terça-feira, 6 de março de 2007

Entrevista: Boris Casoy

"O debate ideológico está ultrapassado"

Atingido pela poliomielite, e sem poder caminhar entre um e nove anos, restava para o herdeiro caçula da padaria Casoy se conformar com a posição de goleiro no time do colégio. Antes de ser reconhecido como um dos maiores jornalistas brasileiros, Boris Casoy também foi o maior jogador de pebolim que São Paulo já viu. Na Folha de S. Paulo, SBT e Record deixou marcas do seu profissionalismo. Em entrevista à Rádio Noroeste, o homem que prefere não ser chamado de “senhor” fala sobre a imprensa no Brasil e na América Latina. Mostra também quem é o Boris por trás do bordão “isso é uma vergonha”.

Everton Maciel

Reportagem – Depois de tantas ditaduras, qual, para o senhor, é a importância da imprensa na América Latina? Principalmente no atual contexto, onde temos na vizinha Venezuela um presidente ameaçando veículos por, simplesmente, não se renderem aos seus caprichos.
Boris Casoy – Todos nós somos testemunhas da importância do papel da imprensa, não só para a preservação da democracia em si, mas para a defesa da cidadania. Com uma imprensa livre, você acrescenta ao cidadão uma arma de defesa dos seus mais legítimos interesses democráticos. Claro que uma imprensa livre pode cometer desatinos e falhar... claro que ela pode estar à serviços de interesses pessoais. Mas no frigir dos ovos, com todos os seus defeitos – assim como a própria democracia – uma imprensa livre acaba sendo uma arma contra a injustiça e o autoritarismo. Claro que é preciso tomar cuidado: estou falando de todo o tipo de imprensa. Mas não podemos sacrificar toda instituição pelo fato de existirem manchas dentro dela.

Reportagem – No Brasil, há pouco tempo, foi resgatada a discussão sobre as correntes políticas de esquerda e direita (depois do presidente Lula declarar que teria se tornado “político de centro”). Voltando esse debate para o campo da imprensa: o senhor entende que possam existir veículos – principalmente impressos – comprometidos ideologicamente com um ou outro lado?
Casoy – Isso é normal. Podemos defender quaisquer tipos de idéias – políticas, sindicais, religiosas, lógicas ou estapafúrdias... faz parte desse contexto da livre imprensa, dentro da democracia. Agora, quanto ao debate ideológico, acho que ele está ultrapassado. A tentativa de ressuscitar a extrema esquerda, o marxismo são pantomimas! Tudo isso é facilmente constatável pelo que acontece na Venezuela, no Equador e na Bolívia: são regimes muito mais ligados à demagogia – ao populismo – que, muitas vezes, pode ser visto como de direita ou de esquerda, do que regimes com objetivos ideológicos sérios. O mundo moderno – a evolução das comunicações, os mercados globalizados – não permitem mais esse tipo de análise voluntarista, onde as pessoas acham que as soluções estão muito mais nas vontades que elas têm, do que nas razões lógicas. Um mais um é dois em qualquer regime. Sem dinheiro não se governa. Daí essa dificuldade em se imaginar que um governante hoje possa ser fiel ao que pensava há alguns anos. Fica difícil. A não ser que se parta, como citei, para uma pantomima: regimes verdadeiramente teatrais no estilo da Bolívia, do Equador e, especialmente, da Venezuela, sem nos esquecermos do regime cubano. Há o mito de que Cuba seja uma democracia! Veja que absurdo! Gente, Cuba tem fome! Como em qualquer lugar do mundo, o comunismo não deu certo em Cuba. Ainda na ditadura de Fulgêncio Batista, Cuba tinha um PIB maior que o da Espanha. Veja o que é hoje: uma das rabeiras do mundo. É fácil culpar o boicote dos americanos. Mas é um fracasso.
Políticos sociais, com identificação marxista, já abandonaram isso no mundo todo. O Capital, de Marx, é um ótimo livro... se você tiver insônia.

