sábado, 10 de maio de 2014

A Santificação da Maternidade é Fake

Não tenho a menor dúvida de que a roda da fortuna inventou a santificação da maternidade na idade média. Para os poucos que não sabem, a Igreja Católica, durante os seus mil anos de patrocínio da escuridão moral, intelectual e científica, era ainda um pouco menos incoerente do que é hoje em dia. Naquele tempo, claro, eles já acreditavam nessas conversas anti-abortidas todas, estilo "pro-life". Sim. Acreditavam cegamente que o aborto era um assassinato e que a vida tinha um tipo de inviolabilidade intrínseca, como se fosse um valor em si mesmo. A falácia naturalística clássica que dá às coisas no mundo material um valor metafísico impossível de ser demonstrado cientificamente.

Bom. Mas,  ao menos, o clero era coerente. Eles precisavam resolver um problema gerado pela sua própria coerência: o abandono de bebês recém-nascidos em orfanatos. Os lugares estavam ficando abarrotados de crianças abandonadas na roda da fortuna. As chamadas Santas Casas de Misericórdia já estavam ficando lotadas de bocas para serem alimentadas e pastoreadas.

O procedimento da roda da fortuna funcionou, inclusive, no Brasil, por um bom tempo, e isso já nem era mais idade média. Parabéns para a Igreja

E como amenizar a encrenca das crianças abandonadas? Inventando lorota, claro. No século XII, foi estabelecida uma legislação canônica própria para a santificação. O que dava um status diferente para Maria, supostamente a virgem que deu a luz ao messias católico. A nova regra diz o seguinte:

Para fomentar a santificação do povo de Deus, a Igreja recomenda à veneração peculiar e filial dos fiéis a Bem-aventurada sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, que Jesus Cristo constituiu Mãe de todos os homens...
Já pensou a influência desse cânone nas missas de domingo? A rebordosa deve ter pegado geral. O status da maternidade foi alterado para sempre e a mulher deixou de ser uma mera parideira para se tornar uma personificação da multiplicação do povo de deus e, ainda por cima, praticamente uma santidade.

Ser mãe se tornou praticamente uma obrigação da mulher. E aí já viu, né?

Obviamente, o reflexo prático disso recaiu negativamente sobre as mulheres. O aborto deve ter sido ainda mais censurado e a mulher praticamente perdeu o direito de decidir a respeito do seu corpo e o futuro da sua vida.

Bom. Tudo são suspeitas com base unicamente na minha curiosidade e leituras. Não sou historiador. Mas é um sentimento bem plausível. É fato que o status de santidade que a maternidade tem hoje em dia começou em algum momento histórico. Antes disso, a mulher era uma mera ferramenta de reprodução de novos cristãos. Em povos da antiguidade, possivelmente, nem isso. Sendo otimista, a mulher foi, durante muitos séculos, vista como um hospedeiro de novos soldados, agricultores e artesãos.

É triste quando chega alguém e fala que as mães não são mulheres especiais. O raciocínio vigente só atrasa significativamente o processo real de libertação feminina que está em curso desde o século XIX. Esperar razoabilidade com relação a isso é demais. Pelo menos, vou morrer argumentando que a decisão de não procriar é acertada. E, em muitos casos, mais acertada do que o sentimento infantiloide de brincar de bonecas. Especialmente, levando em conta que o sentimento de se tornar pai e mãe é demonstração mais absoluta do egoísmo.

Sem mais, meritíssimo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Não concordo com quase nada, mas, como sempre, está bem escrito.

Lucas D.S.

Fran disse...

Você é o cara!

Danilo Mesquita disse...

Um achismo gigantesco, muito bem escrito.

Justifica-se o aborto com o que mesmo? Ah, com a "falácia naturalística clássica que dá às coisas no mundo material um valor metafísico impossível de ser demonstrado cientificamente".

Como não tinha pensado nisso antes? Você, eu, ou duas cadeiras de Cedro são a mesma coisa. Talvez as cadeiras sejam mais raras, não tá fácil achar Cedro por aí.

Mas, como giló, não preciso concordar pra degustar. Teus textos são sempre bons de se ler.