quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Diretor da Fenaj me chama de idiota, eu rio e bato palmas

  • Sobre a questão do Diploma:

    Everton Maciel
    Jornalista que quer se especializar não perde nada: faz especialização, mestrado, doutorado, fala 4 línguas e segue em frente. Enquanto isso, os outros, lá no fim da fila, com tudo a perder - pois, só carregam consigo seu 'deproma'-, têm de...Ver mais
    há 4 horas ·
  • Jose Carlos Torves Da onde saiu um idiota destes? Não acredito.


José Carlos Torves é sindicalista. Mais especificamente, diretor da Fenaj, órgão que representa os jornalistas diplomados do Brasil. Há alguns anos, cheguei a entrevistá-lo em programas de rádio, com repercussão no jornal onde trabalhava naquela época. Quando eu tiver tempo, uparei a entrevista no YouTube. Tenho o áudio guardado. Para me agradecer, Torves me mandou um livro que nunca toquei. Sequer lembro o nome ou onde foi parar. Sua memória fraca, não o permite lembrar que tipo de idiota eu sou. Mas eu ajudo: sou do tipo normal, como todo idiota que discorda do protecionismo patrocinado pela instituição que deveria unir nossa categoria.

O dia que uma figura como a de Torves me fazer perder a elegância, largo a profissão e viro sindicalista. Por ora, como não sou a Fenaj, nem participo do seu discurso mono-opinativo, eis a entrevista que minha colega Ana Zyk se deu o trabalho de transcrever.


Entrevista: José Carlos Torves

“A comunicação é tão estratégica quanto a política”

O jornalista José Carlos Torves lançou recentemente o livro "Televisão Pública", resultado de sua pesquisa para o mestrado de Comunicação Social da PUC de Porto Alegre. A obra trata dos conceitos de televisão pública, estatal e governamental. O assunto gera pautas polêmicas nos noticiários impressos e eletrônicos de todo Brasil, já que o Governo Federal anunciou a criação de uma TV mantida com recursos estatais, que deve entrar no ar no dia dois de dezembro. No projeto, serão empregados R$ 350 milhões por ano para manutenção da estrutura. O orçamento e o medo de que a veículo público se torne uma ferramenta propagandista de governo são algumas das questões que polemizam essa iniciativa.

Além disso, no meio sindical, Torves milita na busca da regulamentação da profissão de jornalista. Com isso só poderiam trabalhar em jornais e veículos de comunicação profissionais graduados em Comunicação Social e habilitados em Jornalismo. A medida também movimenta constantes debates que deságuam em disputas judiciais. Atualmente, o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande Sul atua, em Brasília, como diretor da Federação Nacional dos Jornalistas.


Everton Maciel

Sítio Santa Rosa em Dia – No seu material de mestrado o senhor diferencia TV’s públicas e estatais. Como funcionam as diferentes estruturas?

José Carlos Torves – Sempre me intrigou muito essas questões das emissoras educativas serem chamadas de públicas. Porque elas são sustentadas por verbas públicas – pra mim a única coisa, realmente, pública é o dinheiro público – mas, na verdade, são instrumentos de quem está no governo naquele momento. Eu acho que deveria haver alguns pré-requisitos para serem chamadas de públicas. No Brasil, não há televisão pública. Não existe. É uma forma de enganar a sociedade, dizendo que ela tem uma televisão. Quando, na verdade, essa televisão é governamental. Em todo Brasil nós temos 17 TV’s educativas. Todas funcionam desta forma: o governo colocando presidentes, dizendo aquilo que deve ser tratado, com excessos de cargos de confiança.

Nós temos vários exemplos no mundo de TV’s públicas, a mais famosa é a BBC de Londres. Ainda temos na Alemanha, nos Estados Unidos... todas têm pré-requisitos e outros formatos para se tornarem públicas e não instrumentos de governo.

SRD – O senhor é otimista com esse novo canal chamado de público que entrará no ar em dezembro?

