sábado, 24 de dezembro de 2011

Calor

Juca Fortes, de Santa Rosa, com o termômetro marcando 44°C.

O termômetro da rua marca 40°. Uma moça, carregando enfeites de natal, sai de uma loja. Na mesa de um bar um grupo de amigos, com uniformes de futebol, toma cerveja e fala alto.

- Gatinha, vem enfeitar o pinheirinho lá de casa.

A garota finge que não ouviu e continua.

Um “Robô Papai Noel” balança a cabeça e canta “Jingle Bell”.

Uma garotinha, de mais ou menos quatro anos de idade, enche a paciência da sua mãe.

- Eu quero uma boneca grande, do meu tamanho. E quero daquelas que falam.
José Nilton, em seu uniforme de vigilante, carrega um ventilador e anda apressado.

Um carro de som passa anunciando:

- Grande festa popular de Natal, com chegada do Papai Noel e acendimento da árvore de Natal na Praça da República. Hoje a partir das oito horas da noite. Venham todos com suas famílias celebrar o nascimento de Jesus Cristo. O comércio vai ficar aberto até mais tarde.

O vigilante aperta o passo e não descuida de seu ventilador.

José Nilton é um homem solitário, seus pais já haviam falecido há muito tempo, a namorada o deixou por um problema de incompatibilidade financeira: ele não podia comprar um vestido novo para ela usar na virada do ano. Mas ele estava orgulhoso por dentro, havia arrumado um “bico” como vigia da praça, mais especificamente da Árvore de Natal. Agora sentia que estava trabalhando numa causa nobre: iluminar o Natal das pessoas. Era o seu primeiro dia de trabalho, 15 de dezembro, e era garantido que junto com os reis magos viria seu ouro tão esperado.

A Árvore era mais uma dessas belezas piramidais, ele não entendia muito bem o porquê de chamar uma pirâmide de árvore, mas tudo bem. Tinha sido feita com material reciclado, isto ele entendia, o mundo precisa preservar o meio ambiente. Tinha luzes de todas as cores, e se gastava muita energia elétrica ele não sabia, também não importava. O que o José queria mesmo era ligar as luzinhas. O João Carlos, amigo de infância e secretário de obras da prefeitura, responsável por toda a decoração natalina, e também, por contratar o José para uma função de imensa responsabilidade o esperava na praça.

Ao chegar à praça, João já o esperava alegremente afoito.

- É hoje Zé. Já esta tudo pronto, até já fizemos um teste, já já esta praça vai estar cheia de gente, logo vou te mostrar aonde você vai ficar.

- Olha... Mais uma vez quero te agradecer, sei que esta função é muito importante e obrigado por lembrar de mim.

- Que é isso, amigos são pra essas coisas, ainda mais no Natal. Vamos, vou te mostrar o lugar que preparamos, é modesto.

- Não tem problema, fico em qualquer lugar, o importante é cumprir minha função.

- É assim que se fala. Mas você vai ver que é um lugar bem legal.

Os amigos cruzam ao lado do obelisco-árvore-piramide e afastada a uns 50 metros está uma casinha de dois por dois de madeira, com uma janela de meio metro quadrado que dá de frente pra árvore, o teto é de madeira, na verdade a coisa mais parece uma caixa.

- Muito bem... Vou explicar como tudo funciona. Todos os dias você chega neste horário, sete e meia da noite, vem direto pra casinha e tira o tampo de madeira que você vai colocar na janela todos os dias quando sair, também não pode esquecer de trancar a porta. Daí, aqui dentro, estão os controles, você vai acender todas as lâmpadas, acende, fecha a casa, verifica se esta tudo em ordem, todas acenderam, nenhum curto circuito, volta, abre a casinha e desliga as luzes, daí fecha de novo e pode ficar pela praça até às oito e vinte e cinco, volta e fica apostos para acender tudo as oito e meia e colocar o CD de músicas natalinas pra tocar. Entendeu?

- Até agora...

- Então o que você vai fazer é ficar aqui dentro até as quatro da manhã, que é quando você apaga tudo e pode ir pra casa, sem esquecer de fechar a casinha. Certo?

-Certo.

- E tem outra coisa, você é responsável pelo funcionamento da árvore, esquece essa coisa de vigia. É pra isso que eu vou te deixar este rádio comunicador, qualquer problema você aciona os vigias.

