segunda-feira, 14 de abril de 2014

O papel aceita tudo. Até a civilização

Se tem uma coisa que a gente sabe fazer muito bem nesse país medonho é gastar papel. Deve ser a facilidade que ainda encontramos de ter papel à disposição. Quem sabe, nossa sorte mude no dia que faltar papel higiênico, como na Venezuela. Dai saberemos dar valor pra coisa.


No meio do universos de inutilidade que escrevemos no papel, existe a lei "andar do elevador". Em São Paulo, a tal lei prevê multa. Sempre que eu fico esperando um elevador e olho aquela plaquinha infeliz, penso: como diabos, chegamos em um patamar tão fundo da ignorância e da burrice legislativa?

É realmente inacreditável.

Seria como colocar na porta de cada lugar um aviso informando as pessoas para prestarem atenção no teto, afinal, a qualquer momento tudo pode desabar na cabeça daqueles que estão ali.

Me vi em lençóis sujos no dia em que tive que explicar o tal aviso a um amigo gringo. Óbvio que não fez o menor sentido na cabeça dele. "Quem vai entrar dentro do elevador se a porta abriu e ele não parou ali?"

Ninguém está isento de sofrer um infortúnio, seja pela própria burrice ou pela incapacidade do dono do elevador de manter a manutenção em dia, mas só um coletivo de macacos é capaz de pensar em resolver isso através de uma lei, estampada em uma plaquinha.

Mais do que isso: em São Paulo, a tal lei prevê multa, caso o infeliz desabe no poço do elevador. Ou seja, o cara se arrebenta e é punido. Se o andar da queda for muito alto é provável que ele morra e seja punido. A lei não diz nada sobre o responsável pelo prédio que não garantiu a segurança dos passageiros, nem cita a empresa responsável pela manutenção do veículo de condução vertical. Ninguém fiscaliza, claro.

***

Em Porto Alegre, a prefeitura aprovou uma lei para multar pessoas que jogam lixo no chão ou descartam entulho em local inapropriado. Está vigorando. Sem fiscalização é uma lei tão útil quanto assistir a novela das oitos para entender física quântica. Nesse final de semana, percorri pela manhã o principal local de bares, restaurante e boates daqui, a Cidade Baixa, na manhã de domingo, os garis corriam contra o tempo para varrer as latas de cerveja e copos de plásticos espalhados junto a urina. E a lei? Tá lá. No papel.

Ninguém será multado. Ninguém será punido. Nada vai acontecer na prática. É nosso hábito retardado de escrever uma idiotice qualquer em um papel, virar as costas e pensar que o problema está resolvido.

Merecemos o que há de pior.

Menos governo e mais Estado, por favor.

Um comentário:

Isabela Carvalho Santos disse...

Forasteira q sou, um dia perguntei para um paulista, por que isso? A resposta foi que acontecia muito da porta abrir, mas o elevador não estar lá, a pessoa caia (claro), processavam os responsáveis e alguns ganharam. Merecemos mesmo!!