JCT – Pois olha... no início da proposta, eu acreditava que havia boas intenções de sair uma televisão pública. Até sou amigo pessoal o Franklin Martins. Estive umas três vezes, depois do anúncio, conversando com o Franklin. Passei um livro meu pra ele; ele leu e tal... e aí, ele me chamou no Planalto, e me disse: “olha o modelo que está sendo proposto pelo Governo é assim”. Eu digo: “mas isso nunca foi público!” É mais uma TV de governo. Mais uma televisão que gastará verba pública da sociedade. E a gente está vivendo um momento importante no país: a digitalização, que é a entrada de novas tecnologias, a convergência das mídias, onde nós em pouco tempo poderemos assistir televisão, acessar a internet, ouvir rádio e telefonar. Tudo através do mesmo aparelho. Digo: perde-se uma oportunidade raríssima de se fazer uma TV, realmente, pública de acesso à sociedade e com um custo baixíssimo. Onde, por exemplo, as pessoas que não têm acesso, hoje, à internet e ao telefone poderão ter em qualquer canto do Brasil com qualidade. Mas, dessa forma que está sendo programada, será mais uma televisão de estado.

SRD – O dinheiro que o Governo gasta com publicidade nos canais comerciais pode mudar?

SCT – Não. Acho que não muda nada. Vai só se aumentar o gasto de dinheiro público. Por exemplo, fala-se nesses R$ 350 milhões, que o Governo investirá. Mas – embora, para nós trabalhadores, esse dinheiro seja uma muito – para montar uma televisão é pouco dinheiro. Então, com certeza, vai muito mais dinheiro do que isso. Ainda mais com a compra de equipamentos novos e tendo que digitalizar a Rádiobras e a TV Educativa, que se fundirão para a criação dessa nova televisão que se chamará TV Brasil. Quer dizer: o dinheiro que se gastará, no fim das contas, é uma enormidade. Para você ter uma idéia: a TV pública americana tem um orçamento de U$ 6 bilhões. A BBC tem U$ 8 bilhões/ano. Então, R$ 350 milhões para serem aplicados em TV é um dinheiro muito pequeno.

SRD – Os atuais modelos aplicados no Brasil carecem de recursos. Seria esse um dos motivos da ausência de qualidade e, conseqüentemente, de sucesso?

SCT – Com certeza. Essa é uma das coisas. O governo, apenas, banca a folha de pagamento, mantém uma estrutura mínima – com deficiência na qualidade –, serve de um grande cabide de emprego, não é? E isso, de certa forma, como é uma televisão que não tem compromisso com a sociedade, mas, sim, com o governo, faz uma programação medíocre. Para que haja uma melhoria na qualidade dessa informação não precisava encher de tantos funcionários. Por exemplo: nós poderíamos ter 50% da programação sendo ocupada por produção independente. Isso abriria o mercado de trabalho, daria uma diversidade de opiniões. Grupos, que hoje não em têm acesso aos meios de comunicações, passariam a ter – tipo: movimento negro, esses movimentos de gays, que estão marginalizados da sociedade. Eles teriam acesso com produtoras independentes. Apresentariam programas com as suas versões. Isso enriqueceria a própria programação da televisão. Grupos de empresários que também não tem acesso – porque a gente sabe, que na televisão comercial, hoje, apenas a elite de cada estado é vista diariamente. O médio e o pequeno empresário não têm acesso. Então, nós teríamos diversidade cultural, programação regional mais ampla. E não estaríamos, por exemplo, adotando a cultura do calçadão do Rio de Janeiro em todo Brasil. Eu viajo muito pelo País. É normal chegar lá em Rondônia ou em Roraima e ver os jovens se comportando do mesmo modo como em Ipanema no Rio: veste-se igual, fala igual, curte as mesmas músicas... isso acaba com as identidades regionais. E a televisão teria que ter esse compromisso, se ela fosse pública, não é?

Mas eu acho que continuará essa reserva de mercado. Para você ter um parâmetro: o Brasil é o único país onde a televisão, que detém o canal de transmitir a informação, produz tudo que transmite. Isso é só aqui! Nos outros lugares, há as produtoras independentes. Você mesmo monta uma produtora, faz o material com um colega seu, e apresenta em todo estado, por exemplo. Isso possibilitaria novos mercados de trabalho e renda. Não concentraria tudo nas mãos de um só. E, ao mesmo tempo, não teríamos essas TV’s públicas inchadas de gente. A gente gosta tanto de copiar outros modelos, num sistema neoliberal. Por que não copiamos as coisas boas também?

