quinta-feira, 23 de julho de 2015

"Quem ama liberta"

Desde sempre, eu desconfiei da tese “quem ama liberta”. Não pela dificuldade de entender o conceito de amor no mesmo contexto da ideia de liberdade. Até aí, tudo bem. Sempre me pareceu difícil tolerar a “prisão”, rainha absoluta e camuflada nessa sentença. “Quem ama liberta” é a típica coisa inventada por um covarde e repetida por vários outros covardes. Uma daquelas mentiras tão insistentes que se tornam verdades irrefutáveis.

Nunca entendi. Mas sou relativamente esforçado e, pelo menos, tento entender.

Não tentar segurar a pessoa amada - quando ela simplesmente não quer ficar - me parece, a intenção mais provável de quem pensou nisso pela primeira vez. Sim. É bem viável imaginar o pseudopoeta vendo a porta se fechar na sua cara, ouvindo a frase “eu não te amo mais”, depois do desfile narcisista “o problema não é você; sou eu”; “nossas vidas tomaram rumos diferentes” e outras coisas criadas para esses momentos delicados, quando a única coisa dizível é o silêncio.

Desiludido, desguampado e cansado de sofrer, nosso poeta incompetente segue amando - porque não é lá coisa muito fácil de se deixar de fazer duma hora para outra, convenhamos. O coitado, por certo, não tem mais forças para tentar manter o objeto de adoração ao seu lado. Exausto e abatido, ele precisa recolher os espólios da guerra na qual foi alvejado por si mesmo. Depois, boceja e fala baixinho, na esperança de que ninguém jamais ouça um absurdo desses: “quem ama liberta”. Isso faz com que ele se sinta melhorzinho. E o absurdo, interditado para o ouvido de todos, invade a mente das gerações posteriores na mesma situação lamentável.

Honestamente, se alguém conseguir uma representação melhor para a covardia humana, estou aceitando sugestões. Preciso tentar entender o nível da idiocracia no qual nos metemos. Gente covarde me mete um medão danado.

Se o raciocínio de quem acredita nessa frase não estivesse errado desde o princípio, não se imaginaria nenhum sentimento negativo atrelado à imagem do amor e, muito menos, à liberdade. O raciocínio correto deveria ser “quem ama não aprisiona” ou coisa do gênero. E isso não tem nada a ver com o desgaste emocional de uma separação. Muito menos com a covardia de se lutar para manter alguém querido o mais próximo possível.

É provável que a liberdade, nesses casos, esteja muito mais próxima de um compromisso tácito consigo mesmo do que com o eventual “diga ao povo que fico”. Eu sei que nos metemos com alguma frequência nesse tipo de encrenca. O que não podemos é culpar o amor ou a liberdade pelos relacionamentos absurdos e aprisionadores. Muito mais imperativo é reconhecer nossa completa incompetência de amar sem possessão. E, quando conseguimos atingir chegar em um nível tão elevado, nada pode nos impedir de conquistar todos os dias um pouco daquilo que realmente amamos. 

Um comentário:

Lia Mel disse...

Muito bom o texto. O problema é que as pessoas amam primeiro o outro e depois, quando conseguem, amam a si mesmas.
Não falo muito com relação aos homens, porque sou mulher, e de mulher eu entendo, justamente porque sou uma. rsrsrsrs
Mulher tem um ego terrível!
Tudo de melhor que ela fizer, jamais será para ela, mas sim para:
Agradar alguém;
Impressionar alguém;
Mostrar que "é" melhor que alguém;
Ou por amor a alguém.
Raras são as exceções em que a mulher sabe do seu lugar no mundo, ama a si mesma, tendo com isso luz própria e desta forma se libertando de si mesma sem aprisionar ninguém.