seu poder de barganha, vai ganhando força e, sem alarido, não chamam atenção aumentos salariais de quase 50%, nem vales-alimentação que cumpririam duas ou três folhas de pagamento de um professor do mesmo estado.

A curva do gráfico da epistemologia chega ao ponto mais alto quando as redes sociais são as principais referências para pautar o noticiário tradicional. A relevância de determinado assunto está diretamente condicionado a quantidade de memes que o personagem principal consegue movimentar. O interesse público não é pelos fatos envolvidos no cenário político, jurídico ou social, muito menos por deixar claro o histórico de absurdos que levou as coisas a esse patamar bizarro. Vale é a quantidade de likes.

Com a hegemonia da pós-verdade, até a mentira vale como verdade, dependendo de quem ela detrate. Os fatos não são tão interessantes quanto a caixa de comentários das redes sociais e isso transforma nossa geração na primeira completamente desconectada do mundo real.

Uma excelente maneira de identificar esse tipo de hiper-indivíduo é observar a velocidade com a qual ele se filia a uma determinada causa: a favor das ocupações nas escolas, "esses alunos são heróis"; a favor da polícia cumprir a reintegração de posse arrebentando a cabeça desses "doutrinados pelo sistema de educação comunista".

A pós-verdade identifica a era dos extremos. Podemos escapar dela transformando a ignorância em uma virtude ou agredindo qualquer um que se manifeste a favor de qualquer mudança que não seja tão radical quanto deva ser. Todo retrocesso da democracia deve ser condenado e o sofrimento se transformará no único método pedagógico.

2 comentários:

Patricia Bittencourt disse...

Tuas preocupações são semelhantes as minhas, vejo muito a formação de opinião superficial sem qualquer base que lhe sustente. É a mulher que achou que a bandeira do Japão era comunista um dos exemplos da ignorância das massas. Tentei trabalhar isso com meus alunos, mas tenho minhas dúvidas se isso é (ou foi) suficiente. Por isso vou pedir teu texto emprestado e replicá-lo na minha página. Talvez até tu vire questão de prova dia 28/11. Com citação de fonte e tudo mais! Abraço.

Everton Maciel disse...

Pode usar como bem entender. Se escrevi, não me pertence mais.