Reportagem – Na Europa, busca-se uma banca de jornais sabendo declaradamente o que se vai comprar. No Brasil, nesse campo ideológico, parece haver uma tentativa dos veículos de vender uma determinada imparcialidade. O senhor concorda com isso? Como a experiência do senhor vê essa questão?
Casoy – Essas configurações têm muito a ver com a cultura local e com o mercado. Uma revista ou um jornal – rádio e TV são concessões públicas, portanto é diferente – mas a imprensa toda não tem porque ser neutra. Se ela se anuncia como imparcial e, verdadeiramente é, isso será reconhecida pelo seu público. Na Europa e nos EUA essas visões e apoios são declarados. Aqui, muitas vezes, não são claros, mas sabemos que os apoios e desapoios existem. Mas existe, também, esse mito de que a imprensa deve ser neutra. Essa neutralidade, em uma democracia, não é esperada. Se for neutro, ótimo. É tão importante ser neutro como ser ligado à alguma corrente. O leitor, telespectador e ouvinte deve reconhecer isso. E escolher.

Reportagem – O Boris Casoy foi, ou ainda é, comprometido com alguma dessas correntes ideológicas?
Casoy – Claro... já fui taxado de direita. A falecida revista “O Cruzeiro” me incluiu na lista do Comando de Caça aos Comunistas. Não fui! Aos 23 anos, participei do movimento de 64. Era um estudante, no momento em que se achava que o país caminhava para uma ditadura de caráter marxista. Sinceramente, considero-me um democrata ativo. O que escrevi e disse, durante minha carreira profissional, demostra que o apavorante, para mim, é o autoritarismo e totalitarismo, tanto à direita quanto à esquerda.

Reportagem – O senhor mencionou a revista “O Cruzeiro”. Chegou a ter contato com o lendário Francisco de Assis Chateaubriand?
Casoy – Não. Eu vi ele, dei a mão, mas era um menino... um jornalista muito jovem... digamos que foi um contato de terceiro grau.

Reportagem – Uma das suas grandes marcas profissionais é justamente fazer o papel de âncora que noticia e opina. Qual o segredo para fundir e, ao mesmo tempo, separar essas funções tão diferentes, sem que uma prejudique a outra?
Casoy – Depende de como as pessoas vêem. Para algumas prejudica. Para outras ajuda. O fato é o seguinte: o jornalismo opinativo é importante num país como o Brasil. Logo que acabei lançando esse tipo de ancoragem, se estabeleceu uma enorme polêmica. Mas as pessoas que condenaram isso estão aí, comentando nas emissoras de televisão! É um dos estilos adotados, fazer análise. Diferente de criar um noticiário que, aparentemente, não influência, conduz o espectador e não opina, mas que na verdade opina, sim, porque até a seleção da notícia pode representar a posição de alguém.

Reportagem – Na sua opinião, alguém tentou seguir um estilo parecido?
Casoy – É só ligar as emissoras de televisão em todo país e verificar. Elogio em boca própria, eu não faço. Tem gente que aperfeiçoou esse tipo de jornalismo. Tem clone... de baixa qualidade. Existe mesmo... não condeno, não. Até gosto...

Reportagem – O senhor saiu da Record porque não queria fazer um clone do Jornal Nacional?
Casoy – Foi o que me disseram... na verdade, disseram que queriam “modificar o jornal”. Uns meses antes pediram para fazer isso (um JN). Mas prefiro não comentar. A Record é uma página virada na minha vida. Da Record, só quero que paguem o que me devem.

Reportagem – E o seu futuro profissional?
Casoy – Estou contratado pela antiga CNT, futura JBTV – pertence ao Jornal do Brasil. Vamos fazer um telejornal, aqui de São Paulo: o “Telejornal do Brasil”. Isso mostra o vínculo com o Jornal do Brasil.
Fiquei um ano parado. Não é nada bom. Ainda mais num ano que aconteceu tanta coisa. Sentia cócegas na língua. Queria falar e não podia.