- Mas e se tentarem quebrar alguma coisa?

- Aciona o vigia. Se tranca, na casinha e aciona o vigia.

- Tudo bem.

- Então agora que você entendeu tudo eu vou te deixar com o Olímpio, técnico de som e luz da prefeitura. Ele vai te ensinar melhor os detalhes do equipamento, eu ainda tenho que me preparar para o cerimonial. Boa sorte e eu sei que vai dar tudo certo.

- Mais uma vez obrigado meu amigo.

João segue na direção de um grupo de vereadores e empresários da cidade. Olímpio começa a explicar que o botão tal é pra isso, a chave tal é pra aquilo. José Nilton está maravilhado. Olímpio mostra a única tomada de luz pra ligar o ventilador e sai dizendo:

- Não vai fazer cagada. A “deixa” pra acender a árvore é “e damos início às festividades do natal 2011”. Entendeu?

- É claro, pode deixar comigo.

José Nilton liga o ventilador na potência máxima e começa a ver a movimentação aumentar. Chega a protocolista, depois vão chegando autoridades, e tem criança pra todo lado. Algumas pessoas chegam com suas cadeiras, sentam cruzam as pernas e vão fofocando. E tem algodão doce, cachorro quente, pipoca, churrasquinho, e cadê o Papai Noel? Ouve-se a sirene dos bombeiros, lá vem chegando o bom velinho em cima do carro da corporação acenando e jogando balas, e as balas vão se espalhando pelo chão e derretendo com o calor. A protocolista da umas batidinhas no microfone, e fala e fala e sempre a mesma coisa que ele já ouviu nos 45 natais dos quais tem lembrança. E tome discurso, e tome água, e o ventilador não da vazão e aquela ansiedade absurda de ver um obelisco-árvore-piramide todo iluminado.

- E damos início às festividades do Natal 2011.

E ele mete o dedo no botão. Tudo se ilumina. Põem pra tocar uma musiquinha. Todos estão lá olhando e sabemos que estão pensando: era isso, eu sabia que era isso, nem devia ter vindo ver. Mas já que estamos aqui vamos fazer uma social.

Naquele abafamento o “Responsável Técnico da Árvore de Natal” começa a pensar no fato de ter que ficar ali até as quatro da manhã. O ventilador começa a perder a força.

- Não acredito. Era só o que me faltava, ficar sem ventilador. Vou falar com o João. Espera ai, ele esta todo entretido com os comparsas dele. E se eu sair daqui ainda vai me dar uma bronca. Vou aguentar. Mais tarde quando não houver mais ninguém eu dou um jeito de apagar algumas luzes. É provável que essa geringonsa volte a funcionar.

Enquanto o povo se diverte o pobre Zé num calorão dos diabos, sorriso amarelo no rosto, a pele das coxas assando dentro das calças de tecido grosso, o colarinho embebido em suor, o fedor de asa chamando moscas. Pobre Zé, imbuído do espírito natalino que ultrapassa as fronteiras do ridículo e já querendo se comparar ao Papai Noel, a única pessoa que esta usando uma roupa inadequada para a estação, segura as pontas até as quatro da manhã. Não apagou nenhuma luz e não abriu nenhum botão da camisa.

No dia seguinte decide levar consigo um leque, coisa que nunca imaginou que iria usar. Foi numa loja e comprou um leque muito discreto, era de papel preto sem frescuras. Levou também o ventilador, vai que a coisa funciona. Chegou na hora certa e procedeu como combinado. Ligou o ventilador, tudo certo funcionando a todo vapor. Ligou a árvore, ventilador fraquinho, usou o tal leque. No outro dia acordou às duas da tarde com uma baita dor no pulso. Pensou: é daí que vem a baitolagem de quebrar o pulso.

Mas o dever lhe chama. Agora ele encontrou uma nova solução, comprar um borrifador, esses de barbeiro-jardinheiro-designer de arranjos. Então ele tinha um borrifador com água especial, uma mistura de água da torneira e essência de eucalipto, isso junto com o leque e o ventilador que rodava numa potencia menor que a mínima, na verdade as hélices mais acariciavam o vento do que qualquer outra coisa. Cumpriu o seu dever e foi pra casa, exausto.

