terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ora, oficialize-se!

Everton Maciel

Santa Rosa é uma província a parte, quando o assunto são determinados conceitos populares. A Praça da Bandeira é o mais tradicional ponto de encontro da cidade. Foi nela que durante 60 anos centenas de eventos cívicos aconteceram, e continuarão acontecendo, por ainda muito tempo. Desde protestos históricos de agricultores, professores e estudantes a atos oficiais do Poder Público santa-rosense, especialmente depois da construção da Prefeitura Municipal diante de suas árvores, em 1947, a Praça é referência para o civismo. Sim, a Praça da Bandeira é mais antiga que o palácio municipal! Mesmo não tendo uma denominação oficial (e por vezes sequer ostentando a própria bandeira nacional) com seu consagrado nome, a Praça da Bandeira sempre foi o que é: pura e simplesmente, a Praça da Bandeira.

Mesmo assim, recentemente, a Lei Municipal nº. 4.484, promulgada pela presidente da Câmara de Vereadores, Cláudio Schmidt (PMDB), oficializou o nome da Praça da Bandeira com a denominação de “Praça Presidente Getúlio Dorneles Vargas”. A matéria, proposta em dezembro pelo então vereador Antônio de Paula (PDT), não havia sido sancionada pelo prefeito municipal, Orlando Desconsi (PT), dentro do prazo previsto. Orlando lavou as mãos, por isso lei regressou ao Legislativo, como pede a Lei Orgânica do Município, para ser promulgada.

Vargas, sem dúvida, foi um grande estadista. Definitivamente, “saiu da vida para entrar para a história”, como previa a carta testamento, confeccionada momentos antes do seu suicídio no Palácio do Catete. Tanta popularidade faz com que Getúlio seja o presidente mais homenageado da história do Brasil. Trata-se de uma tarefa difícil encontrar uma cidade brasileira, entre as 5.564, onde não haja uma rua, praça ou monumento rendendo graças a sua memória. Em Santa Rosa não é diferente: na esquina mais movimentada da própria Praça da Bandeira, repousa o busto de Getúlio com a íntegra da sua carta testamento.

A memória do presidente Vargas não merece ser afetada. Mesmo diante das polêmicas históricas envolvendo seu nome: Getúlio é tido como ditador por uns e aclamado, por outros, como “pai dos pobres”. No entanto, a nova nomenclatura não é menos absurda. Fere diretamente o reconhecimento popular, cívico e de neutralidade política da denominação consagrada popularmente. Não obstante, não serve como justificativa para o novo nome o fato do busto do presidente estar disposto naquela área.

Outra justificativa, sentenciada no anexo do projeto de Lei assinado por De Paula, não tem um sentido lógico. Nas palavras do então suplente de vereador, “seguidamente os professores do ensino básico têm incumbido seus alunos para que sejam realizados estudos em relação aos nossos logradouros públicos e monumentos, razão pela qual entendemos que os locais públicos de importância merecem ter denominação oficial”.

Verdade. O nome da “Praça da Bandeira” nunca foi oficial. Ora, preste um serviço ao município, oficialize o nome popular! Sem dúvida, seria uma ideia muito mais útil para um então suplente de vereador que assumiu a cadeira do seu partido na Câmara por apenas uma sessão no ano de 2008.

Apesar da ausência de uma denominação oficial, “as correspondências endereçadas à Praça da Bandeira nunca deixaram de chegar”, como lembra o radialista Claudiomiro Sorriso em seu blog, Santa Rosa News Day.

Com todo respeito à memória do ex-presidente Getúlio e a paixão política do ex-vereador e ex-vice-prefeito Antônio de Paula, a Praça da Bandeira continuará sendo aquilo que sempre foi: nossa Praça da Bandeira.

Um comentário:

A Flor do Sul disse...

O nome não importa muito, se o apelido faz mais jus, ou está na boca do povo.
É como o Edifício Altino Arantes, aqui em São Paulo, que todo mundo conhece simplesmente como "o prédio do Banespa", embora desde 2000 o nome não cole mais.