sábado, 16 de março de 2013

Entraremos para a história como a geração que viveu em um tempo onde ser covarde é a regra

Só merece andar no mundo as pessoas capazes de dedicarem a vida e a morte aquilo em que acreditam. Todo o resto da humanidade é perfeitamente dispensável ou só serve para fazer média: deve se manter sem opinar e distante da vida pública para não atrapalhar o progresso da espécie.

Não sei exatamente quando a coragem deixou de ser uma virtude moral louvável. Mas minha suspeita bisonha foi confirmada, quando um professor, muito entendido de ética na filosofia antiga - aliás, sentenciou que a coragem não é uma virtude "para todos os casos". Na ideia que ele defende, "a covardia pode ser louvável em determinadas circunstâncias". É o relativismo ganhando cada dia mais espaço.

O argumento usado pelo meu professor coloca a prudência como a virtude das virtudes, na qual todos os outros elementos deve se apoiar como critério. Coragem, temperança, sabedoria e por aí vai.

Resumindo: formamos com isso uma geração de covardes.

A coragem será uma virtude moral louvável para todos os casos da vida e isso não é incompatível com a prudência por um motivo muito simples: a covardia não pode ser uma virtude. Ser corajoso, portanto não implicará nunca em falta de prudência. Ser covarde implicará sempre em falta de prudência. Mesmo que a coragem seja enxotada da categoria das virtudes, ela tem espaço no ambiente dos princípios. Um princípio é algo que vale, a priori, em detrimento do seu contrário. A coragem vale como regra, antes de qualquer experiência.

Ponto. Nova linha.

Por que diabos é interessante ser covarde, hoje em dia? Somos covardes, basicamente pela altíssima complexificação das relações sociais. Como estamos mais próximos de nos relacionar com outros de nossa espécie, precisamos cada vez mais do estado para intermediar esse processo. A consequência disso, é exigir que o estado faça tudo por nós, desde resguardar a nossa saúde, educação e segurança, até dizer o que podemos ou não consumir e pensar.

Admiro religiosos e militares dedicados, mesmo detestando tudo que as forças armadas e a igreja fez ao longo da história. Dedicar a vida e a morte ao que se acredita com uma convicção honesta é, definitivamente, uma virtude. Eu, ateu e liberal, preciso aprender a ter disciplina e força de caráter com militares centralizadores e religiosos alucinados. Não existe outro caminho para ser relevante enquanto se vive.

Pouco importa se um milhão de pessoas está convicta em seu erro e um único indivíduo está incerto em seu acerto. O erro não será menos equivocado e o acerto não será mais errado. De pouco valeu a opinião da grande maioria sobre a escravidão no século 19. O iluminismo deveria varrer a escravidão deliberada e o fez. De pouco importa a opinião da maioria sobre a união de homossexuais: eles devem ter o direito de fazê-lo e acabou a conversa. Quem não aceitar isso que afie suas espadas e venha tentar usá-las comigo. Basta saber que me encontrará pronto para me defender.

Enquanto o império da covardia e do conforto permanecer, seguiremos da mesma forma em que nos encontramos: fracos, mimados e irrelevantes. Os concursos públicos serão a saída para receber parte desse público. Outros se filiarão a coletivos e movimentos sociais. A classe média comprará uma bicicleta. Afinal, trocar o carro por uma bicicleta pode não resolver problema prático algum, mas é um alívio na consciência pesada de qualquer covarde.

4 comentários:

Isabela Carvalho Santos disse...

No texto curto ou longo, sendo ranzinza ou frugal, você escreve bem e ponto.

Everton Maciel disse...

obrigado, isabela.

Helyda disse...

O melhor texto seu que já li.
Tô fã!

Paaulo disse...

Isso me lembrou a música Blues da Piedade.