Quando acordou aquela porcaria de “água especial” tinha causado uma alergia daquelas na cara do homem, o pulso continuava doendo e o ventilador ainda era a melhor solução. Foi à farmácia e comprou uma pomada pra alergia. Passou no mercado e comprou uma bacia, e gelo, um tipo de água cara pra caramba. Agora sim, leque para abanar e água gelada nos pés para refrescar.

- Vou apagar algumas luzes, assim como se estivesse fazendo um efeito, vamos ver se ajuda a fazer funcionar o ventilador.

Deu certo desligar algumas luzes, cada vez que ele apagava um conjunto de luzes o ventilador passava a rodar mais rapidamente. Era só ir intercalando, leque, gelo, e ventilador. Estava achando que ia dar pra aguentar daquele jeito. Foi pra casa, satisfeito.

Acordou com um telefonema do João. Eram oito da manhã.

- Mas que porcaria foi aquela ontem. Você achou que eu não iria ver. As luzes piscando, quem te deu ordem pra fazer aquilo, está se achando artista?

- Desculpa, eu achei que ficou bonito o jogo de luzes.

- Você não tem que achar nada, e muito menos inventar moda. Só faz o que eu te mandei. Não quero mais ter que chamar a atenção.

- Sim, nunca mais vai se repetir.

- Muito bem.

João voltou a dormir e acordou como de costume as duas da tarde, agora com febre e espirrando. Não sabia mais o que fazer. Foi à farmácia comprar remédio pra resfriado. Estava pensando seriamente em desistir. Ao passar em frente a uma loja de Um Real encontrou um pequeno ventilador a pilha. Exclamou.

- Como não pensei nisso antes!

Comprou o ventiladorzinho e um monte de pilhas. Bom... Só na primeira noite com o ventilador já gastou oito pilhas AA. E não era grandes coisas o vento que fazia. Agora ele já estava bravo, tinha investido muito num trabalho que não iria remunerar tão bem. Resfriado, sem um tostão no bolso, enlouquecendo ao som de uma mistura de musiquinhas natalinas, com um monte de músicas de duplo sentido que começam a tocar no Natal pra que possam virar sucesso no Carnaval. João decide continuar mesmo assim, ele assiste muita televisão e o slogan “Sou brasileiro e não desisto nunca” é seu lema. Vai para casa como de costume, agora com a sensação de que seu trabalho é importante, e por isso ele deve se esforçar mais ainda para iluminar o Natal das crianças, o Natal do Menino Jesus.

Continua cumprindo sua rotina. Suor e emoção de um trabalhador brasileiro. Assim ele pensa seu dilema: através da espiritualidade supero as fadigas do corpo.

Dia 24 de dezembro. José Nilton, homem solitário e de coração puro, sai de casa no horário de costume com uma grande caixa, um embrulho verde escuro lustroso com um tope vermelho. Ao chegar ao trabalho faz tudo seguindo a risca o protocolo, afinal não poderia dar nada errado no grande dia. Exatamente às 11 horas e 50 minutos fecha a janela e a porta. Algumas pessoas que estão ao redor do obelisco-árvore-piramide acham estranho, mas pensando bem, ele já deve estar acostumado e cansado de ver esta árvore. Agora é o momento de reflexão do Zé.

Dentro da cabine, o Zé abre a caixa, tira de dentro uma galinha assada, uma garrafa de vinho branco barato, alguns pães, uma lata de goiabada, um pedaço de queijo. Tira de dentro da caixa um T elétrico e três ventiladores. Ele liga os três ventiladores que não funcionam obviamente. Ele olha no relógio. Doze horas. Aperta um botão, apaga completamente a árvore de Natal, o povo grita enlouquecidamente, os ventiladores funcionam a todo vapor. Até deus descansou no sétimo dia.

Dentro da cabine, o Zé abre a caixa, tira de dentro uma galinha assada, uma garrafa de vinho branco barato, alguns pães, uma lata de goiabada, um pedaço de queijo. Tira de dentro da caixa um T elétrico e três ventiladores. Ele liga os três ventiladores que não funcionam obviamente. Ele olha no relógio. Doze horas. Aperta um botão, apaga completamente a árvore de Natal, o povo grita enlouquecidamente, os ventiladores funcionam a todo vapor. Até deus descansou no sétimo dia.

Um comentário:

Ana Elisa Bobrzyk disse...

Você é do mal. Não gosta do Papai Noel.