quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

“As pessoas já não acreditam mais no poder público”

Entrevista: Giovani Grizotti

Giovani Grizotti é um dos repórteres investigativos mais laureados do Brasil. Apesar do jornalismo ser investigativo por essência, aquilo que é considerado um ramo particular da profissão de jornalista tem crescido muito. O fenômeno acontece por um motivo muito especial: a imprensa mostra à sociedade aquilo que é desinteressante para as instituições por prejudicar a população. O município de Sapucaia do Sul, por exemplo, foi objeto de duas reportagens de Grizotti no decorrer deste ano: vereadores que contratavam funcionários fantasmas e a fraude da merenda escolar, onde empresas superfaturavam preços e forneciam alimentos de péssima qualidade para escolas públicas foram alvos das denuncias. Uma coisa leva a outra. A simpatia do repórter de 34 anos, 11 deles vividos na RBS, é uma das principais ferramentas para conquistar suas fontes. Com sensibilidade e discrição, muitas reportagens de Grizotti surtem efeitos práticos em curto e médio prazo. Vereadores foram afastados, empresas que cometiam irregularidades foram fechadas e, antes de tudo, a sociedade tomou conhecimento de casos de corrupção que sempre existiram, mas eram escamoteados nos subúrbios do próprio poder. De Porto Alegre, Grizotti conversou com a reportagem por telefone.

Everton Maciel

Blog do Capeta – Foi um ano especial para você do ponto e vista profissional. Tu te identificaste mais com as matérias do campo da política. Algum motivo especial?
Giovani Grizotti
– É o dinheiro público que está em jogo, é voto do eleitor que muitas vezes é colocado fora. Penso que as pessoas merecem esse retorno, porque faz parte do papel da imprensa. Trabalhei muito em casos envolvendo político, principalmente vereadores, que é um segmento bastante problemático, onde há muita corrupção.

Capeta – A população te procura para passar informações porque não tem mais a quem recorrer?
Grizotti
– Quando somos procurados, isso acontece porque as pessoas já não acreditam mais no poder público e nem nas instituições que deveriam investigar esse tipo de situação. Daí acontece uma coisa curiosa, porque a partir do momento em que o assunto sai na imprensa, imediatamente as autoridades agem e, pressionadas pela opinião pública, acabam tomando providências. Tem sido assim na grande maioria das reportagens: colocamos uma matéria no ar e, logo em seguida, alguém é preso, afastado ou denunciado [formalmente]. As providências são imediatas por quê? Porque há uma pressão da opinião pública.

Capeta – Suas fontes procuram antes as autoridades para tentar fazer as denúncias?
Grizotti
– Na maioria dos casos deveria acontecer isso. Acredito até que acontece. Mas, quando as pessoas não recorrem as autoridades, é porque não acreditam ou pensam que haverá uma morosidade muito grande para investigar. E, de fato, todos sabem que a nossa polícia é muito carente de efetivo e, em alguns casos, até de meios materiais, né? E não foi uma, nem duas vezes que eu fui procurado por policiais que pediam equipamentos para utilizar em suas investigações – câmeras escondidas, gravadores ect. Então, claro que se nossa polícia fosse mais bem aparelhada e tivesse mais pessoal, evidentemente que o trabalho aparecia mais, e seria mais proveitoso.

Capeta – Mesmo bastante jovem, já tu acumulas prêmios de porte no jornalismo nacional.
Grizottti
– A gente não faz reportagem para ganhar prêmios. Existe uma indústria de premiação jornalística no Brasil. Muitos prêmios são feitos para determinados segmentos e para contemplar reportagens que falem positivamente sobre determinados assuntos. Nós não procuramos seguir esses parâmetros. As matérias surgem e, se merecerem algum prêmio, ótimo. Senão, o nosso prêmio é o reconhecimento por parte dos telespectadores e dos ouvintes. E, principalmente, o resultado que surge depois da matéria, que é a transformação de uma realidade.

Capeta – Nunca te vi no jornal. Mandas uma foto para publicar?
Grizotti
– (Risos) Eu fujo da lente das câmeras como diabo da cruz. O segredo de fazer esse tipo de matérias é não mostrar o rosto para não ser reconhecido.

Capeta – Faz tempo que fazes isso?
Grizotti
– Praticamente faço isso desde o começo da minha carreira, em Capão da Canoa. Lá eu já havia feito poucas matérias, mas foi quando surgiu o gosto pela investigação. Porque sempre fui o tipo de repórter que tentava fugir um pouco daquela pauta preparada pela chefia, aquela pauta entregue pronta. Sempre procurei buscar meus próprios assuntos. Foi uma característica que acabei trazendo comigo até os dias de hoje. Por isso que as pessoas me procuram pessoalmente; não procuram a chefia, nem a pessoa responsável pela pauta. Há uma relação muito direta entre eu e o público, tanto que 90% das matérias que eu produzo surgem de pessoas como eu, como tu, como qualquer cidadão que nos ouve e assiste.

Capeta – Então tu tens a oportunidade de saber como as coisas repercutem diretamente com o público?
Grizotti – Sim. É impressionante a quantidade de telefonemas e e-mails que eu recebo diariamente. Das pessoas querendo resolver todo tipo de problema. Mas, por acompanhar meu trabalho, claro que hoje elas sabem que a pauta, para ir ao ar, e merecer nossa atenção, tem que interessar à sociedade, abranger um número cada vez maior de pessoas interessadas na resolução daquele problema. Esse costuma ser nosso parâmetro para escolher os assuntos.

Um comentário:

Jussara disse...

Esse cara, O Giovani, É òtimo! Dá-lhe Grisotti!!!