Reportagem – O bordão “isso é uma vergonha” vai continuar? Como ele nasceu exatamente?
Casoy – Nasceu sem querer. Estávamos exibindo uma reportagem de um pronto-socorro no Recife. Sabe, aqueles prontos-socorros brasileiros clássicos, onde falta tudo? Doentes dormindo no chão, mau atendimento... e eu lembrei de uma emissora do meio-oeste americano que, quando Kennedy foi assassinado, colocou no ar um letreiro gigantesco: SHAME. Daí, quando a câmera abriu para mim, eu disse três vezes: “isso é uma vergonha”. É uma indignação.
Pretendo usar, se for necessário, sim. A indignação se faz presente no noticiário brasileiro, porque as coisas no Brasil não se inventam, não. Nosso país continua sendo um problema grave, apesar de vivermos um momento interessante da economia.
Um tema que sempre elegi foi a violência... é. Acho que teremos “isso é uma vergonha”. E muito!

Reportagem – Qual é o Boris Casoy que o espectadores não conhecem?
Casoy – (silêncio) Não, eu sou eu mesmo. Sou brincalhão, bem humorado. Faço piada, inclusive no telejornal. Mas o que grava, sobra e memoriza (no espectador) é esse lado mais sério, mais duro. Não é só isso, não. Sou uma pessoa divertida, que brinca muito. Divirto-me muito... risadas de mim mesmo!

Reportagem – O senhor já veio para o Rio Grande do Sul para ter contato com estudantes de comunicação. Aparentemente o senhor gosta de manter essa relação com os mais jovens...
Casoy – Acho interessante não só isso. Gosto muito de estar junto ao público. Universidade é um assunto que me interessa, especialmente, porque lá estão futuros jornalistas. Mas mesmo nas faculdades que não são de jornalismo... direito, enfim. Acho que não devo recusar esse tipo de convite, quando, fisicamente, eu agüento. Mas acho que (com isso) você consegue ter um retorno natural do trabalho. É, para mim, um termômetro muito interessante quando eu consigo fugir desse gueto (eixo Rio/São Paulo)... escutar esse verdadeiro coração do Brasil, que é a população que está longe desses grandes centros urbanos.

Reportagem – Já que o senhor mencionou a universidade: Qual sua posição sobre a questão da necessidade de graduação específica em jornalismo para o exercício da profissão?
Casoy – Sou contra. Não há necessidade nenhuma de diploma. Veja, não sou pelo fechamento das escolas de comunicação. Muito pelo contrário, acho que devem ser melhoradas e muito. Podem formar profissionais muito melhores do que esses que estão sendo “atirados” ao mercado. Jornalismo as pessoas acabam aprendendo, elas acabam “forjando” sua profissão, dentro das redações. É o que continua acontecendo. Acho um atraso de vida essa obrigatoriedade de diploma. Isso cria uma reserva de mercado. Se as escolas são tão boas, certamente, aqueles que cursam terão uma preferência pela qualidade.
Jornalismo é profissão intelectual. Daqui a pouco vão propor a criação de um curso especial para escritor... isso é um horror: você propor que só pode escrever livros, oficialmente, quem tem diploma. Não tem lógica!

2 comentários:

rui Eloi disse...

Me perdoe o amigo. Você pode até ser um apaxonado pelo Cassoy e se sentir legal por tê-lo intrevistado. Eu pessoalmente acho que ELE é uma vergonha e veio estragar este espaço tão legal

Everton Maciel disse...

Caro amigo 'apaxonado' pela ausência de português.
Existem vários tipos de entrevista e é natural que nesse tipo o repórter escolha um entrevistado que tenha algo para transmitir.
Pedes para a gerência do blog meu email, passe-me teu telefone e permita-me que possa explorar tua erudição. Tenho certeza que seria, senão cômico, um bom material científico. Um prato cheio para qualquer psiquiatra.