SRD – Como deveria funcionar a direção de uma TV pública?

JCT – Uma TV, para ser pública, tem que ter um conselho deliberativo da sociedade com vários segmentos representados – trabalhadores, professores, empresários... – e que a direção dessa televisão deva ser indicada por esse conselho, com um critério de escolha. E não, apenas, o cara que ajudou na campanha do seu-fulano ser indicado para presidente, como ocorre em todo País.

SRD – O senhor defende há muitos anos a regulamentação da profissão de jornalista. Quais são os princípios disso?

JCT – Bom, nós entendemos assim: quem trabalha com jornalismo deve ser uma pessoa que tenha uma formação acadêmica. Temos várias categorias trabalhando nos meios de comunicação: os radialistas, os gráficos, os jornalistas. No caso do jornalismo que trabalha com informação, esse entendemos que ele tenha que ter uma formação acadêmica. Porque o jornalismo tem uma grande responsabilidade com a qualidade, com a ética, com a verdade. E essa pessoa tem que estar preparada para trabalhar com esse tipo de questão. Então, é fundamental que ela tenha uma formação acadêmica. Se um engenheiro tem que ter o seu diploma, o seu registro, para construir uma casa que não caia na cabeça de alguém, um médico a mesma coisa, um advogado também, o jornalista tem que ser uma pessoa qualificada. Porque ele pode, sendo desqualificado, criar um dano para a sociedade no momento em que ele dá uma informação distorcida ou sem qualidade. No Brasil, nós precisamos, urgentemente, entender que a comunicação é tão estratégica quanto a política ou a economia. Estamos num período da digitalização, da globalização, onde a informação é estratégica para qualquer país. Então, tem que ter uma pessoa qualificada trabalhando.

As grandes redes nacionais têm se contraposto a isso. Elas são contra que o jornalista exerça a profissão no jornalismo. E essa é a disputa judicial que nós estamos empreendendo. Por que as grandes redes têm essa questão? Por exemplo, a Folha de São Paulo há muitos anos vem lutando contra o diploma de jornalista. Porque, embora a Folha pague ótimos salários a seus profissionais, ela quer que escreva ali a elite cultural de São Paulo que, às vezes tem outra formação. O jornalista, em geral, ele não é daquela elite. Então, o cara tem pensamento próprio. E a Folha de São Paulo quer um cara escrevendo ali de acordo com seus interesses. Então essa é a situação das grandes redes. Engloba, além da Folha, Estadão, Veja, IstoÉ, Globo. São as principais que têm essa defesa contra o jornalista ser diplomado.

Já no interior do País, o empresariado prefere que não tenha [diploma], mas é unicamente para poder pagar menos. Aí tu não precisas cumprir piso salarial. Podes pegar um menino com segundo grau, que escreva razoavelmente bem, pagar salário mínimo e o cara está ali escrevendo.

SRD – Para justificar essa posição como o senhor definiria o jornalismo?

JCT – O jornalismo é uma profissão técnica, onde esse trabalhador deve ter uma boa base cultural para contribuir para o avanço da sociedade, entendeu? Eu acho que é uma profissão técnica. Essa é a classificação para jornalista. Então, nós viemos enfrentando uma série de ações dos empresários, querendo acabar com esse pré-requisito que é a formação em Jornalismo para exercer a profissão. Esse processo está no final, aqui no STF, nós estamos acompanhando. Mas temos certeza que o país dará uma um passo à frente e não um passo à trás.

2 comentários:

Anônimo disse...

"O jornalismo é uma profissão técnica"... para de levar a sério essa gente.

Anatolio Pereverzieff disse...

Como é que pessoas inteligentes que lêem algo podem perder tempo com essa gente que não quer saber de cultura, de educação, de desenvolvimento, de falar com com nexo!
Pajalusta!